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Circle lança rede Arc com BlackRock, Visa e DTCC como validadores

A emissora do USDC estreia sua própria rede blockchain com liquidação abaixo de 1 segundo e pesos-pesados de Wall Street como validadores. As ações, porém, caem 6,7%.

Circle lança rede Arc com BlackRock, Visa e DTCC como validadores
Foto: Pachon in Motion / Unsplash

A Circle, emissora da stablecoin USDC, colocou no ar a rede principal da Arc, sua própria infraestrutura blockchain. O que chama atenção não é exatamente a tecnologia, mas quem está sentado na mesa de validadores: BlackRock, DTCC, ICE, Visa, Mastercard, Standard Chartered, MoneyGram, Galaxy e mais uma dezena de nomes que, até pouco tempo atrás, tratavam cripto como curiosidade de nicho.

A rede promete liquidações em menos de um segundo e um modelo de taxas que permite pagamento em USDC, eliminando a necessidade de manter criptomoedas voláteis em carteira. Parece detalhe técnico, mas é justamente o tipo de atrito que afastava grandes instituições financeiras da infraestrutura on-chain.

Apesar do lançamento, as ações da Circle abriram o dia em queda de 6,7%. O motivo está em Washington, não na Arc.

O que a Arc resolve que outras redes não resolvem

A proposta da Circle para a Arc ataca um problema antigo do mercado institucional. Para operar em redes como Ethereum ou Tron, empresas precisam manter reservas do token nativo dessas redes para pagar taxas de transação. Para um banco ou uma processadora de pagamentos, carregar ETH ou TRX no balanço é um incômodo regulatório e operacional que gera atrito com áreas de compliance.

Na Arc, as taxas são pagas em USDC. Isso pode parecer trivial para quem já opera no ecossistema cripto, mas para tesourarias corporativas é a diferença entre viabilidade e inviabilidade. Como explicamos em nossa cobertura sobre stablecoins e infraestrutura cripto, a adoção institucional depende menos de inovação técnica e mais de remoção de barreiras práticas.

Além da questão das taxas, a rede oferece recursos de privacidade opcionais. Instituições podem transacionar ativos tokenizados sem expor dados sensíveis na blockchain pública, algo que redes como Ethereum ainda não entregam de forma nativa.

Validadores de peso: o que BlackRock e DTCC fazem na rede

A lista de validadores da Arc é um retrato do que o mercado financeiro tradicional quer do universo cripto em 2025. A DTCC, que processa trilhões de dólares em liquidações todos os anos nos Estados Unidos, participa como validadora. O mesmo vale para a ICE, controladora da Bolsa de Nova York.

A presença da BlackRock não surpreende. A gestora já opera o fundo tokenizado BUIDL, que é um dos ativos suportados nativamente na Arc. Visa e Mastercard, que vêm expandindo suas operações em pagamentos com stablecoins, também integram o grupo. Como detalhamos em nossa seção de finanças, a tokenização de ativos tradicionais se tornou uma das frentes mais ativas de investimento das grandes instituições.

A rede suporta mais de 20 stablecoins de diferentes moedas fiduciárias, incluindo o wBRL, atrelado ao real brasileiro, e o BRLA. Também dá suporte a ativos tokenizados como o BUIDL (BlackRock), JAAA e JTRSY, além do cirBTC, um token atrelado ao Bitcoin emitido pela própria Circle.

A aposta em agentes de IA como usuários da rede

Um dos aspectos menos óbvios do lançamento é a infraestrutura voltada para agentes de inteligência artificial. A Arc inclui ferramentas que permitem criar carteiras para agentes autônomos, com limites de gastos predefinidos, e realizar transações que custam frações de centavo.

A tese da Circle é que agentes de IA vão se tornar usuários massivos de infraestrutura financeira. Máquinas que executam tarefas automatizadas precisam fazer pagamentos, liquidar contratos e mover valores em tempo real. Como a própria empresa argumenta, “as máquinas não toleram liquidações que levam dois dias nem horários bancários”.

Esse posicionamento conecta a Arc diretamente à convergência entre IA e infraestrutura financeira, um tema que temos acompanhado em nossa cobertura de tecnologia. O Arc Studio, um agente de programação on-chain, e o Arc App Kits, que oferece SDKs para criação de aplicativos baseados em stablecoins, completam o ecossistema de desenvolvimento.

Por que as ações caem apesar do lançamento

A queda de 6,7% nas ações da Circle não tem relação com a Arc. O gatilho foi a rejeição do Clarity Act no Senado americano na véspera do lançamento. O projeto regulatório incluía disposições específicas sobre stablecoins e representava um avanço importante para a clareza jurídica do setor.

Sem o Clarity Act, a Circle opera em um ambiente regulatório mais incerto nos Estados Unidos. Para uma empresa que acabou de abrir capital e cuja receita depende diretamente da emissão e circulação de stablecoins, a falta de um marco regulatório claro é um risco material que o mercado precifica imediatamente.

A Arc foi anunciada pela primeira vez em agosto de 2025, quando as ações da Circle dispararam com o otimismo em torno da solução. O lançamento da rede principal confirma a execução técnica, mas o contexto regulatório frustra a narrativa de crescimento no curto prazo.

O que isso significa para o mercado

A Arc representa uma mudança de modelo para a Circle. A empresa deixa de ser apenas uma emissora de stablecoin para se posicionar como provedora de infraestrutura financeira completa, competindo não apenas com outras blockchains, mas com sistemas tradicionais de liquidação.

Com validadores como DTCC e ICE, a Arc nasce com credibilidade institucional que outras redes levaram anos para construir. A questão agora é se a rede conseguirá atrair volume real de transações ou se ficará como mais uma infraestrutura subutilizada em um mercado já saturado de blockchains.

O cenário regulatório americano será decisivo. Se um novo projeto de lei para stablecoins avançar nos próximos meses, a Circle e a Arc podem capturar uma fatia relevante do mercado institucional. Se a indefinição persistir, o capital institucional tende a migrar para jurisdições com regras mais claras, como a União Europeia sob o MiCA.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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