Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.
Criptomoedas

Bitcoin cai abaixo de US$ 80 mil com tensão no Oriente Médio

Evacuação de pessoal americano no Oriente Médio e ameaças contra o Irã derrubam o bitcoin abaixo de US$ 80 mil e pressionam todo o mercado cripto neste fim de semana.

Bitcoin cai abaixo de US$ 80 mil com tensão no Oriente Médio
Foto: Lara Jameson / Unsplash

O fim de semana trouxe um lembrete incômodo para quem acredita que o bitcoin já se descolou completamente dos riscos geopolíticos tradicionais. A principal criptomoeda do mercado recuou 2,2% nas últimas 24 horas e voltou a ser negociada abaixo de US$ 80 mil, cotada a US$ 79.700. Ethereum, XRP e Solana acompanharam o movimento, com perdas na faixa de 3% a 4%.

O gatilho veio do Oriente Médio. Os Estados Unidos iniciaram a evacuação acelerada de pessoal diplomático e militar de embaixadas e bases espalhadas pela região, após relatórios de inteligência indicarem que o Irã estaria em estágio avançado de preparação para ataques contra cidadãos americanos.

O que está acontecendo entre EUA e Irã

De acordo com um memorando enviado na sexta-feira pelo diretor de inteligência nacional, Jay Clayton, ao secretário de Estado Marco Rubio, o Irã “aumentou substancialmente os esforços para atacar pessoal dos EUA”. O documento detalha que os planos letais iranianos atingiram “estágios avançados” tanto no Oriente Médio quanto em outros países.

A movimentação vai além dos relatos do início da semana, que davam conta apenas da retirada de parte do corpo diplomático na Arábia Saudita. Agora, o escopo da evacuação parece abranger diversas instalações americanas na região.

Em paralelo, o presidente Donald Trump elevou o tom retórico. Em um comício na Flórida na sexta-feira, ele sinalizou a possibilidade de uma nova escalada militar contra o Irã após as eleições de meio de mandato, em novembro. “Talvez façamos outra pequena ‘Epic Fury'”, disse, em referência a operações militares anteriores.

Por que a geopolítica ainda derruba o bitcoin

Existe uma tese popular de que o bitcoin funciona como “ouro digital”, um ativo de refúgio em momentos de incerteza global. Na prática, os dados contam uma história mais nuançada. Como acompanhamos regularmente na cobertura do mercado cripto, em choques geopolíticos agudos, o comportamento do bitcoin tende a se assemelhar mais ao de um ativo de risco do que ao de um porto seguro.

A explicação é relativamente simples. Nos fins de semana, os mercados tradicionais estão fechados. O cripto, que opera 24 horas por dia e sete dias por semana, acaba funcionando como a única válvula de escape para investidores que querem reduzir exposição ao risco imediatamente. O resultado é uma pressão vendedora concentrada que amplifica a queda.

Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.

Esse padrão se repetiu em episódios anteriores. Em outubro de 2023, quando o conflito entre Israel e Hamas escalou, o bitcoin sofreu uma queda inicial de cerca de 4% antes de se recuperar ao longo das semanas seguintes. O ouro, por contraste, subiu imediatamente.

O contexto macro não ajuda

A tensão geopolítica não opera no vácuo. O mercado cripto já vinha sob pressão por fatores macroeconômicos. As taxas de financiamento no mercado de futuros de criptomoedas comprimiram para cerca de 4%, sinal de que a alavancagem especulativa diminuiu e o apetite por risco está mais contido.

Para se ter uma referência, em períodos de euforia do mercado cripto, essas taxas costumam superar 15% ao ano. A compressão para 4% sugere um mercado cauteloso, que já estava em modo defensivo antes mesmo da escalada no Oriente Médio. A análise do cenário de juros e política monetária ajuda a entender por que os ativos de risco, incluindo cripto, enfrentam resistência neste momento.

O patamar de US$ 80 mil, que parecia um suporte consolidado há poucas semanas, agora virou uma zona de disputa. A perda desse nível abre espaço técnico para testes em regiões mais baixas, embora o histórico mostre que o bitcoin costuma se recuperar rapidamente de quedas motivadas por eventos geopolíticos pontuais.

E as altcoins sofrem mais

Como é habitual em momentos de aversão ao risco, as altcoins caem mais do que o bitcoin. Ethereum, XRP e Solana registraram perdas entre 3% e 4% no mesmo período em que o bitcoin recuou 2,2%. Esse diferencial de volatilidade reforça o papel do bitcoin como “blue chip” do mercado cripto, o último ativo a ser vendido em momentos de estresse.

O fenômeno é conhecido como “flight to quality” dentro do próprio ecossistema cripto. Investidores reduzem posições em tokens de maior risco e, quando mantêm exposição, concentram em bitcoin. A dominância do bitcoin sobre o mercado total de criptomoedas tende a subir nessas janelas de incerteza.

O que observar nos próximos dias

O desenrolar da situação no Oriente Médio será o principal termômetro para o mercado na segunda-feira. Se a evacuação americana se limitar a uma medida preventiva sem confronto direto, a tendência é de recuperação rápida. Se houver qualquer tipo de engajamento militar, a pressão sobre ativos de risco pode se intensificar.

Para o investidor que acompanha o mercado cripto, o episódio serve como lembrete de que a tese do bitcoin como reserva de valor é uma narrativa de longo prazo, não uma garantia de proteção em cada evento de curto prazo. Nos momentos de pânico agudo, liquidez é rei, e o bitcoin ainda não superou o ouro nessa função.

O mais relevante, porém, é observar como o mercado se comporta nos dias seguintes ao choque inicial. Historicamente, as quedas geopolíticas no bitcoin tendem a ser compradas com relativa rapidez, diferentemente de quedas motivadas por aperto monetário ou colapso de crédito, que costumam ter efeitos mais prolongados.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.
Compartilhar
Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
Continue scrollando para a próxima matéria…