Artigo

A crise de 1929 de um jeito diferente do que seu professor te ensinou


Por Hugo Montan
Setembro 23, 2021

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Tida como a grande representação causal do liberalismo, a versão ensinada nas escolas da crise de 1929 não representa bem o que realmente aconteceu. Aqui está uma tentativa de mostrar de uma maneira prática e exemplificada o outro lado da moeda. 

Que existe uma longa distância entre a academia e aquilo ensinado em sala de aula, não chega a ser novidade. Em se tratando de pensamento econômico, cujas variáveis estão longe de serem exatas, e mesmo a história é passível de discussão, questões simples podem se tornar complexas.

No caso da história econômica, a disputa entre os campos ortodoxo (o consenso da academia), e a heterodoxa (aquela cuja visão destoa do consenso), ganham ainda um contorno pautado pelo viés do educador. Em suma, muitas vezes nem mesmo o consenso da academia possui espaço nas salas de aula.

Ou como define Paulo Freire, patrono da educação brasileira: “Não basta saber ler mecanicamente ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir uvas e quem lucra com esse trabalho.”

Não é espantoso portanto que a visão dominante em determinadas áreas, coincida com objetivos políticos. Isto é, em essência, o que você precisa saber sobre a visão padrão da crise de 1929, a primeira crise de proporções globais, e cuja consequência é definições do século 20. A disputa em torno da narrativa sobre as causas da crise, são cruciais para sustentar determinado ponto de vista. Neste texto espero poder lhe apresentar um outro ponto de vista.

Nos dias atuais o sistema educacional ensina os alunos a aceitarem uma narrativa pré-definida, sem o intuito de estimular o questionamento e pesquisa por parte dos aprendizes. Tal fato se torna extremamente oportuno quando o evento tratado é dotado de uma grande complexidade, como a crise de 1929. 

Antes de tudo, para entender a crise, é preciso entender o papel do dinheiro, o meio essencial da economia, e que naquela época estava passando por grandes transformações, algo que não é abordado na narrativa comum.

Com o início da Primeira Guerra Mundial, o mundo passou pela maior transição monetária já realizada. O padrão-ouro terminou com os governos implantando o chamado “sistema fiduciário”, que se baseia na emissão de papel moeda pelos bancos centrais. O ponto central que deu origem a todo emblema econômico que resultou na crise foi justamente a atuação do Federal Reserve (Banco Central americano) no mercado.

FED e o aumento do crédito

Especificamente em 1920, o então presidente do FED, Benjamin Strong, alinhou a política monetária dos EUA com as intenções da Grã-Bretanha. A ideia era realinhar a taxa cambial do dólar americano com a libra esterlina, auxiliando o Bank of England em um tentativa de retomar a taxa cambial no mesmo nível de antes da Primeira Guerra Mundial. 

Para isso, era necessário que o forte dólar americano e a fraca libra esterlina fossem reajustados, com uma política inflacionária nos EUA e uma deflacionária na Grã-Bretanha.

Dito e feito, entre 1921 e 1929 o governo americano não evitou a criação de dinheiro na economia, permitindo que os bancos emprestassem dinheiro e expandissem suas linhas creditícias para pessoas físicas e empresas.

A expansão de crédito tornava as taxas de juros artificiais, sem a existência de um lastro real em ouro do dinheiro pré-emitido:

Fonte: Murray Rothbard, America’s Great Depression

Com os recursos sendo destinados para a economia, o discernimento dos investidores foi afetado, culminando nos chamados “Malinvestments”, investimentos mal alocados em virtude do excesso de liquidez monetária injetada no mercado, que por si geraram o excesso de produtividade desproporcional a demanda do mercado (fato que é melhor abordado na Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos).

O gráfico a seguir mostra o total de crédito empresarial concedido por anos:

Fonte: Historical Statistics of the United States, U.S. Census Department.

Como resultado, o índice Dow Jones quase quintuplicou de 1921 até 1929, inflando a bolha do mercado acionário americano até o inevitável crash: 

Fonte: Dow Jones Global Index

Todo essa expansão monetária confunde a ideia de política inflacionista, visto que segundo os índices da época, não houve um crescimento nos preços na economia americana, mas a explicação disso é simples. Com a expansão do crédito a produtividade econômica das indústrias consequentemente aumentou, inundando o mercado com o excesso de mercadorias que por si eram compensadas pelo excesso de liquidez.

Após o inevitável rompimento da bolha no mercado acionário, as medidas governamentais dos presidentes compõem o segundo maior erro dos professores sobre o assunto.

Na narrativa comum ensinada é postulado que o então presidente dos EUA, Herbert Hoover, optou por permanecer inativo diante da crise, por ser um credor da fé de autorregulação dos mercados. Esse erro é tão grotesco que beira o absurdo, na verdade, Hoover não apenas aumentou os gastos do governo em projetos de obras públicas para combater a crise como também se apoiou no FED para expandir o crédito.

Sob a gestão de Hoover, o governo chegou a emitir títulos para financiar obras públicas que tentavam mitigar os efeitos do desemprego, ao todo estima-se que Hoover gastou gigantescos US$ 3 bilhões apenas em obras governamentais, além de implementar políticas de congelamento de preços e salários pré-fixados.

O New Deal de Roosevelt não transformou a lógica econômica que comandava os EUA, muito pelo contrário, apenas maximizou os programas de Hoover que foram implementados. Com o New Deal, a economia americana sofreu mais um grande período expansionista até o fim da WW2, que fortaleceu a noção do keynesianismo ter conquistado a tão sonhada “recuperação econômica”, tendo em vista que a produtividade elevada foi compensada pelo aumento da demanda, tanto interna quanto externa.

Em economês, os gastos agregados aumentaram enquanto o desemprego caía, dando a noção de “prosperidade”.

Dessa forma, o problema que originou toda a crise não foi advindo do liberalismo, muito pelo contrário. A ideia do capitalismo malvado do período entre guerras contém controvérsias e pobreza de dados, que quando raramente são abordados, provam justamente o contrário do ensinado.


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