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Ondo e BlackRock: o que muda com portfólios tokenizados

Ondo lançou três portfólios inteligentes baseados em estratégias da BlackRock. Token subiu 26% no dia e reacende o debate sobre tokenização de ativos tradicionais.

Ondo e BlackRock: o que muda com portfólios tokenizados
Foto: Jonathan Borba / Unsplash

A Ondo, protocolo focado na tokenização de ativos do mercado tradicional, anunciou nesta quinta-feira o lançamento dos chamados “Ondo Intelligent Portfolios”. São três produtos que funcionam como carteiras automatizadas, cada um baseado em estratégias de portfólio desenvolvidas pela BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, com mais de US$ 10 trilhões sob gestão.

O token ONDO reagiu com força. Nas 24 horas seguintes ao anúncio, a criptomoeda subiu 26%, negociada em torno de US$ 0,52. Para efeito de comparação, o Bitcoin e outras criptomoedas de maior capitalização avançaram no máximo 2,3% no mesmo período. A disparidade no desempenho evidencia o quanto o mercado está precificando a tese de tokenização como um dos grandes vetores deste ciclo.

Como funcionam os portfólios inteligentes da Ondo

O conceito por trás dos Ondo Intelligent Portfolios é relativamente simples, embora a execução seja sofisticada. Cada produto é representado por um único token na blockchain. Ao adquiri-lo, o investidor ganha exposição a uma carteira diversificada que segue regras predefinidas de alocação, como proporção entre classes de ativos, gatilhos de rebalanceamento e critérios de gestão de risco.

Os rebalanceamentos são executados automaticamente por contratos inteligentes. As regras e as taxas de cada produto estão codificadas on-chain, o que significa que o investidor não precisa tomar decisões operacionais após a compra. É uma lógica parecida com a dos ETFs no mercado tradicional, mas com liquidação instantânea e negociação 24 horas por dia, sete dias por semana.

A linha inicial conta com três estratégias distintas, desenvolvidas pela BlackRock especificamente para a Ondo. Uma delas é voltada para geração de renda, outra para alocação diversificada. A terceira estratégia completa o trio, embora detalhes mais granulares sobre composição e benchmarks ainda não tenham sido totalmente divulgados.

O que a BlackRock ganha com isso

A parceria não é nova. Em 2024, a BlackRock lançou o BlackRock USD Institutional Digital Liquidity Fund, conhecido pela sigla BUIDL. O fundo, que opera sobre blockchain, foi um dos primeiros movimentos concretos da gestora no universo de tokenização e gerou repercussão significativa no mercado.

Para a BlackRock, o interesse é estratégico. A tokenização permite distribuir produtos financeiros a uma base global de investidores com custos operacionais menores, sem depender da infraestrutura de custódia e liquidação do mercado tradicional. A gestora já sinalizou em relatórios públicos que enxerga a tokenização como uma evolução natural da infraestrutura de mercado, não como uma aposta especulativa.

Ao fornecer as estratégias de portfólio para a Ondo, a BlackRock essencialmente terceiriza a camada de distribuição blockchain sem precisar operar diretamente os tokens. É uma jogada de baixo risco e alta exposição ao setor. Se a tokenização decolar, a gestora já está posicionada. Se não decolar, o custo reputacional é mínimo, como discutimos em nossa cobertura sobre o avanço institucional no mercado de ativos digitais.

O contexto regulatório que acelerou a alta

O token ONDO já havia registrado valorização expressiva na semana anterior ao lançamento dos portfólios. O catalisador foi a aprovação, pela SEC, de uma lei temporária autorizando testes com ações tokenizadas nos Estados Unidos. Essa medida, ainda em caráter experimental, abriu caminho para que projetos de tokenização operassem com maior segurança jurídica.

O movimento da SEC reflete uma mudança de postura que vem ganhando tração desde o início do ano. Depois de anos de abordagem restritiva, o regulador americano passou a adotar uma posição mais pragmática em relação a ativos digitais, especialmente aqueles que representam instrumentos financeiros já regulados no mercado tradicional, como títulos de renda fixa e cotas de fundos.

Essa janela regulatória explica, em parte, por que nomes influentes do mercado financeiro estão apostando na tese. Kevin O’Leary, investidor conhecido pelo programa Shark Tank, declarou recentemente que as bolsas de valores tradicionais devem adotar soluções de tokenização para modernizar seus modelos de negociação. Não é uma visão isolada. Relatórios do Boston Consulting Group e da Citi estimam que o mercado de ativos tokenizados pode atingir entre US$ 4 trilhões e US$ 16 trilhões até 2030.

E daí: por que isso importa para o investidor

A tokenização resolve problemas reais. Fundos de investimento tradicionais têm horário de negociação restrito, liquidação em D+1 ou D+2, taxas de administração elevadas e barreiras de entrada que excluem investidores menores. Produtos tokenizados como os da Ondo operam sem essas limitações.

Mas é preciso calibrar as expectativas. O mercado de tokenização ainda é pequeno. O valor total de ativos do mundo real tokenizados em blockchain gira em torno de US$ 12 bilhões, segundo dados da plataforma RWA.xyz. Isso é uma fração minúscula do mercado financeiro global. A infraestrutura regulatória ainda está em construção, e a liquidez desses produtos é incomparavelmente menor do que a de ETFs listados em bolsas tradicionais.

Outro ponto de atenção: a alta de 26% do token ONDO não significa necessariamente que os portfólios inteligentes já são um sucesso comercial. Parte da valorização reflete especulação sobre o potencial do setor, não fluxo real de capital para os produtos. Essa distinção entre hype e adoção efetiva é o que separa teses que geram valor real daquelas que ficam pelo caminho, como analisamos na nossa seção dedicada ao mercado cripto.

O que parece claro é que a tokenização de ativos tradicionais deixou de ser um conceito teórico. Com a BlackRock desenvolvendo estratégias de portfólio para protocolos blockchain, a convergência entre finanças tradicionais e descentralizadas entrou em uma fase mais concreta. A questão agora não é se essa convergência vai acontecer, mas qual será a velocidade e a escala.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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