Super Quarta: o que esperar do Copom e do Fed em setembro
Copom deve cortar Selic em 0,25 p.p. enquanto Fed pode subir juros pela primeira vez desde 2023. Entenda o que muda para seus investimentos.
A quarta-feira (16) concentra dois dos eventos mais relevantes do calendário econômico global. Copom e Fed anunciam suas decisões de política monetária no mesmo dia, em direções opostas. O Brasil caminha para mais um corte na Selic, enquanto os Estados Unidos enfrentam a possibilidade concreta de uma alta de juros que não acontece desde 2023.
Mais do que os números em si, o que importa para quem investe é o sinal que os dois bancos centrais vão enviar sobre os próximos meses. A comunicação pós-decisão tende a definir o humor dos mercados nas semanas seguintes.
Copom: corte de 0,25 p.p. e foco no comunicado
O consenso do mercado aponta para uma redução de 25 pontos-base na taxa Selic, que sairia de 14,00% para 13,75% ao ano. Seria a continuidade do ciclo de calibração iniciado em março, quando o Banco Central começou a reverter parte do aperto monetário acumulado nos trimestres anteriores.
A decisão em si deve gerar pouca surpresa. O ponto de atenção está no tom do comunicado. Investidores querem entender se o BC sinalizará novos cortes adiante ou se pretende adotar uma postura mais cautelosa diante de riscos que ainda persistem no cenário doméstico.
Dois fatores pesam sobre essa avaliação. O primeiro é o IBC-Br de atividade econômica, divulgado pela manhã, que apontou retração de 0,4% no mês. Uma economia mais fraca, em tese, abre espaço para afrouxamento monetário mais rápido. O segundo é o cenário fiscal, que segue no radar dos investidores como variável de risco para a trajetória dos juros, como analisamos com frequência na cobertura de finanças.
Fed: primeira alta de juros desde 2023 pode se confirmar
Nos Estados Unidos, o cenário é inverso. Os mercados precificam com probabilidade superior a 90% uma elevação de 0,25 ponto percentual na taxa básica americana, atualmente em 3,50%. Se confirmada, seria a primeira alta do Fed desde o ciclo de aperto de 2023.
A justificativa é a persistência inflacionária. Os preços do petróleo acima de 100 dólares por barril, alimentados por tensões geopolíticas no Oriente Médio, pressionam a cadeia de custos americana. Ataques recentes a infraestruturas na Arábia Saudita e interrupções no tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz adicionam prêmio de risco ao barril.
Além dos juros, os dados de vendas no varejo americano referentes a agosto também saem nesta quarta. Números fortes de consumo reforçariam a tese de que a economia dos EUA ainda não desacelerou o suficiente para conter a inflação, validando a postura mais dura do Fed.
Para investidores brasileiros, um cenário de juros americanos em alta tende a fortalecer o dólar globalmente e pressionar ativos de risco em mercados emergentes. O diferencial de juros entre Brasil e EUA, embora ainda favorável ao real, diminui a cada decisão divergente.
O que o Ibovespa já precificou
O Ibovespa fechou a terça-feira em alta de 0,54%, aos 186.502 pontos, sustentado principalmente por Petrobras. A valorização do petróleo no mercado internacional beneficiou diretamente os papéis da estatal, mas o rali do barril tem dois lados: favorece exportadoras de commodities e, ao mesmo tempo, alimenta a inflação global que justifica juros mais altos nos EUA.
Depois de duas sessões consecutivas de queda, o mercado brasileiro mostrou algum fôlego, mas a cautela prevalece antes da Super Quarta. Historicamente, sessões pós-decisão do Copom tendem a ser mais voláteis do que a véspera, especialmente quando o comunicado surpreende em algum aspecto.
Outro fator de atenção no ambiente doméstico é a crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal. O adiamento da decisão sobre a investigação envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, após pedido de vista de Flávio Dino, prolonga a incerteza política. Para o mercado, a questão ganha relevância à medida que se aproxima o ciclo eleitoral e seus potenciais impactos sobre a percepção de risco do país.
Por que essa Super Quarta é diferente das anteriores
Nas últimas Super Quartas, Brasil e Estados Unidos caminhavam na mesma direção. Ambos cortavam juros ou, ao menos, sinalizavam trajetórias convergentes. Desta vez, os ciclos se descolaram de forma clara. Enquanto o Copom segue em modo de afrouxamento gradual, o Fed retoma o aperto.
Esse descolamento tem implicações práticas. Para a renda fixa brasileira, a continuidade dos cortes reduz gradualmente os retornos de títulos pós-fixados atrelados à Selic, mas pode valorizar prefixados de longo prazo se o mercado perceber que o ciclo de queda tem fôlego. Já para a renda variável, juros menores no Brasil são historicamente positivos, mas a alta nos EUA compete pela atenção do capital estrangeiro.
Para quem investe em criptomoedas, o cenário também merece atenção. Juros americanos mais altos tendem a reduzir o apetite por ativos de maior risco no curto prazo. Mas o diferencial de política monetária entre países também influencia fluxos para ativos descorrelacionados, o que pode gerar oportunidades em momentos de volatilidade.
O mais provável é que os mercados digiram as decisões com relativa tranquilidade, desde que não haja surpresas no tom dos comunicados. A verdadeira informação desta Super Quarta não está no número da taxa, mas nas entrelinhas sobre o que vem depois.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
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