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SpaceX no Brasil: Starlink pode competir com Vivo e TIM?

Avanço da SpaceX na telefonia móvel dos EUA levanta dúvidas sobre o Brasil. Análise mostra que parcerias são mais prováveis que concorrência direta.

SpaceX no Brasil: Starlink pode competir com Vivo e TIM?
Foto: Shreyaan Vashishtha / Unsplash

A SpaceX vem engolindo fatias cada vez maiores do mercado de conectividade nos Estados Unidos. Depois de consolidar a Starlink como a maior provedora de internet via satélite do mundo, a companhia de Elon Musk passou a acumular frequências de telecomunicação terrestre, sinalizando que pretende disputar clientes diretamente com AT&T, Verizon e T-Mobile. As ações das três operadoras americanas caíram entre 6% e 8% após o último anúncio de aquisição de espectro, em outubro.

A pergunta natural para quem acompanha o setor de telecom no Brasil é direta: a empresa pode repetir esse movimento por aqui e disputar clientes com Vivo, TIM e Claro? A resposta curta, segundo análise recente do UBS BB, é que a possibilidade existe, mas os sinais concretos ainda apontam para um caminho diferente.

O que a SpaceX está fazendo nos Estados Unidos

A estratégia americana da SpaceX combina dois elementos. O primeiro é a tecnologia direct-to-device (D2D), que permite a conexão direta entre satélites e celulares comuns, sem necessidade de antena parabólica ou terminal Starlink. O segundo é a aquisição agressiva de frequências terrestres.

A empresa adquiriu recentemente 14 MHz na faixa de 800 MHz, somando-se às frequências da EchoStar que ainda aguardam conclusão. O resultado é uma plataforma híbrida que mistura satélites em órbita baixa, espectro de telecomunicações e, potencialmente, infraestrutura terrestre. É um modelo que nenhuma operadora tradicional conseguiu montar até agora.

Esse movimento muda o jogo porque a SpaceX não precisa construir milhares de torres de celular para oferecer cobertura. A rede de satélites da Starlink já cobre praticamente todo o território. As frequências terrestres entram como complemento para áreas densas e interiores de edifícios, onde o sinal de satélite perde força.

Brasil está entre os maiores mercados da Starlink no mundo

O UBS BB estima que o Brasil figure entre os três maiores mercados da Starlink globalmente. Isso torna o país um candidato natural para qualquer expansão internacional da estratégia de telefonia móvel. A base instalada já existe, o conhecimento regulatório também, e a demanda por conectividade em regiões remotas é enorme.

Segundo o relatório dos analistas, a SpaceX já solicitou direitos adicionais de uso da banda S no Brasil e discutiu com reguladores a possibilidade de oferecer serviços de voz, mensagens e internet via D2D. Mais relevante ainda: a companhia teria obtido autorizações necessárias para iniciar esses serviços utilizando frequências de uma operadora local parceira.

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Há relatos de discussões envolvendo a Vivo como potencial parceira. Esse modelo se aproxima mais da estratégia original de cooperação entre Starlink e T-Mobile nos Estados Unidos do que da abordagem mais recente de aquisição própria de espectro. Como já abordamos em nossa cobertura de tecnologia, parcerias estratégicas tendem a ser o primeiro passo de empresas estrangeiras em mercados regulados como o brasileiro.

O que impede a SpaceX de virar operadora no Brasil

Tecnicamente, nada impede que a SpaceX dispute futuros leilões de frequências da Anatel. Bastaria constituir uma pessoa jurídica brasileira e cumprir os mesmos requisitos exigidos dos demais participantes. Não precisaria, portanto, comprar espectro de Vivo, TIM ou Claro.

A faixa de 850 MHz é o principal ponto de atenção. Ela cumpriria função semelhante à dos 800 MHz adquiridos nos Estados Unidos: ampliar cobertura e melhorar o sinal em ambientes internos. Mas essa faixa sozinha não bastaria. Para reproduzir o modelo americano, a empresa precisaria de frequências adicionais para dar capacidade à rede, além de infraestrutura terrestre complementar.

Os analistas do UBS BB são claros ao destacar que, até o momento, não identificaram manifestações de interesse da SpaceX em um futuro leilão de 850 MHz, pedidos de espectro móvel terrestre ou anúncios de construção de rede para competir diretamente com as grandes operadoras brasileiras. A distinção é relevante. A diferença entre uma parceria de conectividade complementar e a entrada como quarta operadora nacional é gigantesca em termos de investimento e complexidade regulatória.

O que isso significa para o mercado brasileiro de telecom

O cenário mais provável no curto prazo é que a Starlink opere como parceira de uma ou mais operadoras existentes, oferecendo cobertura D2D em áreas onde a infraestrutura terrestre não chega. É um modelo de soma, não de competição direta. As operadoras ganham cobertura sem investir em torres remotas, e a SpaceX monetiza sua constelação de satélites.

Para investidores de ações de telecom brasileiras, o risco imediato é baixo. Diferentemente do que aconteceu nos Estados Unidos, onde a SpaceX está claramente montando uma plataforma para competir de frente, no Brasil os movimentos ainda são incrementais. Os próximos sinais a monitorar incluem participação em leilões de espectro, pedidos de autorização de rede terrestre e qualquer indicação de construção de infraestrutura própria.

O contexto mais amplo, no entanto, não deve ser ignorado. A convergência entre satélite e celular é uma tendência global que avança rapidamente. Como discutimos em análises sobre o setor financeiro e de telecomunicações, empresas com escala global e acesso a capital barato, como a SpaceX, podem mudar a dinâmica competitiva de mercados inteiros em poucos anos.

O Brasil, pela sua extensão territorial e pela concentração do mercado em três grandes operadoras, é particularmente vulnerável a esse tipo de disrupção. A questão não é se a tecnologia D2D vai chegar ao país, mas sob quais termos e com qual grau de concorrência ao modelo tradicional.

Por enquanto, as teles brasileiras podem respirar. Mas o fato de que essa discussão já existe, com dados concretos e movimentos regulatórios em andamento, sugere que o horizonte de tranquilidade é mais curto do que parece.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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