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Dólar sobe antes de pesquisa eleitoral: o que esperar do câmbio

Câmbio abre outubro em alta com tensão geopolítica e eleições no radar. Entenda o que está movendo o dólar e como isso afeta seus investimentos.

Dólar sobe antes de pesquisa eleitoral: o que esperar do câmbio
Foto: Pratikxox / Unsplash

O dólar abriu outubro de 2026 em alta de 0,28%, cotado a R$ 5,189 na venda por volta das 9h10 desta quinta-feira (1º). O movimento acompanha a valorização da moeda americana frente a outras divisas de países emergentes, num cenário em que dois fatores se sobrepõem: a escalada de tensão no Oriente Médio e a proximidade das eleições presidenciais brasileiras, marcadas para o domingo seguinte.

Na véspera, o dólar à vista havia fechado em queda de 0,76%, a R$ 5,1735, devolvendo parte da pressão acumulada nos dias anteriores. A reversão desta quinta-feira sinaliza que o mercado cambial deve seguir volátil nos próximos pregões, reagindo tanto a variáveis externas quanto ao noticiário político doméstico.

Por que o Oriente Médio pressiona o câmbio brasileiro

Conflitos geopolíticos no Oriente Médio têm efeito direto sobre o apetite por risco nos mercados globais. Quando a percepção de instabilidade aumenta, investidores institucionais migram para ativos considerados mais seguros, como títulos do Tesouro americano e o próprio dólar. Esse movimento é conhecido como “flight to quality” e afeta com mais intensidade moedas de países emergentes, incluindo o real.

Historicamente, episódios de tensão na região resultaram em valorização do dólar e alta nos preços do petróleo. Como o Brasil é importador líquido de derivados, o encarecimento da commodity adiciona uma camada extra de pressão sobre a inflação doméstica e, por consequência, sobre as expectativas para a política monetária do Banco Central. Quem acompanha a cobertura de finanças da BlockTrends sabe que esse tipo de dinâmica tende a se retroalimentar: dólar mais caro encarece combustíveis, que pressionam o IPCA, que por sua vez influencia as decisões sobre a taxa Selic.

Neste início de outubro, os índices futuros de Wall Street operavam em alta, mas o avanço era lido pelo mercado mais como um ajuste técnico do que como sinal de confiança generalizada. O contexto global segue marcado pela cautela.

Eleições a três dias: o que o mercado espera da pesquisa Datafolha

O fator doméstico mais relevante do dia é a divulgação de uma nova pesquisa do Datafolha sobre a corrida presidencial, prevista para o início da noite. Com as eleições marcadas para domingo (4), qualquer mudança significativa nos números de intenção de voto pode provocar reações imediatas no câmbio, nos juros futuros e na bolsa.

O mercado financeiro tende a precificar cenários eleitorais com antecedência. Candidatos cujas propostas econômicas são percebidas como mais previsíveis e alinhadas à disciplina fiscal costumam gerar menor volatilidade cambial. Por outro lado, quando as pesquisas indicam acirramento ou mudança de favoritismo, o prêmio de risco embutido nos ativos brasileiros aumenta.

Em 2022, por exemplo, o dólar oscilou mais de 8% entre setembro e outubro, período em que as pesquisas eleitorais dominaram o noticiário. Em 2018, a moeda americana chegou a ultrapassar R$ 4,20 em momentos de maior incerteza política. O padrão se repete: proximidade de eleição com resultado incerto equivale a prêmio de risco mais alto no câmbio, como já analisamos em coberturas anteriores sobre o impacto político nos mercados.

O que o investidor deve observar nos próximos pregões

Com apenas dois pregões restantes antes da eleição (quinta e sexta-feira), a liquidez tende a diminuir e a volatilidade a aumentar. É um comportamento típico de fins de ciclo eleitoral: investidores institucionais reduzem posições para não carregar risco binário (o resultado) durante o fim de semana.

Três indicadores merecem atenção especial até domingo:

  • Fluxo cambial: dados do Banco Central sobre entrada e saída de dólares nos últimos dias de setembro devem ser publicados ainda nesta semana. Um fluxo negativo intensificaria a pressão sobre o real.
  • Posição dos estrangeiros em derivativos: o saldo de contratos futuros de dólar na B3 mostra se investidores estrangeiros estão apostando a favor ou contra o real. Posições vendidas em real (compradas em dólar) indicam proteção contra cenários adversos.
  • CDS Brasil (Credit Default Swap): o custo do seguro contra calote da dívida soberana brasileira é um termômetro direto da percepção de risco-país. Altas no CDS costumam antecipar movimentos de depreciação cambial.

Além dos fatores eleitorais, o investidor que opera câmbio precisa considerar o calendário econômico americano. O relatório de emprego dos Estados Unidos (payroll) de setembro será divulgado na primeira semana de outubro e pode alterar as expectativas sobre os próximos passos do Federal Reserve. Se os dados vierem fortes, o dólar ganha tração global, o que representaria pressão adicional sobre o real. Essa dinâmica entre política monetária americana e mercados emergentes tem sido um dos temas centrais do ano.

Câmbio a R$ 5,19 é caro ou barato?

Colocar o patamar atual em perspectiva ajuda. No acumulado de 2026, o dólar opera próximo da média do ano, que gira em torno de R$ 5,15 a R$ 5,25. Não estamos em território de estresse extremo, como os R$ 5,70 vistos em momentos de pico nos últimos anos, mas também não há folga.

O diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos segue favorável ao real. Com a Selic em patamar restritivo e o Fed sinalizando cautela para novos cortes, o carry trade (estratégia que explora esse diferencial) continua atraindo capital de curto prazo para o Brasil. No entanto, o risco eleitoral pode neutralizar temporariamente esse efeito.

Para o investidor pessoa física, a mensagem é de cautela. Momentos de alta volatilidade cambial não são ideais para operações de câmbio pontuais, como compra de moeda para viagem ou remessas internacionais. Quem tem exposição a ativos dolarizados, por outro lado, se beneficia de um eventual estresse, já que a valorização do dólar impacta positivamente fundos cambiais, BDRs e ETFs internacionais.

O pregão de hoje deve dar o tom para as próximas 72 horas do mercado brasileiro. Entre a geopolítica global e as urnas, o câmbio será o termômetro mais sensível da confiança dos investidores no curto prazo.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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