Criptomoedas

Tether tem fundos presos em banco alvo de confisco nos EUA

Após processar o Banco Master no Brasil, Tether enfrenta novo problema com banco parceiro que teve 80% do patrimônio apreendido pelos EUA.

A maior emissora de stablecoins do mundo acumula um segundo problema relevante com bancos parceiros em 2025. A Tether, responsável pelo USDT, confirmou que possui fundos depositados no EQIBank, instituição caribenha que teve cerca de US$ 89 milhões apreendidos pelo governo dos Estados Unidos em operação contra lavagem de dinheiro.

O caso envolve a Capstone, fintech com sede na República Dominicana que atuava como intermediária financeira do EQIBank. Documentos judiciais indicam que o confisco atingiu contas no Wells Fargo e até carteiras de USDT vinculadas à Capstone, que movimentava recursos para o banco parceiro da Tether.

A situação ganha contornos mais delicados quando colocada ao lado de outro imbróglio da empresa: a disputa judicial no Brasil contra o Banco Master, de Daniel Vorcaro, na qual a Tether tenta recuperar R$ 1,6 bilhão.

Qual o real impacto do confisco no EQIBank para a Tether

Um porta-voz da Tether afirmou que a exposição ao EQIBank representa menos de 1% das operações da emissora. Estimativas de mercado apontam que o valor comprometido gira em torno de US$ 64 milhões. A própria empresa, no entanto, não divulgou o número exato.

O problema é de proporção. Enquanto US$ 64 milhões representam uma fração mínima para uma empresa que administra mais de US$ 110 bilhões em ativos lastreando o USDT, o dado relevante é outro: 80% do patrimônio do EQIBank está nas mãos do governo norte-americano, sem previsão de liberação.

Se o banco entrar em processo de liquidação, a Tether precisará contabilizar a perda ou buscar a recuperação dos valores por vias judiciais. Não seria a primeira vez. A história da emissora é marcada por relações conturbadas com o sistema bancário tradicional, desde os episódios com o Bitfinex e o Banco Noble, entre 2017 e 2019.

Um padrão que preocupa o mercado de stablecoins

O que chama atenção não é o valor isolado de cada incidente, mas a recorrência. Em poucos meses de 2025, a Tether lida simultaneamente com dois bancos parceiros problemáticos em jurisdições diferentes.

No caso brasileiro, a disputa com o Banco Master envolve valores significativamente maiores e expõe a dificuldade da emissora em selecionar contrapartes bancárias sólidas. O Master já enfrentava questionamentos do mercado financeiro local antes mesmo do processo da Tether.

No caso do EQIBank, a operação americana foi direcionada contra a Capstone, acusada de movimentar dinheiro ilícito. Documentos judiciais citam US$ 79 milhões efetivamente confiscados, enquanto o banco alega que o valor real apreendido chega a US$ 89 milhões. A divergência sugere complexidade na cadeia de custódia dos recursos.

Para o ecossistema cripto, essa sequência de eventos reacende um debate antigo: o quão resiliente é a infraestrutura bancária que sustenta a stablecoin mais negociada do mundo. O USDT movimenta diariamente mais volume do que muitos ativos tradicionais, e sua estabilidade depende diretamente da qualidade dos ativos de reserva.

O que dizem os dados sobre a saúde do USDT

Apesar dos problemas com bancos parceiros, o USDT mantém sua paridade com o dólar e não apresentou descolamento significativo nas últimas semanas. Isso sugere que o mercado, até o momento, aceita a narrativa da Tether de que a exposição ao EQIBank é marginal.

Vale lembrar que a Tether publicou relatórios de atestação nos últimos trimestres mostrando que a maior parte de suas reservas está em títulos do Tesouro americano. Segundo os documentos mais recentes, mais de 80% das reservas estão em instrumentos de alta liquidez, o que, em tese, blinda a empresa de problemas pontuais com bancos menores.

Ainda assim, o mercado mantém atenção redobrada. Concorrentes como a Circle, emissora do USDC, têm capitalizado justamente sobre a narrativa de maior transparência e menor exposição a riscos bancários em jurisdições menos reguladas.

Por que isso importa para quem investe em cripto

O USDT é a porta de entrada e saída de capital para a maioria dos investidores de criptomoedas no mundo. No Brasil, é a stablecoin dominante em praticamente todas as exchanges. Qualquer abalo na confiança sobre suas reservas tem potencial de impactar todo o mercado.

No curto prazo, os valores envolvidos nos casos do EQIBank e do Banco Master não representam risco sistêmico para a Tether. Somados, os dois episódios envolvem algo entre US$ 350 milhões e US$ 400 milhões, o que equivale a menos de 0,4% das reservas totais da emissora.

O risco real é reputacional. A pressão regulatória sobre stablecoins cresce globalmente. Nos Estados Unidos, o projeto de lei para regular emissores de stablecoins avança no Congresso. Na Europa, o MiCA já impõe regras rígidas para reservas. Cada incidente com bancos parceiros fornece munição para reguladores que defendem requisitos mais severos.

Para o investidor, o recado é pragmático: a diversificação entre stablecoins diferentes não é paranoia, é gestão de risco. Manter toda a exposição em dólar digital concentrada em um único emissor sempre carrega um prêmio de risco, mesmo que esse emissor seja o maior do mercado.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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