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Apple alerta espionagem em 110 países: o que isso significa

Apple notificou número recorde de pessoas sobre ataques de spyware mercenário em 110 países. Especialistas dizem que a escala real da vigilância é muito maior.

Apple alerta espionagem em 110 países: o que isso significa
Foto: Sora Shimazaki / Unsplash

Na última sexta-feira, a Apple disparou uma nova rodada de notificações a usuários em 110 países alertando que seus dispositivos foram alvo de spyware mercenário, o tipo de software de vigilância normalmente utilizado por governos. Não seria a primeira vez que a empresa faz isso. Mas, segundo organizações de direitos digitais que recebem as vítimas, o volume desta vez não tem precedentes.

A Access Now, uma das ONGs que a própria Apple recomenda às vítimas, registrou um aumento de 30% a 40% no número de pessoas pedindo ajuda em comparação com ondas anteriores de notificações. A firma de cibersegurança iVerify confirmou tendência semelhante. E nas redes sociais, o número de relatos públicos também superou qualquer onda anterior.

Para quem acompanha o mercado de tecnologia e segurança digital, o episódio levanta questões que vão muito além de um comunicado da Apple. Estamos diante de uma escalada real na indústria de vigilância digital, e os alvos não são apenas dissidentes políticos.

O que é spyware mercenário e por que a Apple alerta seus usuários

Spyware mercenário é uma categoria de malware desenvolvida por empresas privadas e vendida a governos e agências de inteligência. O caso mais notório é o do Pegasus, criado pelo grupo israelense NSO, mas ele está longe de ser o único. Essas ferramentas são capazes de acessar câmeras, microfones, mensagens e dados de localização de smartphones sem que o dono perceba.

Desde 2021, a Apple passou a enviar notificações diretas a usuários que identifica como alvos ou vítimas desse tipo de ataque. A empresa já alertou pessoas em mais de 150 países nos últimos anos. A prática é incomum no setor: poucas empresas de tecnologia assumem publicamente que seus dispositivos foram comprometidos por ferramentas de vigilância estatal.

O que mudou em 2025 foi o método. A Apple agora notifica os usuários diretamente na tela de bloqueio do iPhone, no aplicativo de Ajustes, por e-mail e quando fazem login na conta Apple pela web. Segundo Mohammed Al-Maskati, diretor da equipe de investigação da Access Now, esse novo método tornou mais difícil para os alvos ignorarem o alerta. Isso pode explicar parte do aumento nos pedidos de ajuda, mas não toda a história.

Como analisamos em outras coberturas sobre cibersegurança, o mercado de vigilância digital cresce em ritmo acelerado, alimentado pela demanda de governos ao redor do mundo.

Soldados ucranianos entre os alvos: a geopolítica do spyware

Um dos casos mais reveladores desta rodada envolve um soldado das Forças Armadas da Ucrânia que recebeu a notificação. Ele relatou que inicialmente achou que era golpe, até confirmar a veracidade diretamente com a Apple. Disse estar ciente de que outros militares ucranianos também receberam o mesmo alerta.

“Eu não achei que fosse importante o suficiente para ser alvo”, declarou o soldado, que pediu anonimato por razões de segurança. A frase ilustra um ponto central: a percepção pública sobre quem é alvo de espionagem digital está desatualizada.

Durante muito tempo, o senso comum tratou spyware mercenário como problema exclusivo de jornalistas investigativos, ativistas de direitos humanos e opositores políticos. A realidade que emerge desses alertas é diferente. Militares em zonas de conflito, funcionários públicos, empresários e até acadêmicos aparecem cada vez mais entre os alvos.

John Scott-Railton, pesquisador sênior do Citizen Lab, grupo que investiga ataques de spyware governamental há mais de 15 anos, foi direto: “A escala e a diversidade geográfica dos relatos públicos não têm precedentes. Para cada notificação pública, existe um iceberg enorme que o público nunca vai conhecer.”

O iceberg da vigilância: o que os números não mostram

Os especialistas ouvidos são unânimes em um ponto: os números visíveis representam uma fração mínima do problema real. A Apple identifica e notifica apenas os casos que consegue detectar. Há toda uma camada de ataques que não são detectados ou cujas vítimas não tornam o caso público.

É o que Scott-Railton chama de “iceberg de notificações”. Se dezenas de pessoas relatam publicamente, centenas ou milhares podem ter recebido o alerta sem se manifestar. E um número desconhecido pode estar comprometido sem saber.

Esse cenário tem implicações diretas para empresas de tecnologia, investidores do setor de cibersegurança e qualquer pessoa que dependa de dispositivos móveis para comunicações sensíveis. O mercado global de cibersegurança, que segundo a Gartner deve ultrapassar US$ 212 bilhões em 2025, cresce justamente porque a superfície de ataque se expande sem parar.

Para investidores e profissionais que acompanham o setor, o episódio reforça a tese de que empresas de segurança digital estão longe de atingir o teto de crescimento. A demanda por proteção contra ameaças sofisticadas é estrutural, não cíclica.

Lockdown Mode: a defesa que funciona, mas quase ninguém usa

A Apple recomenda que quem recebeu o alerta ative o Lockdown Mode, um recurso de segurança avançado disponível em iPhones, iPads e Macs. Quando ativado, ele restringe diversas funcionalidades do aparelho para reduzir a superfície de ataque. Links em mensagens deixam de gerar pré-visualização, chamadas FaceTime de desconhecidos são bloqueadas, e configurações de rede são endurecidas.

A Apple afirma que não tem conhecimento de nenhum caso em que um dispositivo com Lockdown Mode ativado tenha sido hackeado com sucesso. É uma afirmação forte. Mas o recurso tem uma limitação prática: ele degrada a experiência de uso do aparelho. Por isso, a adoção entre usuários comuns permanece baixa.

Esse é o dilema central da segurança digital contemporânea. As ferramentas de defesa existem, mas exigem sacrifícios de conveniência que a maioria das pessoas não está disposta a fazer até que seja tarde demais.

O que isso significa para o mercado de tecnologia

O episódio reforça três tendências que vêm ganhando corpo. Primeira: a transparência sobre ameaças de segurança está se tornando diferencial competitivo. A Apple, ao notificar vítimas ativamente, se posiciona como empresa que prioriza privacidade, algo que impacta diretamente a percepção de valor da marca.

Segunda: a regulação da indústria de spyware deve avançar. A União Europeia e os Estados Unidos já adotaram sanções contra empresas do setor, e o volume crescente de vítimas públicas aumenta a pressão política. Terceira: o mercado de cibersegurança continua sendo um dos segmentos mais resilientes do setor de tecnologia, com demanda crescente independente do ciclo econômico.

Para o leitor que usa um iPhone ou qualquer smartphone para acessar contas bancárias, carteiras de criptomoedas ou comunicações profissionais, a mensagem é simples. Se a Apple enviar uma notificação dessas, leve a sério. E mesmo que não envie, vale revisar as configurações de segurança do seu dispositivo. O iceberg é maior do que parece.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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