Tether congela US$ 550 mi do Irã, mas Senado vê falhas
Tether diz cooperar com autoridades e congelou US$ 550 mi em USDT do Irã em 2026. Senado americano rebate: empresa falhou em bloquear carteiras conhecidas.
A Tether publicou nesta segunda-feira um balanço de suas ações contra o uso ilícito do USDT. Segundo a empresa, cerca de US$ 550 milhões vinculados ao Irã foram congelados ao longo de 2026, sendo US$ 344 milhões em abril e outros US$ 130 milhões em julho. O número faz parte de um esforço mais amplo que, segundo a companhia, já envolveu cooperação com 2.900 investigações ao redor do mundo, incluindo mais de 1.600 nos Estados Unidos.
O problema é que, no mesmo dia, o Senado americano divulgou um relatório de 28 páginas dizendo quase o oposto: que a Tether falhou repetidamente em congelar fundos e que o USDT se tornou peça central da economia paralela iraniana. O documento é um dos mais detalhados já produzidos pelo Congresso sobre o papel das stablecoins na evasão de sanções.
O que a Tether apresentou como prova de cooperação
Além do congelamento de US$ 550 milhões ligados ao Irã, a Tether listou uma série de operações conjuntas com autoridades americanas. Entre os casos mais relevantes está a apreensão de US$ 52 milhões em setembro, realizada em parceria com o Scam Center Strike Force do Departamento de Justiça (DoJ). Outra operação de destaque envolveu uma investigação de fraude de US$ 225,3 milhões conduzida pelo DoJ, FBI e Serviço Secreto.
A lista inclui ainda uma apreensão de US$ 61 milhões em fevereiro, a recuperação de US$ 8,5 milhões em fraudes de investimento no final de 2025, apoio a uma operação contra a exchange russa Garantex, recuperação de US$ 1,4 milhão de um golpe de falso suporte técnico e ações contra financiamento ao terrorismo.
Paolo Ardoino, CEO da Tether, argumentou que blockchains públicas oferecem às autoridades um nível de visibilidade sobre movimentação de recursos que simplesmente não existe no sistema de dinheiro em espécie. Segundo ele, a empresa age quando recebe informações confiáveis de órgãos de segurança e mantém coordenação direta com autoridades nos Estados Unidos e em outros países.
O que o Senado americano diz sobre as falhas da Tether
O relatório do Senado pinta um quadro bastante diferente. De acordo com o documento, “o papel da Tether no sistema bancário paralelo do Irã é sem precedentes e generalizado”. O texto aponta que o USDT se tornou a criptomoeda preferida para o regime iraniano sustentar suas operações financeiras fora do sistema bancário tradicional.
Um dado chama atenção: das 846 carteiras sancionadas por associação com o Irã e seus grupos terroristas aliados, 84% realizaram transações exclusivamente ou quase exclusivamente em USDT. Esse percentual sugere uma dependência estrutural do regime iraniano em relação à stablecoin da Tether, o que levanta questões sérias sobre a eficácia dos controles da empresa.
O relatório cita ainda um exemplo emblemático. Um endereço de carteira foi publicado abertamente no X (antigo Twitter) por quem o Senado descreve como “o mais notório lavador de dinheiro do Irã”. Apesar da exposição pública, a Tether não havia congelado os fundos dessa carteira até a publicação do documento. Esse tipo de caso enfraquece o argumento de que a empresa está sendo proativa no combate à evasão de sanções.
Por que isso importa para o mercado de stablecoins
O embate entre Tether e Senado acontece em um momento decisivo para a regulação de stablecoins nos Estados Unidos. Como analisamos na cobertura sobre o avanço regulatório americano, o Congresso está discutindo novas regras que podem definir quem pode emitir stablecoins e quais obrigações de compliance essas empresas precisam cumprir.
O USDT é, de longe, a maior stablecoin do mercado, com mais de US$ 140 bilhões em circulação. Qualquer restrição regulatória significativa à Tether teria efeitos em cascata sobre a liquidez de praticamente todas as exchanges e protocolos DeFi. O documento do Senado conclui que o Congresso deve considerar esses pontos ao formular a legislação, argumentando que stablecoins mal fiscalizadas podem “prejudicar a segurança pública e nacional” do país.
Para a Tether, o desafio é duplo. De um lado, a empresa precisa demonstrar que seus mecanismos de congelamento funcionam de forma preventiva, e não apenas reativa. De outro, precisa convencer legisladores de que uma stablecoin emitida por uma empresa sediada fora dos Estados Unidos pode ser uma aliada, e não uma ameaça, à política de sanções americana.
O paradoxo da transparência blockchain
Há uma ironia central nessa disputa. A Tether argumenta que a natureza pública das blockchains facilita o rastreamento de fundos ilícitos, algo que o dinheiro em espécie não permite. E esse argumento tem mérito: transações em blockchain são rastreáveis, imutáveis e auditáveis. O próprio relatório do Senado usa dados on-chain para identificar as 846 carteiras sancionadas.
Mas a mesma transparência que permite rastrear também expõe as falhas. Se qualquer analista consegue identificar uma carteira ligada a atividades ilícitas no Irã, a pergunta óbvia é: por que a Tether, com seus recursos e equipe de compliance, não congelou antes? A capacidade técnica existe, já que o contrato inteligente do USDT permite que a empresa congele tokens em qualquer endereço a qualquer momento.
O caso da carteira publicada abertamente no X é especialmente problemático. Não se trata de uma carteira obscura descoberta por investigação sofisticada. Era um endereço divulgado publicamente. Esse tipo de omissão alimenta a narrativa de que a Tether prioriza o crescimento de mercado em regiões sob sanções em detrimento do cumprimento estrito das regras.
O que esperar daqui para frente
O relatório do Senado não propõe sanções diretas à Tether, mas sinaliza claramente que o tema será central nas discussões sobre a nova legislação de stablecoins. Se o Congresso americano aprovar regras mais rígidas de compliance, a Tether pode ser forçada a escolher entre se adaptar ao padrão regulatório dos EUA ou perder acesso ao maior mercado financeiro do mundo.
Para investidores e usuários de stablecoins, o recado é claro: o risco regulatório em torno do USDT não é teórico. É concreto, documentado e está sendo ativamente discutido no Congresso americano. Monitorar o avanço dessa legislação é tão importante quanto acompanhar o preço do Bitcoin.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
