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Finanças

Bradesco perde fôlego no 3º tri com macro pesando

Lucro do Bradesco cresceu apenas 0,8% no trimestre, com inadimplência subindo para 4,6% e provisões avançando 24% no ano. O cenário macro limita a recuperação.

Bradesco perde fôlego no 3º tri com macro pesando
Foto: Daniel Dan / Unsplash

O Bradesco entregou um terceiro trimestre que, na superfície, parece razoável. Lucro de R$ 7,1 bilhões, crescimento anual de 14,6%. Mas basta arranhar um pouco para entender por que o mercado recebeu os números com frieza. O crescimento sequencial foi de apenas 0,8%, a inadimplência subiu em praticamente todas as linhas e o ROE recuou para 15,6%. O ritmo de melhora que vinha sustentando a tese de recuperação do banco parece ter encontrado um teto.

O cenário macroeconômico, com juros elevados e atividade econômica perdendo tração, não é novidade para ninguém. Mas o balanço do Bradesco mostra como esse ambiente se traduz, na prática, nos números de um grande banco de varejo.

A inadimplência voltou a incomodar

O dado mais preocupante do trimestre é a escalada da inadimplência. O índice total acima de 90 dias subiu para 4,6%, ante 4,3% em junho e 4,1% em setembro de 2025. Na carteira de pessoas físicas, a taxa alcançou 5,8%, contra 5,5% no trimestre anterior. Nas pequenas e médias empresas, o avanço foi ainda mais agressivo: de 4,4% para 4,9% no trimestre, e de 3,7% em junho para o patamar atual.

Parte desse aumento tem explicação técnica. Os fundos garantidores FGI e FGO liberam garantias entre 120 e 180 dias após o crédito ser considerado inadimplente. Até lá, os valores não pagos inflam os índices de atraso. Mas houve também deterioração real na carteira rural, com impacto sobre pessoas físicas, segundo o próprio banco reconheceu.

O reflexo direto aparece nas provisões, que subiram 7% no trimestre e 24% na comparação anual. Esse é o custo concreto de operar em um ambiente de crédito mais arriscado, como temos analisado na cobertura do setor financeiro.

Crédito cresce menos e com margem menor

A carteira de crédito do Bradesco expandiu 1,1% no trimestre e 11,1% na base anual. São números inferiores aos trimestres anteriores e refletem uma estratégia deliberada de cautela. O banco vem concentrando a expansão em linhas com mais garantias, que já representam 61,2% do total de empréstimos, ante 59,5% no mesmo período de 2025.

O problema é que linhas garantidas são, via de regra, menos rentáveis. Isso comprimiu a margem com clientes, que cresceu apenas 1,5% no trimestre e 10,1% no ano, abaixo do que o mercado esperava. A margem das operações de crédito pós-provisão caiu para 4,2%.

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O CEO Marcelo Noronha reconheceu a pressão, mas contextualizou: “Estamos dentro do mercado brasileiro, e existe uma pressão geral na inadimplência e no custo de crédito. Nosso mix é diferente do de anos atrás. A carteira está mais protegida e controlada.” Segundo ele, se houvesse um cenário macroeconômico favorável, a carteira poderia crescer 20% no ano, com impacto de até R$ 500 milhões no lucro líquido.

O que funcionou no trimestre

Nem tudo foi negativo. O controle de despesas seguiu como ponto forte do banco na gestão Noronha. As despesas operacionais caíram 0,7% no trimestre e 1% na comparação anual. As receitas de prestação de serviços cresceram 4,2% sequencialmente e 3,1% no ano, ajudando a compensar parcialmente a pressão sobre a margem financeira.

Com isso, o índice de eficiência operacional melhorou para 45%, um número respeitável para um banco do porte do Bradesco. O aumento de capital de R$ 10 bilhões, concluído recentemente, elevou o índice de capital principal de 11,3% para 12,1%, dando ao banco mais fôlego regulatório para absorver eventuais choques. A capitalização dos grandes bancos brasileiros tem sido um tema recorrente neste ciclo de aperto monetário.

Seguradora também perdeu força

A Bradseg, braço de seguros do conglomerado, também apresentou resultados mais fracos. O resultado das operações de seguros, previdência e capitalização somou R$ 5,6 bilhões no terceiro trimestre, com queda de 9% no sequencial e 2% no ano. O lucro líquido da seguradora foi de R$ 2,8 bilhões, recuo de 2% frente ao primeiro trimestre, embora 14% acima do mesmo período de 2025.

O ROE da seguradora caiu de 22,8% para 22%. Segundo o CEO da Bradseg, Ney Dias, a sinistralidade aumentou por fatores sazonais em diferentes linhas, e o resultado financeiro foi pressionado por um IPCA menor, dado que parte do passivo está investida em ativos atrelados à inflação. Na visão acumulada de nove meses, o resultado cresceu 9% e o lucro avançou 18%, para R$ 8,6 bilhões.

O que está em jogo para o Bradesco

O balanço do terceiro trimestre coloca uma pergunta central sobre a mesa: o Bradesco consegue manter a trajetória de recuperação que vinha entregando desde o início do plano estratégico de Noronha, ou o cenário macro vai impor um platô de resultados?

Os números sugerem que a segunda hipótese está mais próxima da realidade, pelo menos no curto prazo. O banco fez o dever de casa no que depende da gestão: cortou custos, melhorou eficiência, diversificou receitas e fortaleceu o capital. Mas a inadimplência é uma variável que depende menos do banco e mais do ambiente econômico.

O aumento de capital de R$ 10 bilhões sinaliza que a própria administração não esperava um caminho fácil. A capitalização deve permitir ao banco manter o crescimento de crédito sem comprometer os índices regulatórios, mas o retorno sobre esse capital adicional ainda precisa aparecer nos resultados. Como discutimos na análise do setor bancário brasileiro, o ambiente de Selic elevada cria um paradoxo: melhora a margem financeira por um lado, mas deteriora a qualidade dos ativos por outro.

Para o investidor, a leitura é que o Bradesco continua sendo uma aposta na normalização do ciclo econômico. O banco tem a estrutura e o capital para se beneficiar quando o cenário melhorar. A questão é quando isso acontece, e a resposta depende de variáveis que vão muito além do que qualquer CEO pode controlar.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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