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Criptomoedas

Binance US busca US$ 100 mi e mira valuation de US$ 1 bi

Braço americano da Binance quer captar US$ 100 milhões para se reerguer após perder acesso bancário e enfrentar processos da SEC. Valuation cairia de US$ 4,5 bi para US$ 1 bi.

Binance US busca US$ 100 mi e mira valuation de US$ 1 bi
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

A Binance US, braço americano da maior exchange de criptomoedas do mundo, estaria em busca de uma rodada de investimento de US$ 100 milhões. A informação, publicada pela Bloomberg com base em fontes familiarizadas com o assunto, indica que a operação deixaria a corretora avaliada em torno de US$ 1 bilhão.

O número chama atenção não pelo tamanho, mas pela queda. Em 2022, a Binance US havia captado US$ 200 milhões com um valuation de US$ 4,5 bilhões. Se a nova rodada se confirmar nos termos reportados, a empresa teria perdido cerca de 78% do seu valor em pouco mais de dois anos.

A história da Binance US é, em boa medida, um reflexo do que aconteceu com o mercado cripto nos Estados Unidos após o ciclo de enforcement regulatório que marcou 2023 e 2024. A corretora foi alvo de processos da SEC e perdeu acesso a serviços bancários, o que inviabilizou depósitos e saques em dólares americanos durante um período prolongado.

O que levou a Binance US ao encolhimento

O ponto de inflexão veio em 2023. A SEC moveu processos contra a exchange, e a reação em cadeia foi devastadora para a operação. Bancos parceiros cortaram relações. A Binance US pausou movimentações em dólar e removeu 102 pares de negociação de sua plataforma praticamente de uma só vez.

Para uma corretora que depende de rampa fiat, ou seja, da capacidade de converter dólares em criptomoedas e vice-versa, perder acesso bancário é o equivalente a um supermercado ficar sem estoque. A estrutura existe, mas não funciona.

Os números atuais mostram o tamanho do estrago. Dados do CoinMarketCap indicam que a Binance US registra volume diário de apenas US$ 16,7 milhões em negociações à vista. A Binance internacional, operando fora dos EUA, movimenta US$ 6,5 bilhões no mesmo período. A diferença é de 380 vezes. A operação americana também não oferece derivativos, segmento em que a Binance global movimenta US$ 33,2 bilhões por dia.

Essa discrepância ajuda a entender por que o valuation caiu tanto. A operação americana da Binance se tornou marginal dentro do próprio ecossistema da empresa.

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A sombra da World Liberty Financial e o contexto político

Um detalhe da reportagem da Bloomberg merece atenção especial. Segundo a publicação, a World Liberty Financial, empresa ligada à família Trump, teria sido informada sobre a captação de recursos da Binance US. Nenhuma das partes comentou os rumores.

O contexto é relevante. O ambiente regulatório nos Estados Unidos mudou significativamente desde o início da nova administração. A SEC adotou uma postura menos agressiva em relação ao setor cripto, e diversas empresas do segmento têm buscado se reposicionar no mercado americano. A mudança de tom dos reguladores abriu espaço para movimentos que seriam improváveis há dois anos.

A menção à World Liberty Financial levanta questões sobre o tipo de investidor que a Binance US busca. Mais do que capital, a exchange pode estar procurando conexões políticas que facilitem sua reentrada plena no mercado americano. Acesso bancário, licenças estaduais e relação com reguladores são ativos tão valiosos quanto dinheiro em caixa para uma exchange cripto operando nos EUA.

Concorrência acirrada no mercado americano

Mesmo que a Binance US consiga captar os US$ 100 milhões, o caminho de volta será íngreme. O mercado americano de criptomoedas não ficou parado enquanto a exchange enfrentava seus problemas.

A Coinbase consolidou sua posição como principal exchange regulada do país. A Kraken manteve relevância. A Robinhood adquiriu a Bitstamp e expandiu sua oferta cripto. A Gemini segue operando com foco em compliance. Cada uma dessas plataformas avançou em participação de mercado no vácuo deixado pela Binance US.

Para efeito de comparação, a Coinbase registrou receita de US$ 2,03 bilhões no primeiro trimestre de 2025. A escala da concorrência mostra o desafio que a Binance US enfrenta para reconquistar espaço.

Liquidez externa e a relação com a Binance global

Outro ponto relevante do relato é que a Binance US teria discutido a possibilidade de recorrer a fontes externas de liquidez, incluindo a própria Binance internacional. Isso resolveria parcialmente o problema de volume, mas criaria um novo dilema regulatório.

A separação entre Binance e Binance US sempre foi um ponto sensível para reguladores americanos. A SEC questionou, em seus processos, se as duas entidades operavam de forma realmente independente. Reconectar os livros de ordens, ainda que parcialmente, poderia reacender essas preocupações.

Do lado da Binance global, a situação é diferente. A empresa de Changpeng Zhao recebeu um aporte de US$ 2 bilhões da MGX, dos Emirados Árabes Unidos, em 2025. Estimativas do mercado apontam que isso colocou a Binance em um valuation de aproximadamente US$ 35 bilhões. A operação global está capitalizada. O problema é exclusivamente americano.

O que está em jogo para o mercado cripto nos EUA

A tentativa de reerguer a Binance US não é relevante apenas para a empresa. É um termômetro do quanto o mercado cripto americano está disposto a absorver operadores que passaram pelo ciclo de enforcement.

Se a exchange conseguir captar os recursos, recuperar acesso bancário pleno e voltar a operar com volume competitivo, será um sinal de que o novo ciclo regulatório realmente abriu as portas para uma segunda chance. Se não conseguir, confirmará que o mercado americano já escolheu seus vencedores.

O valuation de US$ 1 bilhão, quase cinco vezes menor do que o de 2022, precifica essa incerteza. Os investidores que entrarem nessa rodada estarão apostando que a marca Binance ainda tem valor nos Estados Unidos e que o pior do cerco regulatório ficou para trás. É uma aposta com risco proporcional ao desconto.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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