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Tesla Semi chega ao mercado após uma década de atrasos

A Tesla começou a entregar o caminhão elétrico Semi, prometido em 2017. Com autonomia de 500 milhas e preço próximo de US$ 300 mil, o veículo enfrenta o desafio da infraestrutura de recarga.

Tesla Semi chega ao mercado após uma década de atrasos
Foto: Alex Dos Santos / Unsplash

A Tesla começou a entregar as primeiras unidades do Semi, seu caminhão totalmente elétrico, a clientes comerciais. O veículo foi apresentado pela primeira vez em 2017 com a promessa de revolucionar o transporte de carga nos Estados Unidos. Quase uma década depois, a empresa finalmente cumpre esse compromisso, ainda que o cenário ao redor tenha mudado radicalmente.

O evento de lançamento aconteceu em Reno, Nevada, ao lado da primeira Gigafactory da empresa. Elon Musk não esteve presente fisicamente, pois participava de um jantar de Estado com o premier chinês Xi Jinping em Washington. Executivos como Dan Priestly, chefe do programa Semi, e Lars Moravy, líder de engenharia, conduziram a apresentação.

O que o Tesla Semi entrega na prática

A versão mais capaz do caminhão promete autonomia superior a 500 milhas (cerca de 800 km) com carga completa, a depender do peso transportado. O preço ficará pouco abaixo de US$ 300 mil antes de incentivos fiscais, e haverá variantes com alcance menor e, possivelmente, custo reduzido.

A nova fábrica dedicada ao Semi tem capacidade para produzir até 50 mil unidades por ano, o equivalente a cerca de 1.000 caminhões por semana. A Tesla projeta a criação de 3 mil empregos locais com a operação. Os executivos também destacaram que o custo total de propriedade para frotistas será inferior ao de caminhões a diesel, embora não tenham revelado o preço final exato.

Durante a apresentação, a empresa demonstrou uma sessão de recarga em uma de suas estações megawatt: o caminhão foi de 3% a 60% de bateria em 30 minutos. A Tesla está construindo uma rede própria desses carregadores de alta potência, elemento crucial para viabilizar a adoção do veículo em rotas comerciais. Ainda assim, a infraestrutura de recarga permanece como o principal gargalo, como ocorre com boa parte da revolução dos veículos elétricos.

Uma década de tropeços e ajustes técnicos

O Semi deveria ter entrado em produção em 2019. A pandemia, a crise global de semicondutores e mudanças feitas a partir do feedback de clientes piloto empurraram o cronograma por anos. Mas os atrasos não foram apenas circunstanciais. Houve falhas de design que precisaram ser corrigidas.

O exemplo mais emblemático é o das janelas laterais. O projeto original usava janelas basculantes que não abriam completamente. Por anos, motoristas profissionais e críticos do setor apontaram isso como um problema óbvio para a operação real, onde o condutor precisa interagir com leitores de crachá, cabines de pedágio e intercomunicadores.

Priestly admitiu o erro publicamente. “Reconhecemos que estávamos errados sobre as janelas”, disse. A nova versão tem janelas convencionais que descem completamente. Outro ajuste relevante: a empresa eliminou cerca de 450 kg de peso do veículo em relação ao protótipo original e simplificou o sistema de lubrificação do eixo motriz, reduzindo de três tipos de óleo para apenas um.

Esses detalhes podem parecer menores isoladamente, mas no transporte de carga cada quilo e cada ponto de eficiência impactam diretamente a viabilidade econômica. Para investidores que acompanham a Tesla, a capacidade da empresa de escalar a produção do Semi com margens saudáveis será um dos indicadores mais observados nos próximos trimestres.

A Tesla de 2025 é outra empresa

Quando o Semi foi revelado em 2017, a missão oficial da Tesla era “acelerar a transição mundial para energia sustentável”. Desde então, Musk reposicionou a companhia como uma empresa de robótica e inteligência artificial, alterando a missão para “construir um mundo de abundância incrível”. Quase toda a receita da empresa, no entanto, ainda vem da venda de veículos.

Apesar da mudança retórica, o evento em Reno manteve o foco em sustentabilidade. Priestly destacou que caminhões pesados representam apenas 1% dos veículos nas estradas, mas são responsáveis por 16% das emissões. É um dado que reforça o argumento econômico e ambiental da eletrificação do setor de carga, tema que se conecta à tendência global de investimentos em tecnologia limpa.

A meta de 500 milhas de autonomia com carga completa foi alvo de ceticismo por anos. Bill Gates chegou a escrever em 2020 que caminhões elétricos de grande porte “provavelmente nunca seriam uma solução prática” por causa do peso das baterias. Sem citar o nome, os executivos da Tesla fizeram referência irônica a essa previsão durante o evento.

O que ainda falta para o Semi decolar

Apesar do otimismo, desafios significativos permanecem. A infraestrutura de recarga megawatt é incipiente, e a rede própria da Tesla ainda está em fase de construção. Clientes poderão retirar seus caminhões quando estiverem prontos, mas a operacionalização em escala depende de pontos de recarga distribuídos em corredores logísticos estratégicos.

Outro ponto que chama atenção é a ausência de recursos de automação parcial no Semi, algo curioso para uma empresa que posiciona a direção autônoma como uma de suas tecnologias centrais. Musk, em um vídeo pré-gravado exibido antes do evento, prometeu que esses recursos serão adicionados em um “futuro próximo”, sem especificar prazos.

Para o setor de transporte de carga americano, que movimenta trilhões de dólares por ano, o Semi representa uma aposta concreta na eletrificação. A questão não é mais se caminhões elétricos funcionam, mas em que velocidade a infraestrutura e a escala de produção conseguirão acompanhar a demanda. A Tesla provou que o veículo é viável. Agora precisa provar que o ecossistema ao redor também é.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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