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Ibovespa recua após rali eleitoral: o que esperar agora

Após forte alta com resultado do primeiro turno, Ibovespa devolve parte dos ganhos. Pesquisa Quaest e balanços do 3T26 definem o próximo movimento.

Ibovespa recua após rali eleitoral: o que esperar agora
Foto: Pixabay / Unsplash

O Ibovespa futuro abriu esta quarta-feira (21) em queda de 0,48%, aos 211.985 pontos. O recuo vem depois de uma sessão de forte valorização na véspera, impulsionada pelo otimismo do mercado com o resultado do primeiro turno da eleição presidencial. É o tipo de movimento clássico de realização: o mercado comprou o rumor, surfou o fato e agora precisa de novos catalisadores para sustentar o patamar.

Só que os catalisadores desta semana são de natureza completamente diferente. A combinação de pesquisa eleitoral do instituto Quaest para o segundo turno entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT), início da temporada de balanços corporativos do terceiro trimestre e comentários da agência de classificação de risco Fitch sobre a economia brasileira cria um ambiente de volatilidade elevada. Para quem investe, o cenário exige leitura mais atenta do que apenas acompanhar o placar do dia.

O rali eleitoral já foi precificado?

O forte movimento de alta que sucedeu o primeiro turno refletiu a leitura do mercado de que o cenário político caminhava para uma configuração mais favorável à disciplina fiscal. É um padrão que se repete: em 2022, o Ibovespa também oscilou fortemente entre os turnos, reagindo a cada nova pesquisa como se fosse um dado macroeconômico. Agora, com o índice acima dos 211 mil pontos, a pergunta que se impõe é se há espaço para nova pernada de alta ou se o mercado já antecipou boa parte do cenário.

A resposta depende, em grande medida, da pesquisa Quaest prevista para esta quarta. Se a margem entre os candidatos se ampliar em favor do nome que o mercado considera mais previsível do ponto de vista fiscal, há espaço para continuidade do movimento. Se a disputa apertar, a tendência é de correção mais intensa. É o tipo de dinâmica em que acompanhar a conjuntura macroeconômica vale mais do que reagir a cada pregão.

Fitch acende sinal amarelo sobre crescimento e juros

Em paralelo ao ruído eleitoral, a Fitch trouxe uma avaliação que merece atenção. Segundo a agência, a economia brasileira deve desacelerar neste ano e no próximo, pressionada pelo peso dos juros reais elevados sobre a atividade. A Fitch também sinalizou expectativa de endurecimento da política fiscal em 2027, independentemente do resultado das urnas.

Esse diagnóstico não é exatamente uma novidade. A Selic em patamar restritivo já vinha sendo apontada como freio ao crescimento por diversos analistas. Mas quando uma agência de rating global formaliza essa leitura, o mercado de títulos reage. E foi justamente o que se viu na manhã desta quarta: a alta nos rendimentos dos Treasuries americanos, combinada com a cautela doméstica, adicionou pressão ao câmbio. O dólar futuro operava em leve alta de 0,02%, a R$ 5,037.

Para o investidor brasileiro, o cenário de juros altos por mais tempo tem implicações diretas na alocação de portfólio. Renda fixa segue atrativa, mas o custo de oportunidade para a bolsa aumenta. E é exatamente nesse ponto que a temporada de balanços entra como variável decisiva.

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WEG decepciona e Bradesco define o tom dos bancos

A WEG (WEGE3), uma das empresas mais consistentes da bolsa brasileira, reportou lucro líquido de R$ 1,67 bilhão no terceiro trimestre. O número ficou abaixo da expectativa compilada pela LSEG, que apontava para R$ 1,71 bilhão. A diferença de R$ 40 milhões pode parecer modesta em termos absolutos, mas para uma ação que negocia a múltiplos elevados, qualquer frustração de expectativa tende a ser punida.

O resultado da WEG serve como termômetro inicial da temporada. Se uma empresa com execução reconhecida pelo mercado entrega números abaixo do consenso, a barra de expectativas para o restante da safra de balanços pode estar alta demais. É o tipo de sinal que investidores atentos à análise fundamentalista não podem ignorar.

Na quinta-feira, o Bradesco (BBDC4) divulga seus números do terceiro trimestre, inaugurando oficialmente a temporada de resultados dos bancos. O grande ponto de atenção será a inadimplência. Após o rali nos mercados financeiros provocado pelo primeiro turno, há uma expectativa de que a melhora no sentimento econômico se reflita na qualidade da carteira de crédito. Mas os dados reais podem contar uma história diferente, já que o efeito dos juros elevados sobre a capacidade de pagamento das famílias não se dissipa em poucas semanas.

Petróleo acima de US$ 110 e o peso sobre a inflação

Enquanto o mercado doméstico digere política e balanços, o cenário externo adiciona uma camada extra de complexidade. O barril de petróleo segue acima de US$ 110, sustentado por preocupações com interrupções no fornecimento no Oriente Médio. Ataques a petroleiros perto do Estreito de Ormuz e a instalações de energia sauditas mantêm o prêmio de risco geopolítico elevado.

Para o Brasil, petróleo caro é uma faca de dois gumes. Beneficia a Petrobras e a arrecadação de royalties, mas pressiona a inflação via combustíveis e derivados. Num cenário em que a Fitch já projeta desaceleração econômica, a última coisa que o Banco Central precisa é de um choque de oferta energético dificultando o trabalho de convergência da inflação à meta.

Em Wall Street, os futuros operavam mistos. O Dow Jones subia 0,15%, o S&P 500 avançava 0,26% e o Nasdaq liderava com alta de 0,68%, sustentado por resultados corporativos sólidos das grandes empresas americanas. Na Ásia, destaque para a recuperação de 2,7% do Kospi sul-coreano e para o salto de 30% das ações da Elice Inc., que se recuperaram de uma das piores estreias de IPO da história da Coreia do Sul.

O que realmente importa nas próximas 48 horas

O investidor que está posicionado em bolsa brasileira precisa monitorar três gatilhos simultâneos: a pesquisa Quaest (define o prêmio eleitoral), o balanço do Bradesco (define a narrativa para o setor bancário, que responde por parcela relevante do Ibovespa) e a trajetória do petróleo (define o pano de fundo inflacionário).

A queda de 0,48% desta manhã, isoladamente, diz pouco. É natural que o mercado respire após um rali forte. O que vai definir a direção de médio prazo é se os fundamentos corroboram o otimismo que levou o índice acima dos 212 mil pontos. Por enquanto, o mercado está no modo “esperar para ver”, e essa é, provavelmente, a postura mais racional para quem não opera no intraday.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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