Itaipu financia data centers de IA, mas no Paraguai
Paraguai atrai megaprojeto americano de infraestrutura para inteligência artificial usando energia de Itaipu. O Brasil bancou US$ 89,8 bilhões da usina e pode ficar para trás na corrida.
O vice-secretário de Estado dos EUA, Christopher Landau, visitou a usina de Itaipu nesta semana e anunciou uma parceria estratégica entre a americana Crusoe e a paraguaia Araico para construir um megaprojeto de infraestrutura voltado à inteligência artificial. A eletricidade que vai alimentar os servidores é a mesma de Itaipu, empreendimento quase inteiramente financiado por empréstimos garantidos pelo Tesouro Nacional brasileiro.
A ironia é difícil de ignorar. O Brasil pagou US$ 89,8 bilhões em custos líquidos desde o início das operações da usina, segundo dados do Instituto Acende Brasil. O Paraguai obteve receitas de US$ 5,9 bilhões no mesmo período. E agora é o país vizinho que sai na frente para capturar o maior ciclo de investimentos em infraestrutura tecnológica da década.
O projeto de IA que pode mudar o Paraguai
O Departamento de Estado americano classificou a parceria Crusoe-Araico como “potencialmente um dos maiores investimentos privados na história do Paraguai”. A primeira fase do projeto deve entrar em operação em meados de 2027, oferecendo serviços de cloud computing para consumidores nos Estados Unidos e na América Latina.
A Araico planeja construir o Iguazi AI City, um campus de data centers com meta de atingir até 1,3 GW de capacidade total no longo prazo. Para se ter ideia da escala, isso equivale a mais da metade da capacidade contratada de toda a usina de Itaipu pelo lado paraguaio.
Além do acordo de IA, a Uranium Energy Corp anunciou um investimento de US$ 12 milhões para desenvolver concessões de exploração de urânio em solo paraguaio. A visita de Landau foi acompanhada por uma delegação comercial focada em tecnologia, minerais críticos, infraestrutura fluvial e logística. O presidente paraguaio Santiago Peña acompanhou pessoalmente o tour pela hidrelétrica.
Por que o Paraguai tem vantagem sobre o Brasil
A equação é simples: energia barata, abundante e disponível. O Paraguai tem direito a 50% da geração de Itaipu e 50% da geração de Yaciretá, usina em sociedade com a Argentina. Mas o consumo interno paraguaio é uma fração dessa capacidade. Em 2025, o país usou apenas 36% da sua fatia de Itaipu.
Marcos Peigo, CEO da Scala Data Centers, uma das maiores empresas do setor na América Latina, afirmou que o Paraguai tem potencial para atingir 1 GW em data centers antes do Brasil, caso o país não aprove rapidamente incentivos tributários estaduais para a indústria. O governo paraguaio, segundo Peigo, “fez a lição de casa de rodar o mundo com o presidente” e está cumprindo suas promessas ao mercado.
O Brasil aprovou recentemente o Redata no Congresso, programa de incentivos fiscais para data centers. Mas a implementação depende de adesão dos estados, e o ritmo da burocracia brasileira pode custar posições numa corrida global que se mede em meses, não em anos.
A conta desproporcional de Itaipu para o brasileiro
O tratado binacional de Itaipu, assinado em 1973, foi desenhado para permitir que o Paraguai, com economia muito menor, conseguisse arcar com seus compromissos. Claudio Sales, presidente do Acende Brasil, reconhece que “o desenho do tratado é de uma brilhante engenharia diplomática”, mas afirma que negociações desfavoráveis ao Brasil nas últimas duas décadas distorceram os números além do razoável.
Em 2009, um acordo entre os presidentes Lula e Fernando Lugo aumentou os pagamentos brasileiros pela fatia de energia não utilizada pelos paraguaios. Hoje, o Paraguai recebe 59% dos repasses financeiros da usina, enquanto 89% dos custos ficam com o lado brasileiro.
As despesas socioambientais da usina ilustram o problema. Até 2016, essas despesas ficavam em torno de US$ 100 milhões por ano. Em 2022, saltaram para US$ 505 milhões. Em 2025, atingiram US$ 1,2 bilhão. Parte desses recursos foi direcionada para fins desconectados da operação da usina, como obras para a COP-30 no Pará e apoio à Universidade Federal de Integração Latino-Americana.
“Essas despesas viraram um verdadeiro orçamento paralelo que, por Itaipu ser fruto de um tratado binacional, não se sujeita aos controles do Tribunal de Contas da União e do Congresso”, afirmou Sales. Tudo isso é repassado à tarifa de energia e bancado pelo consumidor brasileiro na conta de luz.
O que está em jogo para o Brasil na corrida dos data centers
A demanda global por infraestrutura de IA está redefinindo a geopolítica energética. Países com energia barata e regulação ágil estão atraindo bilhões em investimentos. A corrida por data centers se tornou um dos vetores mais relevantes de desenvolvimento econômico no mundo.
O Brasil tem a maior matriz elétrica renovável entre as grandes economias, com capacidade instalada superior a 200 GW. Mas enfrenta gargalos regulatórios, tributários e de transmissão que dificultam a conversão dessa vantagem em projetos concretos. Enquanto isso, o Paraguai oferece ao mercado americano exatamente o que ele procura: energia limpa, preço competitivo e velocidade de implementação.
A situação cria um paradoxo incômodo. O contribuinte brasileiro financiou a construção e a operação de Itaipu por décadas. O custo aparece na conta de luz de cada residência e empresa do país. E agora, a energia excedente dessa mesma usina pode se tornar a base da infraestrutura de inteligência artificial da América Latina, gerando empregos, receita fiscal e posicionamento estratégico para o Paraguai.
Para o investidor brasileiro, o recado é claro: a vantagem energética do país não se traduz automaticamente em vantagem competitiva. Sem agilidade regulatória e incentivos claros, o Brasil corre o risco de assistir seus vizinhos colherem os frutos de uma infraestrutura que ele mesmo ajudou a construir.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


