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Dólar sobe com pesquisa eleitoral e BC hawkish: o que esperar

Câmbio avança 0,48% com investidores digerindo empate técnico Lula vs. Bolsonaro e sinal duro do BC sobre juros. Entenda o que pressiona o real.

Dólar sobe com pesquisa eleitoral e BC hawkish: o que esperar
Foto: Daniel Dan / Unsplash

Por que o dólar voltou a subir nesta quarta-feira

O dólar à vista avançava 0,48% na manhã desta quarta-feira (23), cotado a R$ 5,128, com o mercado reagindo a dois vetores simultâneos: uma pesquisa eleitoral que reforça o cenário de incerteza para 2026 e o tom restritivo do Banco Central sobre política monetária.

O contrato futuro de dólar para outubro, o mais líquido no momento, acompanhava o movimento e subia 0,49% na B3, negociado a R$ 5,135. O comportamento do câmbio reflete uma combinação de fatores domésticos que, juntos, ampliam o prêmio de risco exigido por investidores para manter posições em reais.

A dinâmica não é nova. Como temos acompanhado na cobertura de mercados, o câmbio brasileiro funciona como um termômetro imediato da percepção de risco político e fiscal. E nesta manhã, os dois ponteiros subiram ao mesmo tempo.

Empate técnico eleitoral mantém incerteza no câmbio

A pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada logo cedo trouxe o presidente Lula (PT) de volta à liderança numérica nas intenções de voto contra o senador Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno. A diferença, porém, está dentro da margem de erro, configurando empate técnico.

Para o mercado de câmbio, o dado mais relevante não é quem lidera, mas o grau de indefinição. Cenários eleitorais com resultado previsível tendem a reduzir volatilidade. Empates técnicos fazem o contrário: elevam a incerteza e, consequentemente, o custo de hedge cambial.

A corrida eleitoral de 2026 já começa a se desenhar como um fator estrutural de pressão sobre ativos brasileiros. Análises anteriores que publicamos sobre o impacto das eleições nos mercados mostram que, historicamente, o dólar tende a acumular prêmio nos 12 meses que antecedem pleitos polarizados. Em 2022, por exemplo, o real oscilou cerca de 15% contra o dólar entre janeiro e outubro.

O que torna 2026 particularmente sensível é que a indefinição eleitoral se soma a um ambiente fiscal ainda delicado. O mercado não precifica apenas quem vai governar, mas que tipo de política econômica prevalecerá.

BC mantém tom duro mesmo com dados de arrefecimento

O outro vetor de pressão vem do próprio Banco Central. Nilton David, diretor de Política Monetária, participa nesta manhã do evento J. Safra Investment Conference 2026, em São Paulo. A fala é acompanhada de perto porque acontece dias após a divulgação da ata da última reunião do Copom.

Na ata, o BC defendeu a manutenção de juros em patamar restritivo, citando pressão de demanda como justificativa central. O ponto de atenção é que o próprio documento reconhece sinais de arrefecimento em três frentes: atividade econômica, crédito e inflação.

Essa aparente contradição gera leituras distintas no mercado. De um lado, gestores interpretam o tom como sinal de que cortes de juros ainda estão distantes, o que tende a fortalecer o real pela atratividade do carry trade. De outro, a insistência em manter juros altos com economia desacelerando levanta dúvidas sobre o custo para o crescimento.

Na prática, o câmbio reagiu mais ao ruído político do que à sinalização monetária. Isso sugere que, no curto prazo, o fator eleitoral tem pesado mais na formação de preço do dólar do que os fundamentos macroeconômicos.

Cenário externo adiciona camadas de complexidade

No exterior, o quadro é misto. As bolsas americanas vêm de uma sessão positiva, com o Nasdaq registrando novo recorde impulsionado por ações de tecnologia ligadas à inteligência artificial. Esse otimismo com IA tem sustentado apetite por risco globalmente, o que em tese favoreceria moedas emergentes.

No entanto, dois fatores geopolíticos compensam parte desse impulso. O petróleo recuava com a notícia de que a Arábia Saudita retomou operações no oleoduto Leste-Oeste e pode já ter reiniciado exportações pelo porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Queda no petróleo reduz a receita esperada de exportadores de commodities, incluindo o Brasil.

Além disso, a expectativa de um possível encontro entre o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, e Donald Trump durante a Assembleia Geral da ONU adiciona uma variável geopolítica que o mercado monitora com cautela. Uma distensão entre os dois países poderia ampliar a queda do petróleo, enquanto um fracasso diplomático teria efeito oposto.

O que o investidor deve observar nas próximas horas

Três elementos definem a trajetória do câmbio até o fim do pregão. O primeiro é o conteúdo efetivo da palestra de Nilton David. Se o diretor do BC reforçar a mensagem hawkish da ata sem sinalizar horizonte para cortes, o real pode recuperar parte do terreno perdido.

O segundo é a repercussão política da pesquisa eleitoral. Declarações de lideranças partidárias e movimentações de pré-campanha tendem a amplificar ou diluir o impacto do empate técnico sobre a percepção de risco.

O terceiro é o comportamento do petróleo. O Brent opera em queda, e se a retomada das exportações sauditas pelo Mar Vermelho se confirmar em volume, a pressão sobre commodities pode se manter nas próximas sessões.

Com o dólar acima de R$ 5,12 e a combinação de incerteza eleitoral com política monetária restritiva, o cenário para o real segue de cautela. O mercado precifica, antes de tudo, a falta de visibilidade sobre o médio prazo. E visibilidade, neste momento, é exatamente o que falta.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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