Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.
Finanças

Lucro dos grandes bancos cresce só 2,4%: o que isso revela

Os três maiores bancos privados lucraram R$ 22,6 bi no trimestre, mas o crescimento tímido esconde uma divergência brutal de rentabilidade entre eles.

Lucro dos grandes bancos cresce só 2,4%: o que isso revela
Foto: Daniel Dan / Unsplash

Itaú Unibanco, Bradesco e Santander Brasil somaram lucro de R$ 22,61 bilhões no terceiro trimestre. O número veio em linha com a expectativa do mercado e representa crescimento de 2,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Na superfície, o dado parece neutro. Mas olhar apenas o agregado é como tirar a média de temperatura entre um freezer e um forno: esconde mais do que revela.

O que a temporada de balanços dos três maiores bancos privados do país deixou claro é que existe uma fratura cada vez mais visível entre quem fez o dever de casa na gestão de risco e quem está pagando o preço de carteiras mais agressivas. A Selic em 13,75% ao ano comprime o crédito, eleva a inadimplência e torna o ambiente operacional muito mais seletivo.

Três bancos, três realidades muito diferentes

O Itaú segue como o nome mais resiliente do setor. Com lucro líquido de R$ 12,6 bilhões e retorno sobre patrimônio (RoE) de 23,6%, o banco respondeu sozinho por mais da metade do resultado combinado do trio. A disciplina na concessão de crédito, privilegiando linhas mais seguras desde antes da piora do ciclo econômico, explica a consistência. Renato Lulia, diretor de estratégia do banco, classificou os resultados como “muito bem em termos absolutos e melhor ainda em termos relativos”.

O Bradesco, por sua vez, completou o 11º trimestre consecutivo de crescimento sequencial do lucro, chegando a R$ 7,1 bilhões. A recuperação estrutural liderada por Marcelo Noronha continua no radar, mas perdeu fôlego. O RoE caiu para 15,6%, impactado em parte por um aumento de R$ 10 bilhões no capital. Sem esse efeito, o indicador teria ficado estacionado em 16,1%. O próprio Noronha reconheceu que o cenário macro exige “mais cautela e andar mais devagar”.

Já o Santander foi o destaque negativo. O lucro líquido despencou 28% na comparação anual, para R$ 2,9 bilhões. O RoE recuou 5,6 pontos percentuais, aterrissando em 11,9%, na contramão da meta da matriz espanhola de elevar o indicador a 20% até 2028. A pressão veio principalmente de carteiras de agronegócio e baixa renda, duas verticais que sofrem mais com juros elevados e comprometimento de renda. Em Madri, a ação da controladora recuou 5% após os números, refletindo a insatisfação dos investidores globais com a operação brasileira.

O peso dos juros altos sobre a inadimplência

O fio condutor desta temporada de balanços é a inadimplência. Com a Selic no patamar mais alto em anos, a renda das famílias fica mais comprometida e sobra menos margem para honrar parcelas de crédito. Empresas, especialmente as de menor porte, também sentem o aperto no caixa.

Esse fenômeno apareceu nos três balanços, mas com intensidades distintas. O Itaú, por ter adotado uma postura conservadora antes da piora do ciclo, mostrou deterioração mais contida. O Bradesco viu a inadimplência subir e impor um revés na melhora que vinha construindo. O Santander enfrentou a pressão mais forte, concentrada em segmentos de renda mais baixa e no setor agrícola.

Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.

A dinâmica não é nova. Como análises anteriores do BlockTrends já mostraram, ciclos de juros prolongados no Brasil historicamente beneficiam bancos com gestão de risco mais conservadora, enquanto penalizam instituições que expandiram crédito de forma agressiva em períodos de Selic baixa.

O cenário político adiciona incerteza ao ciclo

Além do ambiente de juros, o contexto fiscal adiciona uma camada de complexidade. A ausência de sinais claros de ajuste fiscal por parte do governo federal reforça a expectativa de que a Selic permanecerá elevada por um período prolongado. Analistas do Citi apontaram que esse cenário “aumenta a atratividade de negócios bancários com lucros previsíveis, forte retorno de capital e geração de caixa no curto prazo”.

Em termos práticos, isso significa que o Itaú tende a continuar abrindo vantagem enquanto o ambiente não mudar. O banco opera numa posição em que juros altos, paradoxalmente, reforçam sua vantagem competitiva: a margem financeira se beneficia da Selic elevada e a carteira conservadora protege contra calotes.

Para Bradesco e Santander, a equação é mais complicada. O Bradesco precisa de um ambiente macro mais benigno para que a reestruturação de Noronha entregue resultados mais expressivos na última linha. O Santander, por sua vez, tem um caminho longo até a meta de 20% de RoE, e cada trimestre de juros altos torna essa trajetória mais íngreme.

O que isso significa para quem investe no setor

O crescimento de 2,4% no lucro combinado pode soar modesto, mas precisa ser lido com nuance. Em um ambiente de Selic em dois dígitos e renda comprimida, manter rentabilidade é, por si só, um feito. O ponto é que nem todos os bancos conseguiram fazer isso da mesma forma.

A divergência de RoE é reveladora: 23,6% no Itaú contra 11,9% no Santander é uma diferença de quase 12 pontos percentuais. Em termos de geração de valor ao acionista, são teses de investimento fundamentalmente diferentes operando no mesmo setor e no mesmo país.

O trimestre também reforça uma lição que o mercado brasileiro ensina de tempos em tempos: em ciclos restritivos, disciplina de crédito vale mais do que crescimento de carteira. Bancos que priorizaram volume nos anos de Selic baixa agora colhem provisões maiores e resultados mais fracos. Quem foi seletivo colhe estabilidade.

Com a perspectiva de juros elevados se estendendo, a tendência é que essa dispersão de rentabilidade continue. O investidor que olha para o setor bancário brasileiro precisa ir além do número agregado e entender qual instituição está mais preparada para navegar um ciclo que, por ora, não dá sinais de alívio iminente.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.
Compartilhar
Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
Continue scrollando para a próxima matéria…