Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.
Finanças

Ações de IA se recuperam, mas o rali tem fundamento?

Após a pior semana desde junho, papéis de tecnologia voltam a subir. Mas o problema de fundo, o custo bilionário da infraestrutura de IA, segue sem resposta clara.

Ações de IA se recuperam, mas o rali tem fundamento?
Foto: Jeremy de Blok / Unsplash

O S&P 500 subia 0,45% e o Nasdaq avançava 0,95% na segunda-feira, 19 de outubro de 2026, puxados justamente pelas ações de tecnologia que haviam sido massacradas nos dias anteriores. Na semana passada, ambos os índices registraram a maior queda semanal desde o final de junho, pressionados pela percepção de que juros elevados podem estrangular o financiamento da infraestrutura de inteligência artificial.

A recuperação pontual não apaga a questão central que provocou a venda: quem vai bancar a conta bilionária da expansão da IA? É uma pergunta que o mercado ainda não respondeu de forma convincente. E a temporada de balanços que começa agora pode dar pistas importantes.

O que derrubou as ações de tecnologia na semana passada

A onda de vendas não foi aleatória. Taxas de juros persistentemente altas nos Estados Unidos tornaram mais caro o capital necessário para construir e operar centros de dados, a espinha dorsal física da revolução da IA. Operadoras de data centers foram as mais atingidas, com a CoreWeave despencando mais de 25% na semana por conta de preocupações com sua dívida de US$ 50 bilhões.

O Índice de Semicondutores da Filadélfia acumulou oito pregões consecutivos de queda, a maior sequência desde outubro de 2008, quando o mundo enfrentava a crise financeira global. A comparação não é trivial. Em 2008, o setor de chips sofria com uma retração brutal na demanda. Em 2026, o problema é diferente: a demanda existe, mas o custo de atendê-la pode inviabilizar os retornos prometidos.

É um debate que já vinha ganhando corpo nos últimos meses, como abordamos na nossa cobertura de finanças. O bull market americano completou recentemente quatro anos, e as mesmas empresas que sustentam esse rali, as big techs de IA, são justamente as que enfrentam a maior pressão de custos.

A recuperação de segunda-feira: fôlego ou fundamento?

No pregão de segunda-feira, Broadcom subia 2,2%, Micron avançava 4,3% e Amazon ganhava 2,3% depois que o Morgan Stanley a elegeu como sua principal recomendação no setor. O Goldman Sachs elevou a classificação da CoreWeave de neutra para compra, argumentando que a queda de 25% abriu uma janela de entrada.

Mas é preciso colocar esses números em perspectiva. Uma alta de 2% a 4% em papéis que caíram duas dígitos na semana anterior é mais um alívio técnico do que uma mudança de convicção. O próprio Sam Stovall, estrategista-chefe da CFRA Research, resumiu: “Não acho que isso tenha acabado ainda.”

Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.

O setor de tecnologia liderava os ganhos no S&P 500 com alta de 1,2%, enquanto a maioria dos papéis do índice, na verdade, operava em queda. O Dow Jones recuava 0,20%, pressionado por JPMorgan, Sherwin-Williams e Visa. É uma divergência reveladora: o dinheiro está voltando seletivamente para tecnologia, não de forma ampla para o mercado.

Balanços da semana vão definir o tom

O verdadeiro teste começa nos próximos dias. Meta divulga resultados na quarta-feira, e Wall Street espera números acima das projeções. No mesmo dia, a Tesla de Elon Musk também reporta. Na terça-feira, é a vez da SpaceX.

O que o mercado quer ouvir não são apenas receitas e lucros. A pergunta implícita em cada conference call será: quanto vocês estão gastando com IA e quando isso vai dar retorno? Empresas que mostrarem disciplina de capital e sinais concretos de monetização devem ser recompensadas. As que apresentarem mais promessas genéricas sobre o futuro da inteligência artificial correm risco de enfrentar nova rodada de vendas.

Como analisamos recentemente ao discutir os impactos da IA no mercado de tecnologia, a transição do hype para a entrega de resultados é o momento mais delicado de qualquer ciclo de inovação. A IA está nesse ponto de inflexão em 2026.

Petróleo em queda e o fator geopolítico

Um fator menos comentado, mas relevante para o humor do mercado nesta segunda-feira, foi a queda de 1,3% nos futuros do Brent, cotados em torno de US$ 108 o barril. O recuo veio após a decisão de Donald Trump de suspender algumas sanções contra a Rússia.

Petróleo mais barato alivia pressões inflacionárias e, em tese, reduz a necessidade de juros ainda mais altos. Para o setor de tecnologia, isso é um alívio duplo: energia mais barata para operar data centers e um argumento a menos para o Federal Reserve manter a política monetária restritiva. Mas trata-se de um alívio pontual, não estrutural. A trajetória dos juros americanos depende de variáveis muito mais amplas do que o preço do barril.

O que tudo isso significa para quem investe

A coincidência de calendário não passou despercebida: o pregão de segunda-feira marcou o 39º aniversário da “Segunda-feira Negra” de 1987, quando o Dow Jones desabou 22,6% em um único dia. Ninguém espera uma repetição, mas o paralelo serve como lembrete de que mercados concentrados em poucos temas, como a IA hoje ou os program tradings em 1987, são inerentemente frágeis.

O rali das ações de IA em 2026 foi construído sobre uma premissa poderosa: a inteligência artificial vai transformar todos os setores da economia. Essa premissa provavelmente está correta. O problema é que transformação de longo prazo e retorno de curto prazo nem sempre andam juntos. As empresas que estão gastando bilhões em infraestrutura hoje podem demorar anos para colher os frutos. E com juros altos, o custo de esperar aumentou consideravelmente.

Os balanços desta semana não vão resolver essa tensão. Mas vão dar ao mercado dados concretos para separar, entre as dezenas de empresas surfando a narrativa da IA, quais estão de fato construindo negócios sustentáveis e quais estão apenas queimando caixa na esperança de que o futuro chegue antes do vencimento da dívida.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.
Compartilhar
Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
Continue scrollando para a próxima matéria…