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Circle mira 40 novos mercados e desafia bancos com USDC

Emissora do USDC prepara ofensiva em mercados emergentes da Ásia, América Latina e Oriente Médio, comprando fintechs e lançando blockchain própria para pagamentos.

Circle mira 40 novos mercados e desafia bancos com USDC
Foto: Pixabay / Unsplash

A Circle, emissora da segunda maior stablecoin do mundo, está prestes a transformar o USDC de um instrumento predominantemente usado em negociações cripto em uma ferramenta de pagamentos globais. A empresa anunciou planos para expandir suas operações para cerca de 50 mercados emergentes e em desenvolvimento, com foco em Sudeste Asiático, América Latina e Oriente Médio.

O movimento não é apenas sobre ganhar market share no universo cripto. É uma declaração de guerra direta aos bancos tradicionais e empresas de pagamento que dominam o mercado de transferências internacionais, um setor que movimenta trilhões de dólares por ano e cobra taxas que muitas vezes ultrapassam 6% do valor enviado.

O que a Circle está montando por trás da expansão

A estratégia da Circle combina três frentes simultâneas. A primeira é a aquisição da Tazapay, fintech baseada em Singapura, por US$ 400 milhões. O negócio dá à Circle acesso a redes bancárias e de pagamentos locais em mais de 100 mercados, algo que levaria anos para construir do zero.

A segunda é o lançamento da Arc, uma blockchain própria projetada especificamente para pagamentos e transações financeiras. Diferente de redes generalistas como Ethereum ou Solana, a Arc foi desenhada para otimizar o tipo de operação que a Circle quer dominar: transferências rápidas, baratas e em escala.

A terceira frente é regulatória. A Circle obteve aprovação como banco fiduciário federal nos Estados Unidos em julho, um selo que poucos players cripto conseguiram. Esse status permite que a empresa opere sob um arcabouço regulatório claro, algo que a diferencia de concorrentes como a Tether, que historicamente enfrentou questionamentos sobre transparência de reservas. Como já analisamos na cobertura de criptomoedas do portal, a clareza regulatória tem sido um divisor de águas para a adoção institucional de ativos digitais.

USDC contra Tether: a disputa pelos mercados emergentes

Hoje, o USDC tem cerca de US$ 72,6 bilhões em circulação e controla aproximadamente 25% do mercado de stablecoins. A Tether, com o USDT, domina quase 60%. Mas essa liderança da Tether foi construída em grande parte nos mercados emergentes, exatamente onde a Circle agora quer avançar.

A diferença de abordagem é relevante. A Tether cresceu de forma orgânica nesses mercados, muitas vezes operando em zonas regulatórias cinzentas. A Circle está fazendo o caminho inverso: comprando infraestrutura local, obtendo licenças e se posicionando como a opção “regulada” do dólar digital.

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Para quem acompanha o setor, essa dinâmica lembra o que aconteceu no mercado de exchanges entre 2020 e 2023. Plataformas que investiram em compliance e licenças locais, como abordamos em análises sobre regulação cripto no Brasil, terminaram ganhando a corrida de longo prazo, mesmo partindo de posições menores.

O GENIUS Act e o novo cenário regulatório

O CEO da Circle, Jeremy Allaire, destacou que o GENIUS Act, legislação americana que estabelece regras claras para stablecoins, está acelerando a adoção. A lei cria um framework que separa stablecoins de outros criptoativos e exige reservas totais em ativos de alta liquidez.

Esse tipo de regulação tem um efeito duplo. Por um lado, aumenta os custos de compliance para emissores menores. Por outro, abre portas para que grandes empresas e instituições financeiras usem stablecoins sem receio regulatório. É o tipo de barreira de entrada que favorece players estabelecidos como a Circle.

Allaire também foi direto sobre a relação com o setor bancário tradicional. Segundo ele, os bancos lutaram durante anos para manter novos entrantes fora do sistema financeiro, mas essa era acabou. Bancos estão inclusive desenvolvendo suas próprias moedas digitais, algo que ele vê como validação do modelo, não como ameaça.

IA e stablecoins: a fronteira que poucos estão olhando

Um ponto que merece atenção especial é o uso crescente do USDC por agentes de inteligência artificial. São programas de software que realizam pagamentos de forma autônoma, comprando informações, serviços online e dados sem intervenção humana.

Esse caso de uso pode parecer nicho hoje, mas representa uma mudança estrutural. Se agentes de IA precisam fazer micropagamentos em escala global, stablecoins são a infraestrutura natural: programáveis, sem fronteiras e com liquidação instantânea. A interseção entre inteligência artificial e infraestrutura financeira digital é um dos temas que mais deve ganhar relevância nos próximos anos.

O mercado de stablecoins com rendimento atrelado a ativos reais (RWA) também mostra sinais de maturação. Enquanto as taxas de funding no mercado cripto se comprimem para cerca de 4%, stablecoins diversificadas lastreadas em crédito real sustentam rendimentos entre 5% e 7%. Estimativas do setor apontam que o mercado endereçável total (TAM) dessa vertical pode chegar a US$ 4 bilhões nos próximos três anos.

O que isso significa para quem investe

A expansão da Circle sinaliza que o mercado de stablecoins está entrando em uma fase de consolidação e profissionalização. Não se trata mais de qual stablecoin é “melhor” do ponto de vista técnico, mas de qual terá a infraestrutura regulatória, bancária e de distribuição para competir com o sistema financeiro tradicional.

Para investidores e usuários na América Latina, a chegada mais agressiva do USDC pode significar alternativas mais baratas para remessas internacionais e acesso facilitado ao dólar digital por canais regulados. A competição entre USDC e USDT nesses mercados tende a reduzir custos e aumentar a oferta de serviços.

A frase de Allaire sobre o mercado estar passando da fase de “early adopter” para a fase de “escala mainstream” resume bem o momento. Quando a disputa deixa de ser entre projetos cripto e passa a ser entre stablecoins e bancos, o jogo muda de patamar.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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