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Tecnologia

Tesla Roadster voa com propulsão da SpaceX: o que muda

O novo Roadster da Tesla decolou sem rampa, saltou sobre cinco veículos e girou 360 graus no ar. Entenda o que a fusão Tesla-SpaceX significa para o futuro do transporte.

Tesla Roadster voa com propulsão da SpaceX: o que muda
Foto: Mylo Kaye / Unsplash

Um carro elétrico decolou do chão sem rampa, saltou sobre cinco veículos estacionados, executou um giro de 360 graus no ar e pousou com precisão cirúrgica. Não é roteiro de ficção científica. É o novo Tesla Roadster, equipado com propulsores desenvolvidos pela SpaceX, apresentado por Elon Musk em uma demonstração nas instalações da empresa espacial no Texas.

O esportivo vai de 0 a 96 km/h em 0,81 segundo. A velocidade máxima atinge cerca de 370 km/h. Mas o número que realmente importa é outro: o carro gera uma força descendente equivalente a 2G, o dobro da gravidade terrestre, graças a um sistema de ventoinhas que literalmente suga o veículo contra o solo.

A demonstração é espetacular, mas a pergunta que interessa ao leitor é outra: o que essa convergência entre tecnologia automotiva e aeroespacial sinaliza para o mercado?

Como funciona a propulsão do Tesla Roadster

O sistema combina duas tecnologias distintas. A primeira são propulsores derivados da engenharia de foguetes da SpaceX, que permitem ao veículo decolar, planar e executar manobras aéreas. A segunda é um conjunto de ventoinhas motorizadas com vedação em relação ao solo que funciona como gerador de downforce, criando sucção sob o carro.

O vice-presidente de engenharia da Tesla, Lars Moravy, explicou que o mecanismo de sucção produz uma aceleração descendente de 2G, compensando com folga a gravidade de 1G. Na prática, isso significa que o carro pode, em tese, ficar de cabeça para baixo e permanecer colado a uma superfície. E foi exatamente isso que a demonstração mostrou: o Roadster subiu uma rampa até ficar invertido, avançou de cabeça para baixo e girou no ar antes de aterrissar com as rodas no chão.

Em modo de pista, o veículo é rebaixado automaticamente e permite alternar entre configurações de maior downforce ou menor arrasto aerodinâmico, dependendo das condições do circuito. Aerofólios ativos maximizam tração e velocidade em curvas. É uma fusão inédita entre engenharia automotiva e aeroespacial que nunca havia sido apresentada em um veículo de rua.

O que Musk disse sobre o futuro comercial do Roadster

“Um amigo meu, Peter Thiel, disse certa vez que o futuro tinha nos prometido carros voadores, mas, em vez disso, ganhamos 140 caracteres”, afirmou Musk durante a apresentação. “Bem, isso já não é mais verdade.”

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A provocação tem contexto. Musk comprou o Twitter, rebatizou a plataforma como X e agora entrega, literalmente, o carro voador que Thiel dizia faltar ao Vale do Silício. É o tipo de narrativa que o empresário domina como poucos: transformar a demonstração de um produto em manifesto cultural.

O próprio Musk, no entanto, reconheceu limitações práticas. O modelo apresentado não possui as especificações de segurança exigidas para automóveis de passeio. A versão Rocket, que voa e executa manobras aéreas, será inicialmente exclusiva para convidados. “Não tenho certeza se ele será permitido em todas as jurisdições, mas haverá um carro desse tipo que alguém poderá comprar”, declarou.

A Tesla já aceita reservas no site para as versões mais básicas do Roadster, que não saem do chão. A produção comercial está prevista para começar em 2028, embora o projeto já acumule anos de atraso. Apresentado pela primeira vez há uma década, o carro possui uma fila de espera com interessados que pagaram até 250 mil dólares adiantados.

Impacto nos negócios da Tesla: prestígio acima de receita

Do ponto de vista financeiro, o Roadster não deve alterar a trajetória de resultados da Tesla. O analista Dan Ives, da Yorkville Ives, afirmou em relatório que a produção será limitada e que investidores não devem considerar o modelo como motor de crescimento.

“O que ele faz é restaurar o prestígio da marca no topo do mercado e colocar em evidência a sua capacidade de engenharia”, escreveu Ives. É uma leitura que faz sentido. A Tesla vinha enfrentando desgaste de imagem e perda de participação de mercado para concorrentes chinesas como BYD. Um produto que gera manchetes globais, mesmo sem escala de vendas, funciona como ferramenta de reposicionamento de marca.

O movimento se assemelha à estratégia que a própria Tesla utilizou no início de sua história. O primeiro Roadster, lançado em 2008, nunca foi um produto de massa. Serviu para provar que carros elétricos podiam ser desejáveis, pavimentando o caminho para o Model S, o Model 3 e, eventualmente, a liderança global em veículos elétricos. Como discutimos em análises anteriores sobre inovação tecnológica, demonstrações de capacidade técnica frequentemente precedem revoluções de mercado.

A convergência SpaceX-Tesla e o que isso sinaliza

O ponto mais relevante da demonstração não é o salto acrobático em si. É a convergência tecnológica entre duas empresas que, até agora, operavam em verticais distintas. Propulsores de foguete adaptados para um automóvel representam uma transferência de conhecimento entre aeroespacial e automotivo que não tem precedente na indústria.

Em outubro de 2024, a SpaceX já havia realizado um feito inédito ao pousar um foguete de ré na própria base de lançamento. A miniaturização dessa tecnologia para um veículo de passeio, ainda que em estágio experimental, sugere que Musk está construindo um ecossistema integrado de engenharia que pode se estender a outros produtos.

Para o mercado de tecnologia, a questão central é de plataforma. Se propulsores compactos e sistemas de sucção de ar se tornarem viáveis em escala, as implicações vão muito além de carros esportivos. Logística, mobilidade urbana e transporte de emergência são apenas algumas das aplicações possíveis. Isso dialoga diretamente com o movimento de capital que temos acompanhado em direção a empresas de deep tech e engenharia avançada.

Por enquanto, o Roadster Rocket é mais demonstração de força do que produto comercial. Mas se a história da Tesla ensina algo, é que as demonstrações de hoje costumam se tornar os mercados de amanhã.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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