Alphabet perto do topo: como a IA reposicionou o Google
Dona do Google acumula alta de 30% em 2025 e se aproxima da Apple em valor de mercado graças à dominância em IA generativa e nuvem.
A Alphabet está a um sprint de se tornar a empresa mais valiosa do planeta. Com capitalização de mercado próxima a US$ 2,8 trilhões, a dona do Google reduziu a distância para a Apple a menos de 10%. O combustível dessa arrancada tem nome: inteligência artificial.
Nos últimos doze meses, as ações da Alphabet subiram mais de 30%. Mas esse número sozinho não conta a história completa. O que mudou foi a narrativa de mercado. Até meados de 2024, investidores temiam que o Google perdesse relevância com a ascensão do ChatGPT e de concorrentes como o Claude da Anthropic. Essa percepção se inverteu.
O ponto de inflexão: Gemini e a integração vertical
A virada começou com o lançamento do Gemini 2.0 e sua integração profunda ao ecossistema Google. Diferente de concorrentes que operam modelos isolados, a Alphabet apostou em uma estratégia de integração vertical. O Gemini alimenta o Google Search, o Google Workspace, o Android e, crucialmente, o Google Cloud.
Essa última frente é onde o dinheiro aparece. O Google Cloud cresceu 28% no último trimestre reportado, atingindo receita anualizada de US$ 46 bilhões. Boa parte desse crescimento vem de clientes corporativos adotando ferramentas de IA generativa via Vertex AI, a plataforma da Alphabet para desenvolvimento de aplicações com modelos de linguagem.
Como analisamos em nossa cobertura de tecnologia, a corrida entre Google, Microsoft e Amazon na nuvem com IA se tornou a principal arena competitiva das big techs.
A busca não morreu, se reinventou
A grande aposta contrária que o mercado fez contra o Google era de que a IA generativa mataria a busca tradicional. Não aconteceu. O que aconteceu foi o oposto: o Google incorporou respostas geradas por IA diretamente nos resultados de busca, aumentando o tempo de engajamento dos usuários.
Dados do StatCounter mostram que o Google ainda detém 91% do mercado global de buscas. O temido êxodo para assistentes de IA conversacionais não se materializou em escala. O motivo é simples: a busca com IA do Google combina a confiabilidade de um índice com bilhões de páginas com a capacidade conversacional dos modelos de linguagem. Para a maioria dos usuários, não há razão para trocar.
A receita de publicidade, que representa cerca de 75% do faturamento total da Alphabet, continuou crescendo 12% ano contra ano. Não é a taxa explosiva dos anos pré-pandemia, mas é estável e rentável o suficiente para financiar os investimentos pesados em IA.
Waymo e os negócios que ninguém precificava
Além da tríade busca, nuvem e IA, a Alphabet tem um ativo que o mercado começou a reavaliar: a Waymo. A divisão de veículos autônomos, historicamente vista como sumidouro de capital, atingiu 200 mil viagens semanais nos Estados Unidos. Ainda é um negócio que queima caixa, mas o mercado agora precifica a possibilidade real de se tornar lucrativo.
Morgan Stanley revisou recentemente a avaliação da Waymo para US$ 150 bilhões como negócio independente. Se confirmado, seria equivalente a empresas como a Uber em capitalização de mercado. Para a Alphabet, isso representa opcionalidade pura, algo que não está no preço da ação para muitos analistas.
O que falta para ultrapassar a Apple
A Apple tem uma vantagem que não é trivial: margens brutas acima de 45% e um ecossistema de hardware que gera receita recorrente via serviços. Mas a Apple também tem um problema que o mercado reconhece: sua estratégia de IA ainda não convenceu.
Enquanto o Google lidera em modelos de linguagem, infraestrutura de nuvem e dados de treinamento, a Apple depende de parcerias com terceiros para funcionalidades de IA em seus dispositivos. A integração do ChatGPT ao Siri foi vista como uma admissão de atraso, não como uma solução.
Para investidores que acompanham o setor de tecnologia, como discutimos em análises sobre big techs e mercado financeiro, a questão não é se a Alphabet vai ultrapassar a Apple, mas quando. E se a diferença de crescimento em IA se mantiver, o “quando” pode ser mais cedo do que o consenso projeta.
A foto macro: IA como reprificação de ativos
O que está acontecendo com a Alphabet ilustra uma tendência maior. A inteligência artificial não está apenas criando novos produtos. Está reprificando empresas inteiras. Quem consegue demonstrar que a IA gera receita real, e não apenas custos de pesquisa, é recompensado pelo mercado.
A Nvidia foi a primeira beneficiária óbvia dessa lógica, como cobrimos extensivamente. Agora é a vez das empresas que usam os chips para gerar receita em software e serviços. A Alphabet é, talvez, o exemplo mais completo dessa segunda onda: dados proprietários massivos, infraestrutura de nuvem, distribuição global e capacidade de monetização comprovada.
Para quem investe em tecnologia, o recado do mercado é claro. A era em que bastava ter um bom produto de IA acabou. O que importa agora é a capacidade de transformar IA em receita recorrente. E nisso, poucos competem com o Google.