Petróleo Brent a US$ 90: o que mantém o barril caro em 2026
Bancos revisam projeções para o Brent acima de US$ 85 no quarto trimestre. Conflito no Oriente Médio e estoques baixos explicam por que o petróleo segue caro.
Quem apostava que o barril de petróleo voltaria para a faixa dos US$ 60 em 2026 está precisando rever suas premissas. A mediana de nove projeções coletadas por agências de mercado aponta o Brent a US$ 87 no quarto trimestre deste ano, com estimativas que chegam a US$ 96 na média anual, segundo a Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA).
O cenário é resultado direto de um conflito que entrou no oitavo mês sem perspectiva clara de desfecho. E o pior: várias das linhas vermelhas que analistas consideravam intransponíveis já foram cruzadas. O barril acima de US$ 100, combustíveis nas máximas e rendimentos dos Treasuries pressionados já são realidade.
Por que o petróleo não cai mesmo com exportações fluindo
A resposta curta: porque o mercado precifica risco, não apenas fluxo. Apesar de 16 milhões de barris estarem saindo do Estreito de Ormuz neste momento, os custos de frete dispararam e os estoques globais permanecem em patamares operacionais baixos. Raphael Faucz, vice-presidente da Rystad Energy no Brasil, estima que cerca de 3 bilhões de barris foram perdidos em produção ao longo deste ano.
O ponto central é que os fluxos na região continuam frágeis. Faucz classifica a situação como passível de interrupção a qualquer momento, o que impede os operadores de mercado de reduzir o prêmio de risco embutido nos contratos futuros. Semanas de exportações sustentadas não bastam para mudar essa percepção. Como discutimos em nossa cobertura sobre o mercado financeiro global, a geopolítica se tornou a variável dominante na formação de preços de commodities em 2026.
O que os grandes bancos estão projetando para o Brent
As revisões foram quase unânimes para cima. O Commerzbank elevou sua previsão para o final do ano de US$ 75 para US$ 85 por barril. O HSBC foi mais agressivo e subiu a estimativa do quarto trimestre de US$ 80 para US$ 90, alertando que o mercado de petróleo provavelmente não se reequilibra antes de meados de 2027.
A analista Kim Fustier, do HSBC, trabalha com um cenário base de entendimento frágil entre Estados Unidos e Irã, suscetível a colapsos recorrentes. Em um cenário de impasse diplomático completo, onde os fluxos permanecem restritos e a diplomacia falha, o banco vê o Brent alcançando até US$ 120 por barril. Não é o cenário mais provável, mas tampouco é descartável.
O Goldman Sachs adota tom mais contido. O banco estima que o mercado global ficou aproximadamente equilibrado em setembro, com a recuperação parcial das exportações do Golfo e da demanda chinesa. Ainda assim, projeta o Brent a US$ 85 no fim do ano e US$ 80 em 2027, ressalvando que uma escalada renovada no conflito poderia causar alta significativa e inesperada.
Já o JPMorgan espera o Brent a US$ 85 no encerramento de 2026, com recuo para US$ 67 no primeiro trimestre de 2027. Para o WTI, a projeção é de US$ 80 agora e US$ 61 no início do ano que vem.
O caso otimista: Brent de volta a US$ 65
Nem todos estão pessimistas. O Citi mantém o cenário mais construtivo entre os grandes bancos. A tese do banco é que discussões diplomáticas regionais nos países do Golfo podem ganhar tração, reabrindo os fluxos no Estreito de Ormuz e no Mar Vermelho. Nesse caso, o Brent voltaria para uma média de US$ 65 ao longo de 2027.
É uma aposta que depende integralmente do sucesso diplomático, algo que sete meses de conflito não entregaram até aqui. Mas o cenário serve para ilustrar a amplitude da incerteza: a diferença entre o piso (US$ 65) e o teto (US$ 120) nas projeções é de quase 85%. Poucas vezes o mercado de petróleo operou com tamanha dispersão entre estimativas.
Para quem acompanha os impactos das commodities no câmbio e na inflação, esse intervalo é especialmente relevante. O preço do barril afeta diretamente o custo de frete global, os índices de preços ao consumidor e, por consequência, a política monetária de bancos centrais em todo o mundo.
O que isso significa para o investidor brasileiro
O Brasil é exportador líquido de petróleo, o que torna a dinâmica mais complexa do que parece à primeira vista. Barris mais caros beneficiam a Petrobras e a arrecadação de royalties, mas pressionam combustíveis internamente e alimentam a inflação, o que limita espaço para cortes de juros.
A EIA revisou para cima as projeções em ambas as janelas. Para 2026, a média do Brent saiu de US$ 91 para US$ 96. Para 2027, de US$ 74 para US$ 84. O que importa aqui é a tendência: cada nova revisão sobe, não desce. Isso sugere que o mercado continua subestimando a duração e a intensidade dos fatores de oferta restrita.
A Rystad Energy projeta um impasse prolongado, com exportações iranianas seguindo limitadas pela pressão americana. O poder que o Irã exerce sobre o Estreito de Ormuz tende a permanecer como o que Faucz chama de “sombra perene” no mercado. Parte do prêmio de risco, segundo ele, nunca será totalmente eliminada.
Para o investidor, a leitura prática é direta: o petróleo caro veio para ficar pelo menos até o segundo semestre de 2027. Quem investe em ações ligadas a energia, fundos de commodities ou simplesmente precisa entender o ambiente inflacionário global, como analisamos em nossas matérias sobre política monetária e juros, deve incorporar esse cenário nas decisões de alocação.
O barril de petróleo não é apenas uma commodity. Em 2026, virou termômetro geopolítico. E esse termômetro continua subindo.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


