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Bolha de IA pressiona Ásia: o que lembrar da era dotcom

Volatilidade em ações de tecnologia derrubou Tóquio e Taiwan, enquanto Seul e China subiram. Analistas comparam o momento atual à bolha dotcom dos anos 2000.

Bolha de IA pressiona Ásia: o que lembrar da era dotcom
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

As bolsas asiáticas fecharam sem direção definida nesta segunda-feira, com a volatilidade das ações de tecnologia ditando o ritmo dos mercados. Enquanto Tóquio e Taiwan recuaram, Seul e a China continental encerraram em terreno positivo. O pano de fundo é uma combinação que investidores já deveriam conhecer: gastos bilionários em infraestrutura de inteligência artificial, valuations esticados e a sombra de uma correção que lembra a bolha das empresas de internet nos anos 2000.

O PIB da China no terceiro trimestre, divulgado na manhã asiática, cresceu 4,5% na comparação anual, acelerando ante os 4,3% do trimestre anterior e em linha com o consenso de mercado. O dado não trouxe surpresas, mas tampouco entregou o impulso que os mercados chineses precisariam para uma alta mais expressiva.

Tóquio e Taiwan caem com peso de big techs

O Nikkei recuou 0,62%, fechando em 64.916,70 pontos. A pressão veio das gigantes de tecnologia japonesas. SoftBank caiu 2,0% e Tokyo Electron perdeu 2,6%, refletindo o sentimento negativo que contaminou o setor após o Nasdaq acumular queda de 4,5% na semana anterior. Os temores sobre a sustentabilidade dos gastos com infraestrutura de IA foram o gatilho.

Em Taiwan, o Taiex cedeu 0,61%, para 46.822,08 pontos. A ilha, que abriga a TSMC e é o epicentro global da produção de chips avançados, sente diretamente qualquer oscilação na narrativa de investimentos em semicondutores para IA. Como analisamos na cobertura de mercados globais, a concentração geográfica da cadeia de chips amplifica a volatilidade local.

Seul sobe, mas o contexto é de correção pesada

O Kospi avançou 1,76% em Seul, fechando em 5.768,01 pontos, puxado por Samsung Electronics (+1,2%) e SK Hynix (+0,4%). O número do dia pode parecer animador, mas esconde uma realidade mais dura: o índice sul-coreano acumula queda superior a 17% no último mês.

Para colocar em perspectiva, o Kospi superou os 9.000 pontos em junho, durante o auge da euforia global com a IA generativa. De lá para cá, devolveu uma fatia relevante dos ganhos. A alta desta segunda-feira se parece mais com um respiro técnico do que com uma reversão de tendência.

Esse padrão é exatamente o que analistas de mercado têm comparado com o comportamento das ações de tecnologia durante a bolha dotcom do final dos anos 1990 e início dos 2000. Thomas Mathews, chefe de Mercados para a Ásia-Pacífico da Capital Economics, resumiu a dinâmica em nota enviada a clientes: “Vendas fortes e de curta duração eram comuns durante a bolha dotcom, mesmo com o mercado terminando por registrar grandes ganhos líquidos.”

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O paralelo com a bolha dotcom não é apenas retórico

A comparação entre o atual ciclo de IA e a bolha das empresas de internet merece atenção além do clichê. Na era dotcom, o Nasdaq subiu mais de 400% entre 1995 e o pico em março de 2000, pontuado por correções violentas de 10% a 20% que eram rapidamente revertidas, até que não foram mais.

O ciclo atual tem ingredientes semelhantes: investimentos massivos em infraestrutura (desta vez, data centers e chips de IA em vez de cabos de fibra óptica), valuations que precificam um futuro de receitas ainda incerto e uma narrativa de que “desta vez é diferente”. A diferença, como exploramos na editoria de tecnologia, é que empresas como Nvidia e Microsoft já geram receita real com IA, algo que a maioria das empresas dotcom nunca conseguiu.

Isso não significa que uma correção relevante seja impossível. Significa que o desfecho pode ser diferente: talvez o estouro atinja mais as empresas de segunda linha, aquelas que surfam a narrativa sem entregar resultado, do que as líderes do setor. Mas a volatilidade no caminho tende a ser intensa, como os dados desta segunda-feira reforçam.

China cresce nos trilhos, mas sem catalisador novo

Na China continental, o Xangai Composto subiu 0,39%, para 3.730,92 pontos, e o Shenzhen Composto avançou 0,10%, fechando em 2.228,80 pontos. A expansão de 4,5% do PIB no terceiro trimestre mostra que a economia chinesa segue crescendo, embora o ritmo permaneça distante dos padrões pré-pandemia.

A aceleração marginal em relação ao segundo trimestre (de 4,3% para 4,5%) reflete, em parte, os estímulos que Pequim vem implementando ao longo do ano, incluindo cortes de juros e incentivos ao setor imobiliário. Ainda assim, como temos acompanhado na cobertura sobre a economia chinesa, a recuperação é gradual e o consumo doméstico segue como calcanhar de Aquiles.

O mercado de Hong Kong não operou devido a feriado, limitando o volume e a liquidez na região. Na Oceania, o S&P/ASX 200 da Austrália fechou em alta de 0,44%, a 8.845,70 pontos, beneficiado pela menor exposição relativa ao setor de tecnologia puro.

O que importa para quem investe a partir daqui

O pregão asiático desta segunda-feira reforça três pontos que investidores deveriam ter no radar. Primeiro, a volatilidade em ações de tecnologia ligadas à IA não é uma anomalia, mas uma característica do estágio atual do ciclo. Vendas abruptas seguidas de recuperações rápidas são o padrão até que o mercado consiga precificar com mais clareza o retorno real dos investimentos em IA.

Segundo, o PIB chinês em linha com o esperado remove um risco de cauda (uma desaceleração mais forte), mas não adiciona combustível novo para os mercados emergentes asiáticos. A tese de investimento na China segue dependendo de estímulos adicionais e de uma recuperação mais robusta do consumo.

Terceiro, o paralelo com a bolha dotcom serve menos como previsão de crash e mais como lembrete de gestão de risco. Nos anos 2000, quem sobreviveu à correção com portfólio intacto foram os investidores que mantiveram diversificação e não concentraram tudo em um único tema, por mais promissor que parecesse. A lição vale agora.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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