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Finanças

Balanço do Google abala confiança em IA e Nasdaq cai forte

Receita da Alphabet ficou abaixo do esperado, ações caíram 10% no after market e Nasdaq Futuro recua mais de 1%. O mercado quer saber: os bilhões em IA vão dar retorno?

Balanço do Google abala confiança em IA e Nasdaq cai forte
Foto: Leeloo The First / Unsplash

A Alphabet, controladora do Google, entregou um balanço trimestral que ficou aquém das expectativas do mercado. As vendas vieram abaixo do consenso e as ações despencaram 10% no pregão estendido na quarta-feira (28). Na manhã desta quinta, o Nasdaq Futuro já recuava mais de 1%, contaminando o humor dos investidores em relação a todo o setor de tecnologia.

O resultado reacendeu uma pergunta que tem tirado o sono de gestores ao redor do mundo: os bilhões de dólares despejados em inteligência artificial pelas big techs vão, de fato, se converter em lucro?

O que deu errado no balanço da Alphabet

O problema não foi necessariamente um trimestre catastrófico. Foi a combinação de receita abaixo do esperado com a percepção crescente de que o Google pode estar perdendo terreno na corrida pela IA. Enquanto concorrentes como Microsoft e Meta têm mostrado monetização mais clara de seus investimentos em modelos de linguagem e infraestrutura de nuvem voltada para IA, a Alphabet segue queimando centenas de bilhões sem entregar o mesmo nível de evidência de retorno.

Para um mercado que já estava exigindo provas concretas de que os investimentos em IA são sustentáveis, o tropeço foi suficiente para derrubar o papel com força. A queda de 10% no after market representa uma destruição de valor na casa das dezenas de bilhões de dólares em uma única sessão.

Como analisamos em matérias anteriores sobre o setor de tecnologia, a paciência dos investidores com gastos massivos de capital tem um limite. E esse limite parece estar cada vez mais próximo.

O efeito dominó sobre o Nasdaq e as big techs

A queda da Alphabet não é um evento isolado. Ela funciona como um termômetro para o restante do setor. Nesta quinta-feira, a Amazon divulga seus resultados trimestrais. Na semana que vem, é a vez da Apple. O mercado vai passar por uma sequência de testes que vai definir se a narrativa de IA como motor de crescimento ainda se sustenta ou se entramos em uma fase de ceticismo mais amplo.

Há um padrão se repetindo: os investidores não questionam se a inteligência artificial é transformadora. Questionam se as empresas que estão investindo pesado conseguem capturar valor na velocidade que suas avaliações de mercado exigem. A diferença entre “a IA vai mudar o mundo” e “a IA vai dar retorno este trimestre” é enorme, e é exatamente nessa lacuna que o mercado está operando.

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A dinâmica se assemelha ao que aconteceu com investimentos em computação em nuvem há uma década, quando empresas gastaram bilhões antes de o mercado ver os resultados. A diferença é que, hoje, os valores envolvidos são uma ordem de grandeza maiores, como detalhamos em nossa cobertura de finanças.

Fed mantém juros e reforça tom hawkish

A turbulência no setor de tecnologia ocorre em um momento delicado para a política monetária americana. Na quarta-feira, o Federal Reserve manteve a taxa básica de juros na faixa entre 3,75% e 4%, conforme amplamente esperado. A decisão veio após uma alta de 0,25 ponto percentual em setembro.

O comunicado do FOMC, no entanto, foi interpretado como hawkish. O comitê destacou a persistência de incertezas geopolíticas e a resiliência da demanda doméstica, sustentada por investimentos robustos. Na leitura de economistas, a sinalização mantém a inflação no centro das preocupações do Fed e abre caminho para uma nova alta de 0,25 ponto percentual em dezembro.

Para o setor de tecnologia, juros mais altos por mais tempo significam custo de capital elevado. Empresas que estão em fase de investimento pesado, como as big techs apostando em IA, sofrem mais nesse cenário porque o mercado desconta seus fluxos de caixa futuros a taxas maiores. Em outras palavras: quanto mais alto o juro, maior precisa ser a evidência de retorno para justificar os gastos.

O que isso significa para quem investe

O cenário pede cautela e seletividade. Não se trata de abandonar a tese de inteligência artificial, que segue sendo a maior revolução tecnológica em décadas. Trata-se de entender que o mercado está entrando em uma fase de diferenciação: vai separar as empresas que conseguem monetizar IA daquelas que apenas gastam com ela.

Os próximos balanços da Amazon e da Apple serão decisivos. Se ambas mostrarem números sólidos, o tropeço da Alphabet pode ser interpretado como um caso isolado. Mas se o padrão de receita abaixo do esperado se repetir, o mercado pode reavaliar de forma mais ampla os múltiplos do setor de tecnologia.

Do lado macroeconômico, a postura do Fed adiciona pressão. Uma eventual alta de juros em dezembro tornaria o ambiente ainda mais desafiador para ativos de risco, incluindo ações de tecnologia e criptomoedas, que historicamente sofrem em ciclos de aperto monetário.

Na Europa, o Banco Central Europeu decide sobre juros ainda nesta quinta. Uma eventual alta do lado europeu reforçaria a tendência global de política monetária mais restritiva, criando um ambiente de liquidez mais apertada que tende a penalizar ativos de crescimento.

O mercado global na manhã desta quinta

Enquanto o Nasdaq Futuro recuava mais de 1%, os mercados europeus operavam em alta, impulsionados justamente pela expectativa em torno da decisão do BCE. Na Ásia, o fechamento foi misto: o índice Kospi, da Coreia do Sul, caiu 1,2% em uma reversão abrupta após ter registrado seu maior ganho em três meses na sessão anterior.

Os preços do petróleo operavam em baixa, com esperanças de negociações de paz no Oriente Médio reduzindo o prêmio de risco sobre o fornecimento. Já o minério de ferro na China subiu, puxado pelo aumento da produção de ferro-gusa nas siderúrgicas chinesas, embora restrições de produção na província de Hebei tenham limitado os ganhos.

O quadro geral é de um mercado testando a narrativa dominante dos últimos dois anos. A inteligência artificial segue como tese central, mas o balanço da Alphabet mostrou que o mercado não vai aceitar promessas para sempre. Quer ver resultados.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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