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Intel desaba 28% e governo dos EUA perde US$ 12 bi

Intel teve um dos piores pregões da história após projeção fraca para o 4º trimestre. Governo Trump, que comprou 10% da empresa, viu US$ 12 bi evaporarem.

Intel desaba 28% e governo dos EUA perde US$ 12 bi
Foto: ed br / Unsplash

A Intel viveu na sexta-feira um dos piores pregões de sua história recente. As ações da fabricante de chips despencaram cerca de 28% após a empresa divulgar uma projeção de receita para o quarto trimestre muito abaixo do esperado pelo mercado. O impacto foi imediato e brutal: a participação de 10% que o governo dos Estados Unidos detém na companhia perdeu aproximadamente US$ 12 bilhões em valor de mercado em um único dia.

A queda arrastou parte do setor de semicondutores. A Nvidia, que também adquiriu uma fatia relevante da Intel em 2025, viu suas ações recuarem na mesma sessão. O movimento ilustra como a cadeia de chips continua sendo um dos pontos mais sensíveis do mercado de tecnologia.

O que deu errado na projeção da Intel

O gatilho para a venda massiva foi a orientação da Intel para o quarto trimestre. A empresa projetou receita entre US$ 15 bilhões e US$ 16 bilhões, quando analistas esperavam algo em torno de US$ 17 bilhões. Uma diferença de até US$ 2 bilhões pode parecer modesta para uma big tech, mas em um setor que negocia com múltiplos elevados, qualquer frustração é amplificada.

Além da receita abaixo do consenso, a Intel alertou que sua margem bruta cairia de 43% para 37%. E o cenário de caixa tampouco animou: a companhia indicou que está investindo tão pesadamente em capacidade fabril que não espera gerar fluxo de caixa positivo no período. Para investidores que já estavam cautelosos com a dinâmica do mercado de semicondutores, foi o sinal de saída.

O problema que a IA criou para os PCs

O CEO da Intel, Lip-Bu Tan, apontou um culpado direto para a desaceleração: a própria inteligência artificial. A demanda da indústria de IA por memória e outros componentes está desviando a oferta do mercado de PCs. Isso eleva os preços de sistemas, pressionando orçamentos de TI que já estavam limitados.

“Nossos clientes começaram a sinalizar uma desaceleração no mercado de PCs baseada nos preços e disponibilidade de memória”, explicou Tan na teleconferência. É uma dinâmica curiosa: a IA, que deveria ser a grande oportunidade para fabricantes de chips, está canibalizando uma das linhas de receita mais tradicionais da Intel.

Os preços de sistemas para o usuário final subiram significativamente ao longo do ano, segundo a própria empresa. Essa pressão de custo restringe a demanda exatamente no momento em que a Intel precisaria de volume para sustentar suas margens operacionais. Como discutimos em análises anteriores sobre o impacto da IA nos mercados, os efeitos colaterais da corrida por infraestrutura de inteligência artificial são complexos e nem sempre positivos para todos os elos da cadeia.

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Data centers crescem, mas não compensam

Nem tudo foi negativo no balanço. A receita da divisão de data centers da Intel cresceu 78% na comparação anual, um número expressivo que mostra que a empresa não está completamente fora da corrida pela infraestrutura de IA. O problema é que esse crescimento ainda não tem escala suficiente para compensar a deterioração no segmento de PCs.

A Intel enfrenta um gargalo estrutural nesse front. Sua nova fábrica no Arizona já está operacional, mas a próxima unidade só deve entrar em funcionamento em 2028. Até lá, a companhia compete com a Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TSMC) com capacidade limitada para atrair clientes externos para seus serviços de fabricação sob contrato.

A TSMC, por sua vez, opera com margens superiores a 50% e tem uma carteira de clientes que inclui Apple, AMD e a própria Nvidia. A distância competitiva continua sendo um dos maiores desafios da Intel, mesmo com os bilhões investidos na expansão fabril apoiada pelo governo americano.

O investimento do governo Trump ainda é lucrativo, mas o risco subiu

A participação de 10% adquirida pela administração Trump há pouco mais de um ano fazia parte de uma estratégia geopolítica clara: fortalecer a produção doméstica de semicondutores nos EUA e reduzir a dependência da fabricação asiática. Na época, a aposta foi vista como ousada e, até recentemente, parecia bem-sucedida.

Mesmo após a queda de 28%, as ações da Intel ainda acumulam alta superior a 70% no ano. Ou seja, o investimento governamental continua no lucro, assim como a posição da Nvidia na empresa. Mas a margem de segurança diminuiu drasticamente em um único pregão.

O episódio levanta uma questão mais ampla sobre a estratégia de governos investindo diretamente em empresas listadas. Quando a tese funciona, os retornos são expressivos e o benefício geopolítico se soma ao financeiro. Quando os fundamentos deterioram, o contribuinte fica exposto à volatilidade típica do mercado de ações, algo que fundos soberanos conhecem bem mas que governos raramente precificam no discurso político.

O que isso significa para o investidor

A queda da Intel é um lembrete de que mesmo empresas com apoio estatal e papel estratégico na geopolítica global não estão imunes a fundamentos deteriorados. A companhia precisa executar uma transição complexa: manter relevância em PCs enquanto escala sua operação de data centers e foundry, tudo isso queimando caixa em um ciclo de investimento pesado.

Para quem acompanha o setor de semicondutores, o sinal é de que a bifurcação entre vencedores e perdedores da era da IA está se aprofundando. Nvidia e TSMC concentram a maior parte dos ganhos, enquanto fabricantes tradicionais como a Intel lutam para se reposicionar. O mercado, como ficou claro na sexta-feira, não tem paciência para esperar até 2028.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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