Finanças

Por que Saylor defende rivais da Strategy no mercado de bitcoin

Fundador da Strategy argumenta que empresas de tesouraria de bitcoin se fortalecem mutuamente. A tese muda a lógica tradicional de competição entre companhias.

Por que Saylor defende rivais da Strategy no mercado de bitcoin
Foto: https://kaboompics.com/ / Unsplash

Michael Saylor, cofundador da Strategy e um dos maiores evangelistas corporativos do bitcoin, fez algo incomum para o mundo dos negócios. Em artigo publicado no X, defendeu abertamente a Strive, concorrente direta no segmento de tesourarias digitais de bitcoin. O gesto não é altruísmo. É cálculo econômico.

A lógica é simples e, ao mesmo tempo, desafia o senso comum da competição empresarial. Em setores tradicionais, quando uma empresa ganha mercado, suas rivais geralmente perdem. No universo das chamadas DATs (Digital Assets Treasuries), a dinâmica é diferente. Todas as companhias do segmento detêm o mesmo ativo subjacente em seus balanços: bitcoin.

Quando qualquer uma delas capta recursos e compra mais bitcoin, a demanda pelo ativo sobe. Como a oferta é limitada a 21 milhões de unidades, o efeito é uma pressão de valorização que beneficia todas as participantes. A Strategy ganha quando a Strive compra bitcoin. E vice-versa.

O que são as tesourarias de bitcoin e por que crescem

O modelo de tesouraria de bitcoin ganhou tração nos últimos anos. Empresas listadas em bolsa passaram a alocar reservas de caixa em bitcoin, tratando o ativo como reserva de valor corporativa. A Strategy é a maior representante do setor, detendo mais de 4% de todo o estoque de bitcoin em circulação no planeta.

Saylor batizou essa tese de “Capital Digital”. Na prática, o bitcoin funciona como uma base de capital compartilhada, sobre a qual são construídos instrumentos financeiros negociados em bolsa. As ações dessas companhias funcionam, na visão dos proponentes, como espécies de títulos de dívida perpétuos lastreados em bitcoin.

A Strive, que entrou nesse mercado mais recentemente, segue o mesmo modelo. As duas empresas competem por investidores específicos, mas compartilham o mesmo interesse fundamental: que o preço do bitcoin suba. Como já analisamos em nossa cobertura de criptomoedas, essa convergência de interesses entre competidores é uma característica rara em mercados tradicionais.

A diferença entre ações de crescimento e ações de dividendos nessas empresas

Tanto a Strategy quanto a Strive oferecem dois tipos de papéis ao mercado, cada um voltado para um perfil de investidor diferente. Entender essa divisão é fundamental para quem acompanha o setor.

No caso da Strategy, a ação MSTR é o papel ordinário voltado para ganho de capital. É o veículo de alta volatilidade, que amplifica os movimentos do bitcoin. Nos últimos 12 meses, MSTR acumula perdas superiores a 50%, reflexo direto das oscilações do mercado cripto e do prêmio que o mercado cobra por essa volatilidade.

Já a STRC, ação preferencial perpétua da mesma empresa, foca em geração de renda recorrente por meio de dividendos. O papel sobe 2,2% em 12 meses, embora tenha passado semanas abaixo da marca de US$ 100, patamar que a própria Strategy estabeleceu como referência para manter o fluxo de dividendos constante.

A Strive replica a mesma estrutura. A SST, voltada para ganhos em bolsa, cai 41% no período. A SATA, focada em dividendos, acumula valorização de cerca de 18%, apesar de ter perdido patamares importantes de preço ao longo do caminho. Essa divergência entre papéis de crescimento e papéis de renda dentro da mesma empresa é um fenômeno que merece atenção do investidor que acompanha o mercado financeiro.

Por que a tese de Saylor desafia a lógica tradicional de mercado

Em seu artigo, Saylor escreveu: “Eu quero que a Strive tenha sucesso. Quero que toda emissora de crédito digital baseada em bitcoin bem gerida tenha sucesso.” Não é uma frase de efeito. É a conclusão lógica de quem entende a mecânica do ativo que sustenta seu negócio.

Pense numa analogia com o mercado imobiliário. Se todas as construtoras de um bairro investem em infraestrutura, o metro quadrado da região inteira sobe. Uma construtora pode perder market share para outra, mas o valor do terreno que ambas detêm aumenta. O bitcoin, nesse modelo, é o “terreno” compartilhado.

O raciocínio tem implicações práticas para o investidor. Se a tese estiver correta, o surgimento de novas DATs não dilui o valor das existentes. Pelo contrário, cada nova empresa que entra no mercado comprando bitcoin cria demanda marginal adicional por um ativo escasso. É um ciclo que se autoalimenta, ao menos enquanto o fluxo de capital continuar entrando.

Quais são os riscos que Saylor não menciona

A tese é elegante, mas não é isenta de riscos. O primeiro e mais óbvio: se o preço do bitcoin cair de forma prolongada, todas essas empresas sofrem simultaneamente. A correlação que as beneficia na alta se torna uma armadilha na baixa. Uma queda forte pode gerar vendas forçadas, criando um ciclo de liquidação em cascata.

O segundo risco é regulatório. Mudanças nas regras contábeis ou tributárias sobre como empresas listadas podem deter criptoativos nos balanços poderiam alterar fundamentalmente a viabilidade do modelo. Esse cenário não é hipotético. Diversos reguladores ao redor do mundo discutem ativamente essas questões.

O terceiro é o risco de concentração. A Strategy detém mais de 4% do bitcoin em circulação. Se poucas empresas controlam uma fatia crescente da oferta, o mercado se torna vulnerável a decisões corporativas individuais. Um conselho de administração decidindo liquidar posições pode ter impacto sistêmico.

O que isso significa para quem investe

A defesa de Saylor pela concorrência não é generosidade. É reconhecimento de que, no modelo de tesouraria de bitcoin, a competição tradicional cede espaço para uma dinâmica de soma positiva. Quanto mais empresas comprarem bitcoin, melhor para todas que já detêm o ativo.

Para o investidor, o recado é duplo. Primeiro, analisar DATs não é como analisar empresas de setores tradicionais. O sucesso de uma não implica necessariamente o fracasso de outra. Segundo, a volatilidade é estrutural. Os papéis de crescimento dessas empresas amplificam movimentos do bitcoin, tanto na alta quanto na baixa.

A pergunta que fica é se esse modelo sobrevive a um bear market prolongado. A resposta depende menos da tese de Saylor e mais da trajetória do próprio bitcoin. Se o ativo continuar atraindo capital institucional e mantendo relevância como reserva de valor alternativa, as DATs tendem a se consolidar como um novo segmento de mercado. Se não, a correlação que hoje as fortalece será exatamente o que as derruba.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Compartilhar
Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
Continue scrollando para a próxima matéria…