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Criptomoedas

Por que o Bitcoin caiu abaixo de US$ 83.500 em outubro

Rendimentos dos títulos americanos de 10 anos atingiram 5,36%, maior patamar desde 2002, e derrubaram cripto. Mais de 100 mil traders foram liquidados.

Por que o Bitcoin caiu abaixo de US$ 83.500 em outubro
Foto: Jakub Zerdzicki / Unsplash

Outubro costuma ser um dos meses mais positivos para o Bitcoin. Historicamente, o ativo acumula retornos médios de dois dígitos no período, a ponto de o mercado cripto ter apelidado o mês de “Uptober”. Em 2026, a narrativa começou pelo avesso.

Nas últimas 24 horas, o Bitcoin recuou 3,5% e passou a ser negociado na faixa dos US$ 83.100. O Ethereum caiu 5,8% no mesmo intervalo. O XRP perdeu 5,5%. Dentre as maiores criptomoedas por capitalização, praticamente nenhuma escapou da pressão vendedora.

O gatilho não veio do mercado cripto. Veio da renda fixa americana.

Treasuries de 10 anos no maior nível desde 2002

Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de 10 anos dispararam para 5,365% na terça-feira, alcançando o maior patamar em 22 anos. Para contextualizar: a última vez que esses yields estiveram nessa faixa, o mercado cripto sequer existia.

Quando os treasuries pagam mais, o custo de oportunidade de manter capital em ativos de risco sobe. Investidores institucionais, que já tratam Bitcoin como parte de portfólios diversificados, recalculam a equação. A lógica é simples: por que correr risco em cripto se a renda fixa mais segura do mundo paga acima de 5% ao ano?

Esse movimento afeta não apenas criptomoedas. Ações de tecnologia, small caps e outros ativos sensíveis a juros também sofrem. Mas o mercado cripto, com sua alavancagem elevada e mercado de futuros agressivo, sente o impacto de forma amplificada. Como já analisamos em nossa cobertura sobre o mercado cripto, a correlação entre yields longos e preço do Bitcoin se intensificou nos últimos ciclos.

Mais de US$ 658 milhões em liquidações

O estrago no mercado de derivativos foi significativo. Segundo dados da CoinGlass, mais de 100 mil traders foram liquidados nas últimas 24 horas. O total de liquidações ultrapassou US$ 658 milhões.

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Os mais atingidos foram traders posicionados na ponta compradora de Ethereum, com US$ 218 milhões em liquidações. Posições compradas em Bitcoin responderam por outros US$ 148 milhões. A maior liquidação individual aconteceu no par ETH/USDC na Binance, no valor de US$ 26,64 milhões.

Esse volume de liquidações revela o grau de alavancagem que o mercado acumulou durante o terceiro trimestre de 2026, período em que o Bitcoin registrou valorização expressiva. Quando a correção chega, posições alavancadas funcionam como combustível para quedas mais acentuadas. É o chamado efeito cascata: liquidações forçadas geram mais pressão de venda, que derruba preços, que provoca novas liquidações.

Quem acompanha o cenário macroeconômico pelo prisma de finanças sabe que esse tipo de dinâmica se repete ciclicamente em momentos de reprecificação de juros.

O que o Fed Minutes pode mudar

A principal atenção do mercado nesta quarta-feira está no Fed Minutes, a ata detalhada da última reunião do Federal Reserve. O documento revela as discussões internas dos dirigentes do banco central americano sobre inflação, atividade econômica e, principalmente, a trajetória dos juros.

No momento, o mercado precifica apenas 21,6% de probabilidade de que o Fed eleve novamente a taxa de juros. Ou seja, a maioria dos investidores aposta que o ciclo de aperto já terminou. Mas a disparada dos yields longos conta uma história diferente: o mercado de bonds está exigindo prêmio maior para carregar dívida americana de longo prazo, independentemente do que o Fed decida no curto prazo.

Se o Fed Minutes sinalizar preocupação com a inflação persistente ou indicar disposição para manter juros elevados por mais tempo, a pressão sobre ativos de risco pode se aprofundar. As próximas reuniões do Fed estão marcadas para 28 de outubro e 9 de dezembro, e qualquer sinalização sobre esses encontros tende a movimentar o mercado.

Sentimento de mercado se deteriora

O Índice de Medo e Ganância, medido pelo CoinMarketCap, ainda aponta território de ganância, mas atingiu o menor nível desde meados de agosto. A leitura sugere que o otimismo acumulado ao longo do terceiro trimestre está se dissipando rapidamente.

A combinação de fatores é relevante: yields no maior patamar em duas décadas, alavancagem excessiva no mercado de derivativos e incerteza sobre a política monetária americana. Todos esses elementos convergem para um cenário de aversão a risco que historicamente afeta o mercado cripto com mais intensidade do que outros segmentos.

Vale lembrar que, mesmo em “Uptobers” históricos, o Bitcoin costuma apresentar volatilidade intra-mês considerável. Em outubro de 2023, por exemplo, o ativo chegou a cair quase 5% antes de encerrar o mês com alta de dois dígitos. O padrão sazonal existe, mas não garante trajetória linear. Como já discutimos em análises anteriores sobre ciclos do Bitcoin, sazonalidade é um dado estatístico, não uma profecia.

O que explica o Ethereum liderando as perdas

O Ethereum caiu proporcionalmente mais que o Bitcoin nesta correção, e as liquidações na altcoin superaram as do próprio BTC. Isso reflete dois fatores. Primeiro, o Ethereum historicamente apresenta beta mais alto em relação ao Bitcoin: sobe mais nos ralis e cai mais nas correções. Segundo, o posicionamento alavancado em ETH estava particularmente concentrado após o bom desempenho do ativo no trimestre anterior.

Com US$ 218 milhões em liquidações de posições compradas, contra US$ 148 milhões do Bitcoin, fica evidente que os traders estavam mais expostos ao Ethereum do que ao próprio líder de mercado. Quando o vento virou, a correção foi proporcionalmente mais severa.

Para investidores que acompanham o mercado com horizonte mais longo, o dado mais relevante não é a queda em si, mas o que ela revela sobre o ambiente macro. Enquanto os treasuries de 10 anos permanecerem acima de 5%, o apetite por risco tende a ficar contido. O Fed Minutes de hoje e os dados econômicos das próximas semanas serão determinantes para definir se essa pressão é passageira ou o início de uma correção mais profunda.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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