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Tether investe em fintech para levar USDT ao varejo da América Latina

A Tether liderou a rodada inicial da fintech boliviana Peso, que já opera no Brasil e aceita USDT em entregas, lojas físicas e contas virtuais.

Tether investe em fintech para levar USDT ao varejo da América Latina
Foto: Eduardo Soares / Unsplash

A Tether, emissora da maior stablecoin do mercado, deu um passo concreto para transformar o USDT de reserva de valor em ferramenta de consumo. A empresa liderou a rodada inicial de captação da Peso, fintech boliviana que já opera no Brasil, na Colômbia e na Argentina, conectando saldos em stablecoin a pagamentos no varejo físico e digital.

O movimento não é trivial. A América Latina concentra hoje um dos maiores volumes de adoção de stablecoins no mundo, mas a maior parte desse uso ainda gira em torno de proteção cambial e remessas. A aposta da Tether é que falta a “última milha”: a infraestrutura que permite gastar esses dólares digitais numa padaria, num aplicativo de transporte ou num e-commerce local.

O que a Peso faz e por que a Tether escolheu essa fintech

A Peso opera com um aplicativo único onde os usuários mantêm saldos em USDT, realizam investimentos, enviam remessas internacionais e pagam compras do dia a dia. A plataforma conecta o saldo de stablecoins ao sistema bancário local por meio de códigos QR e transferências eletrônicas no padrão ACH.

Na prática, isso significa que um consumidor pode receber USDT como pagamento, manter o saldo na carteira digital e usar esse mesmo saldo para pedir comida ou pagar uma corrida de aplicativo. Na Bolívia, a fintech já tem uma parceria com a plataforma Yango que permite exatamente isso: pedir refeições e pagar a conta em USDT dentro do próprio app.

Além do setor de entregas, a Peso oferece aceitação em pontos de venda físicos e contas virtuais registradas no nome de cada titular. A empresa planeja expandir sua rede de terminais para lojistas e a abertura de contas virtuais por toda a região. Como já exploramos em nossa cobertura sobre stablecoins e adoção cripto na América Latina, esse tipo de infraestrutura é o que separa adoção especulativa de uso real.

O contexto boliviano: crise cambial impulsiona stablecoins

A escolha de uma startup boliviana não é coincidência. A Bolívia vive uma crise severa de escassez de dólares, que se agravou após o fim do subsídio governamental ao diesel em setembro. Sem acesso fácil à moeda americana no sistema bancário tradicional, a população encontrou no USDT uma alternativa concreta para proteger o poder de compra.

Esse cenário de adoção acelerada por necessidade, e não por especulação, é exatamente o tipo de mercado que a Tether quer cultivar. Paolo Ardoino, CEO da empresa, descreveu o investimento como alinhado ao objetivo de “promover a inclusão financeira e garantir o acesso a serviços mais rápidos, fáceis e interoperáveis”.

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Alejandro Terán, CEO e cofundador da Peso, reforçou que a lacuna na região não é de demanda, mas de infraestrutura. “Os latino-americanos já usam o USDT, mas faltava a infraestrutura para gastar o ativo na vida cotidiana sem atrito”, afirmou. A escolha de uma empresa nascida na Bolívia, segundo Terán, é um reconhecimento da capacidade de execução local.

Brasil no mapa: o que muda para o mercado local

A Peso já tem presença ativa no Brasil, e o aporte deve acelerar a expansão por aqui. O país é o maior mercado de stablecoins da América Latina em volume transacionado, com o USDT dominando amplamente as negociações em exchanges nacionais. A questão é que, até agora, a maior parte desse volume serve para trading e proteção cambial, não para pagamentos no varejo.

O modelo da Peso tenta mudar essa dinâmica. Ao integrar rampas locais de conversão, ou seja, a ponte entre o real e o USDT, a fintech reduz o atrito para quem quer usar stablecoins no dia a dia sem precisar passar por uma exchange tradicional. Para quem acompanha a evolução das fintechs e meios de pagamento, esse é um desdobramento natural da convergência entre cripto e serviços financeiros tradicionais.

O timing também é relevante. O Brasil avança na regulamentação de criptoativos, e a entrada de capital da Tether em operações locais sinaliza que a emissora está disposta a jogar dentro das regras. A regulação cripto no Brasil tem caminhado para exigir mais transparência de operadores, e investimentos diretos em fintechs reguladas podem ser uma forma de a Tether se posicionar estrategicamente.

A estratégia da Tether vai além da emissão de tokens

Esse investimento faz parte de um padrão mais amplo. A Tether tem diversificado seus aportes nos últimos trimestres, investindo em mineração de bitcoin, inteligência artificial e, agora, infraestrutura de pagamentos. A lógica é clara: quanto mais lugares aceitam USDT como meio de pagamento, maior a demanda pelo token, maior a receita com os rendimentos dos títulos do Tesouro americano que lastreiam cada unidade emitida.

Com mais de 140 bilhões de dólares em circulação, o USDT é de longe a stablecoin mais utilizada do mundo. Mas a sustentabilidade desse domínio depende de utilidade real. Se a Tether conseguir transformar o USDT em algo que as pessoas usam para pagar o almoço, e não apenas para mover dinheiro entre exchanges, o fosso competitivo em relação a rivais como USDC e outras stablecoins se torna muito mais difícil de transpor.

Para o consumidor latino-americano, a promessa é simples: acesso a um dólar digital que funciona como meio de pagamento no cotidiano, sem a burocracia de abrir conta em banco internacional ou depender de câmbio paralelo. Se a execução da Peso acompanhar o capital investido, o USDT pode deixar de ser sinônimo de trading e virar, de fato, dinheiro do dia a dia na região.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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