Tether lucra US$ 1,5 bi no trimestre: o que sustenta a máquina do USDT
A emissora do USDT manteve lucro estável de US$ 1,5 bi pelo segundo trimestre seguido. Com 700 milhões de usuários e reservas bilionárias, entenda o modelo.
A Tether divulgou os resultados do terceiro trimestre de 2026 com um lucro operacional líquido de US$ 1,5 bilhão. O número repete exatamente o desempenho do segundo trimestre, sinalizando uma estabilidade rara para uma empresa que, poucos anos atrás, era tratada com desconfiança por boa parte do mercado financeiro tradicional.
Mais do que o lucro em si, os números revelam uma operação que já rivaliza em rentabilidade com instituições financeiras centenárias. E fazem isso com uma equipe que não chega a 200 funcionários. Para entender o que está por trás desses resultados, é preciso olhar para a engrenagem que sustenta a maior stablecoin do mundo.
Como a Tether ganha dinheiro com o USDT
O modelo de negócio da Tether é, na essência, simples. Cada USDT emitido precisa ter lastro equivalente em reservas. Quando alguém deposita um dólar para receber USDT, a empresa pega esse dólar e o aplica em ativos que geram rendimento. A diferença entre o retorno desses ativos e o custo operacional da empresa é o lucro.
Com um valor de mercado de US$ 180,3 bilhões em USDT circulando, a Tether administra reservas totais de US$ 191,45 bilhões. Isso significa um excedente de quase US$ 8 bilhões acima do total de passivos, uma margem de segurança que a empresa destaca como proteção contra cenários de estresse no mercado.
O grosso dessas reservas está em títulos do Tesouro americano: US$ 122,8 bilhões, ou 66,9% do total. É uma posição que, no contexto atual de juros ainda elevados nos Estados Unidos, gera um fluxo de receita previsível e robusto. Para efeito de comparação, como já abordamos em análises anteriores sobre o mercado de stablecoins, essa posição em Treasuries faz da Tether um dos maiores detentores de dívida americana do mundo, à frente de diversos países.
A composição das reservas e a tese de sobrevivência
Além dos títulos do Tesouro, a alocação da Tether inclui camadas diversificadas. São US$ 19,1 bilhões em ouro, US$ 16,7 bilhões em acordos de recompra reversa, US$ 14,2 bilhões em empréstimos garantidos e US$ 8,4 bilhões em Bitcoin. O restante está distribuído em outros investimentos.
A presença de Bitcoin e ouro na composição não é acidental. Paolo Ardoino, CEO da empresa, já declarou que considera esses ativos, junto com terras, capazes de “sobreviver a um cenário apocalíptico”. É uma filosofia de gestão de reservas que combina instrumentos de alta liquidez, como os Treasuries e os repos reversos, com ativos de preservação de valor no longo prazo.
Essa estratégia de barbell, com pés na liquidez imediata e na proteção contra riscos extremos, é o que permite à Tether afirmar que pode honrar resgates mesmo em momentos de turbulência. E o mercado tem testado essa promessa. Na mesma semana dos resultados, a empresa congelou US$ 1,567 bilhão em USDT vinculados a um ataque hacker, demonstrando capacidade operacional de resposta rápida. O caso ilustra um tema que temos acompanhado em nossa cobertura sobre segurança no mercado cripto.
700 milhões de usuários e a tese de inclusão financeira
Talvez o dado mais expressivo do relatório não esteja no balanço financeiro, mas na base de usuários. Segundo Ardoino, o USDT atingiu um recorde histórico de mais de 700 milhões de pessoas, concentradas majoritariamente em mercados emergentes. O Brasil aparece entre os mercados relevantes na América Latina.
O volume de negociação diário reforça essa tese. Com US$ 121,5 bilhões nas 24 horas anteriores ao relatório, o USDT sozinho superou os volumes combinados de Bitcoin, Ethereum, USDC e Solana. É um indicador que mostra como a stablecoin se tornou a infraestrutura de liquidez padrão do mercado cripto, funcionando como o “dólar digital” de facto para milhões de pessoas sem acesso fácil ao sistema bancário internacional.
Essa dinâmica é particularmente relevante para o Brasil, onde o USDT é amplamente utilizado como veículo de dolarização por investidores de varejo. Como discutimos em matérias sobre câmbio e proteção patrimonial, a demanda por exposição ao dólar via stablecoins cresce em períodos de incerteza doméstica.
O que os números dizem sobre a sustentabilidade do modelo
Dois trimestres consecutivos com US$ 1,5 bilhão de lucro operacional projetam uma rentabilidade anualizada na casa dos US$ 6 bilhões. Para uma empresa privada, sem capital aberto, esses números colocam a Tether em um patamar comparável ao de gestoras globais de grande porte.
A sustentabilidade, porém, depende de duas variáveis. A primeira é a política monetária americana. Enquanto os juros permanecerem em patamares elevados, os Treasuries continuarão gerando rendimentos expressivos sobre a base de reservas. Uma eventual queda agressiva da taxa de juros pelo Federal Reserve comprimiria a margem de lucro da Tether de forma significativa.
A segunda variável é regulatória. Legislações sobre stablecoins estão avançando tanto nos Estados Unidos quanto na Europa e em mercados como o Brasil. A depender das exigências de reserva, compliance e transparência que forem impostas, o custo operacional pode subir e o modelo de alocação de reservas pode ser restringido. Ardoino parece antecipar esse cenário ao enfatizar a solidez financeira e o excedente de reservas como demonstração de responsabilidade institucional.
Por que isso importa para o investidor
O USDT não é um investimento, é uma infraestrutura. Mas a saúde financeira da Tether impacta diretamente qualquer pessoa que mantenha saldo em USDT ou o utilize como par de negociação. Um colchão de quase US$ 8 bilhões acima dos passivos é sinal de estabilidade, mas não elimina riscos sistêmicos ou regulatórios.
Para o ecossistema cripto como um todo, a escala da Tether é ao mesmo tempo uma fortaleza e uma concentração de risco. Enquanto a empresa mantiver a máquina funcionando e os resgates sendo honrados, o USDT continua como espinha dorsal de liquidez do mercado. O dia em que isso mudar, se mudar, o impacto será sentido em todos os cantos do setor.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


