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Finanças

Ações de IA desabam na Ásia e expõem fragilidade do rali

Realização brutal em papéis de IA derrubou bolsas na Coreia e no Japão, enquanto China e Austrália subiram. O mercado começa a precificar o risco do hype.

Ações de IA desabam na Ásia e expõem fragilidade do rali
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

O pregão desta quinta-feira nas bolsas asiáticas funcionou como um teste de estresse para uma das teses mais populares do mercado global: a aposta em inteligência artificial. Enquanto índices expostos à cadeia de semicondutores e IA sofreram quedas violentas, mercados com perfil diferente registraram altas expressivas. A divergência é um sinal relevante para quem acompanha o setor.

O Kospi, principal índice da Coreia do Sul, tombou 5,28%, fechando em 5.383,80 pontos. Samsung Electronics recuou 7,6% e SK Hynix, fornecedora crucial de memórias para data centers de IA, caiu 9,5%. No Japão, o Nikkei cedeu 1,79%, a 61.077,90 pontos, com perdas ainda mais dramáticas em papéis individuais.

As quedas mais agressivas vieram do Japão

O SoftBank Group, que se reposicionou como veículo de investimento em IA nos últimos trimestres, perdeu 6,8%. A Tokyo Electron, fabricante de equipamentos para produção de chips, despencou 9,4%. Mas o destaque negativo ficou com a Advantest, empresa de equipamentos de teste para semicondutores, que afundou 14,7% em um único pregão.

Quedas dessa magnitude em um único dia não são comuns em empresas dessa capitalização. A Advantest, por exemplo, vinha acumulando alta superior a 200% nos últimos 18 meses, surfando a demanda por chips de IA. O movimento de quinta-feira eliminou semanas de valorização em questão de horas.

Taiwan também sentiu o impacto. O Taiex, índice fortemente concentrado em semicondutores por causa da TSMC e de sua cadeia de fornecedores, recuou 3,2%, fechando em 41.574,72 pontos. Para quem acompanha o mercado de semicondutores, o padrão é claro: quanto maior a exposição à tese de IA, maior foi a perda.

O que motivou a realização e por que ela importa

Dois fatores se combinaram para desencadear a venda generalizada. O primeiro é estrutural: o mercado já vinha questionando a sustentabilidade dos gastos bilionários das big techs em infraestrutura de IA. Empresas como Microsoft, Google e Meta têm investido dezenas de bilhões de dólares em data centers, mas os retornos financeiros concretos ainda são incertos. Esse descompasso entre investimento e receita é o tipo de risco que o mercado eventualmente precifica.

O segundo fator foi conjuntural. A ampla vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos trouxe uma leitura dupla. Por um lado, gerou otimismo em mercados como China e Europa, diante da expectativa de que o novo Congresso pressione pela reversão de tarifas comerciais. Por outro, analistas como Ipek Ozkardeskaya, da Swissquote, apontaram que o novo cenário político pode trazer mais incerteza regulatória e de financiamento para projetos de IA.

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Essa combinação criou o ambiente perfeito para uma realização de lucros concentrada justamente nos papéis que mais subiram nos últimos meses. Como discutimos em análises anteriores sobre o setor de tecnologia, ralis impulsionados por narrativa tendem a sofrer correções abruptas quando os fundamentos são testados.

China e Austrália foram na direção oposta

O contraste com os mercados menos dependentes da cadeia de IA foi marcante. Na China continental, o Xangai Composto subiu 0,10%, a 3.689,91 pontos, e o Shenzhen Composto avançou 1,6%. Em Hong Kong, o Hang Seng saltou 3,67%, chegando a 24.796,98 pontos, impulsionado justamente por ações de tecnologia chinesa que operam em segmentos diferentes da corrida por chips.

A leitura dos mercados chineses foi clara: a possibilidade de alívio nas tarifas comerciais americanas beneficia diretamente exportadores e empresas de consumo. A expectativa de fortalecimento dos laços comerciais com os EUA sob o novo equilíbrio político do Congresso favoreceu a tese de recuperação das ações chinesas, que vinham descontadas.

Na Oceania, a bolsa australiana teve desempenho robusto. O S&P/ASX 200 avançou 2,61%, para 9.065,10 pontos. O impulso veio do setor de mineração: Evolution Mining disparou 14,2%, Northern Star Resources subiu 9,9% e Rio Tinto avançou 7%. São empresas ligadas a commodities, não a semicondutores, o que reforça a tese de rotação setorial.

O que o investidor brasileiro deve observar

Para quem investe a partir do Brasil, o pregão asiático traz lições práticas. A primeira é sobre concentração: carteiras excessivamente expostas a uma única tese, por mais promissora que seja, estão sujeitas a correções como a desta quinta-feira. A segunda é sobre o ciclo de investimentos em IA.

Os gastos de capital das big techs em infraestrutura de IA chegaram a patamares que o mercado começa a questionar. Não se trata de duvidar do potencial da tecnologia, mas de questionar se o retorno sobre o investimento justifica as valuations atuais. Quando a Advantest perde 14,7% em um dia, é o mercado dizendo que o prêmio embutido no preço era grande demais para o nível de certeza disponível.

A rotação para commodities e mercados emergentes, visível tanto na Austrália quanto na China, também é um sinal. Se o cenário político americano de fato caminhar para redução de tarifas, mercados emergentes como o Brasil podem se beneficiar do mesmo fluxo que impulsionou Hong Kong nesta sessão.

O pregão de quinta-feira não decreta o fim da tese de IA. Mas é um lembrete de que narrativas de mercado não sobem em linha reta e de que valuations esticadas eventualmente encontram seu ponto de ruptura. A questão agora é se o movimento foi uma correção saudável dentro de uma tendência de alta ou o início de uma reprecificação mais profunda do setor.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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