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Nubank negocia compra do Monzo por até 10 bilhões de libras

Nubank está em conversas para adquirir o Monzo, banco digital com 16 milhões de clientes no Reino Unido. Operação pode ser a maior da história das fintechs latinas.

Nubank negocia compra do Monzo por até 10 bilhões de libras
Foto: Alesia Kozik / Unsplash

O Nubank está em conversas preliminares para adquirir o Monzo, banco digital britânico fundado em 2015 que hoje soma 16 milhões de clientes. A operação, que envolveria dinheiro e ações, pode avaliar o Monzo entre 8 bilhões e 10 bilhões de libras esterlinas, o que representaria quase o dobro do valuation da última rodada, realizada em 2024, quando a fintech foi precificada em 5,2 bilhões de libras.

Se concretizada, a transação marcaria um novo capítulo na estratégia de internacionalização do banco de David Vélez. Mais do que isso, sinalizaria que o Nubank deixou de ser apenas a maior fintech da América Latina para se posicionar como um consolidador global do setor de bancos digitais.

Por que o Monzo interessa ao Nubank

O Monzo é um dos dez maiores bancos do Reino Unido e lidera rankings locais de qualidade de atendimento. No ano fiscal encerrado em março, registrou receita de 1,7 bilhão de libras, um crescimento de 39% sobre o ano anterior, e lucro antes de impostos de 172,6 milhões de libras, alta de 20%.

São números que demonstram uma operação já lucrativa e em aceleração. Para o Nubank, que busca diversificar geograficamente suas fontes de receita, absorver uma base de 15 milhões de pessoas físicas e 1 milhão de empresas no mercado britânico seria um atalho relevante.

Há também um vínculo operacional importante entre as duas empresas. Tom Oldman, atual CFO do Monzo, foi head global de planejamento financeiro e análise do Nubank entre 2019 e 2023. Esse tipo de conexão de bastidor costuma facilitar a due diligence e o alinhamento cultural, dois fatores que historicamente travam fusões no setor financeiro.

A estratégia global do Nubank ganha contorno

A possível aquisição não é um movimento isolado. No final de 2024, o Nubank investiu 150 milhões de dólares na Tyme, fintech sediada em Singapura com operações nas Filipinas e na África do Sul. Pouco depois, o banco iniciou sua operação nos Estados Unidos.

O padrão que emerge é claro: o Nubank está montando um portfólio de presenças em mercados onde a digitalização bancária ainda tem espaço para crescer, como o Sudeste Asiático e a África, ao mesmo tempo em que mira mercados maduros como o Reino Unido e os EUA, onde a competição é mais acirrada, mas o ticket médio por cliente é significativamente maior.

No mercado britânico, o Monzo disputa espaço com a Revolut, que possui 80 milhões de clientes em 40 países. Enquanto a Revolut apostou em expansão geográfica agressiva, o Monzo concentrou-se no mercado doméstico, com presença na Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, e agora avança para Irlanda e Espanha.

A chegada do Nubank como controlador poderia acelerar essa expansão europeia, aproveitando a experiência do banco brasileiro em escalar operações rapidamente em mercados emergentes.

Monzo atravessa momento de transição interna

A negociação acontece num momento delicado para o Monzo. No início deste ano, a fintech retirou TS Anil, executivo com mais de 30 anos de experiência no setor bancário, do cargo de CEO. A decisão irritou parte dos acionistas. Gary Hoffman, o presidente do conselho responsável pela saída de Anil, foi destituído logo em seguida.

Desde fevereiro, quem comanda o banco é Diana Layfield, executiva com passagens pelo Google e pelo Standard Chartered. Uma de suas primeiras decisões foi encerrar a operação do Monzo nos Estados Unidos para focar na expansão europeia. Layfield também tem buscado diversificar receitas. Recentemente, o banco lançou uma rede de telefonia móvel baseada em eSIMs, estratégia que lembra movimentos semelhantes do próprio Nubank no Brasil.

O Monzo já acumulou 11 rodadas de captação, do seed a uma Série I, com investidores como Alphabet, GIC, Tencent, Goodwater e Thrive. Antes da proposta do Nubank, a fintech trabalhava com Morgan Stanley e Qatalyst na busca por novos recursos, e avaliava tanto uma rodada privada vendendo até 15% a fundos de venture capital quanto um IPO.

O que está em jogo para os acionistas

Uma oferta na faixa de 8 a 10 bilhões de libras representaria um prêmio expressivo sobre o último valuation. Na ponta de cima, os acionistas veriam um retorno de quase 92% em relação à rodada de 2024.

Mas o Monzo tem alternativas. O governo britânico e a Bolsa de Londres têm pressionado fintechs locais a listarem na capital inglesa, preocupados com a fuga de grandes empresas para as bolsas americanas. Uma listagem dupla, em Londres e Nova York, daria ao Monzo acesso a capital público sem abandonar seu mercado doméstico.

Para o Nubank, que hoje vale cerca de 50 bilhões de dólares na Bolsa de Nova York, pagar até 10 bilhões de libras (aproximadamente 13 bilhões de dólares) por um banco que fatura 1,7 bilhão de libras ao ano significa aceitar um múltiplo de receita entre 4,7x e 5,9x. Não é barato, mas está dentro da faixa praticada em aquisições de fintechs lucrativas em mercados desenvolvidos.

Ainda não há cronograma definido para que a transação avance. Mas o fato de as conversas terem sido confirmadas por múltiplas fontes internacionais indica que o interesse é real e que as duas partes estão ao menos sentadas à mesa.

O que isso significa para quem investe

Se a aquisição for concretizada, o Nubank se tornaria um banco digital com presença em ao menos quatro continentes: América Latina, América do Norte, Europa e, indiretamente, Ásia e África via Tyme. Esse nível de diversificação geográfica é raro entre fintechs e aproximaria o Nubank de um perfil mais parecido com o de um banco global tradicional.

Para acionistas do Nubank, o risco está na execução. Integrar operações em mercados regulatórios distintos é complexo, e diluição via emissão de ações para financiar parte do negócio é uma possibilidade concreta. Por outro lado, a tese de que o banco precisa crescer fora da América Latina para justificar seu valuation ganha substância com cada novo movimento.

A história ainda está no começo. Mas a mensagem é clara: o Nubank não quer ser o maior banco digital do Brasil. Quer ser o maior do mundo.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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