Bitcoin já fez fundo do ciclo? O que dizem os dados
Brian Armstrong afirma que o pior ficou para trás e projeta Bitcoin a US$ 400 mil até 2030. Dados de ciclos anteriores sustentam a tese, mas há ressalvas importantes.
O CEO da Coinbase, Brian Armstrong, afirmou em entrevista na última semana que acredita que o Bitcoin já atingiu o fundo de preço neste ciclo. A declaração veio acompanhada de uma projeção ousada: US$ 400 mil por unidade até 2030. Mas o que os dados históricos e o comportamento on-chain realmente dizem sobre essa tese?
A referência de Armstrong é o movimento recente do BTC, que saiu da faixa dos US$ 60 mil em agosto para reconquistar os US$ 80 mil. Para ele, o padrão de ciclos de aproximadamente quatro anos, com três anos de valorização seguidos por um período de correção, estaria se repetindo. Se estiver certo, o ativo entraria agora em uma nova fase de expansão.
O argumento tem base empírica. Em ciclos anteriores, o fundo pós-halving costumou ocorrer entre 12 e 18 meses antes do próximo evento de redução da recompensa de mineração. A lógica é simples: o halving reduz a emissão de novos bitcoins pela metade, criando um choque de oferta que historicamente antecedeu novas máximas. Como analisamos em nossa cobertura de criptomoedas, esse padrão se repetiu em 2012, 2016 e 2020.
O padrão dos ciclos de halving sustenta a tese?
Se olharmos os três ciclos completos do Bitcoin, o padrão é notável. Após o halving de 2012, o BTC subiu de US$ 12 para mais de US$ 1.100 em cerca de 14 meses. Depois do halving de 2016, saiu de US$ 650 para quase US$ 20 mil em 17 meses. Já no ciclo de 2020, a alta foi de US$ 8.700 para US$ 69 mil.
Os retornos percentuais diminuem a cada ciclo, o que é natural à medida que o ativo amadurece e atrai capital institucional. No primeiro ciclo, a valorização pós-halving superou 9.000%. No segundo, foi de cerca de 3.000%. No terceiro, aproximadamente 700%.
Se aplicarmos uma taxa de retorno decrescente ao ciclo atual, uma alta de 300% a 500% sobre o fundo colocaria o BTC numa faixa entre US$ 240 mil e US$ 400 mil. É exatamente a projeção de Armstrong. Do ponto de vista matemático dos ciclos, o número não é absurdo. A questão é se o padrão continuará se repetindo em um mercado estruturalmente diferente.
Regulação nos EUA pode ser o catalisador que faltava
Armstrong não baseia sua tese apenas nos ciclos. O CEO da maior exchange pública dos Estados Unidos aponta o avanço regulatório como um vetor adicional de valorização. O Clarity Act, projeto que tramita no Senado americano, busca estabelecer regras claras para classificação e negociação de criptoativos.
A expectativa do mercado é que uma regulamentação clara elimine a incerteza jurídica que afasta capital institucional. Mesmo que o projeto não seja aprovado imediatamente, Armstrong acredita que alguma legislação para ativos digitais será criada nos próximos anos. Como discutimos em nossa seção de finanças, o apetite regulatório nos EUA mudou substancialmente desde a aprovação dos ETFs de Bitcoin à vista em janeiro de 2024.
Os fluxos para ETFs de Bitcoin spot nos Estados Unidos já superaram US$ 60 bilhões em captação líquida acumulada, segundo dados da Bloomberg. Esse volume institucional muda a dinâmica dos ciclos anteriores, onde o mercado era dominado por investidores de varejo e especulação alavancada.
O que isso significa para altcoins
Se o fundo do Bitcoin realmente ficou para trás, a história sugere que as altcoins podem se beneficiar na sequência. Em ciclos anteriores, o chamado “efeito cascata” funcionou de maneira relativamente previsível: primeiro o BTC sobe, depois o capital migra para Ethereum e grandes altcoins, e por fim chega aos projetos menores.
No ciclo de 2020-2021, o Bitcoin fez sua máxima em novembro de 2021, mas diversas altcoins já haviam disparado meses antes. O Ethereum, por exemplo, subiu mais de 1.000% entre janeiro e novembro de 2021. Projetos de DeFi e tokens de infraestrutura também registraram valorizações expressivas.
Porém, há uma ressalva importante que frequentemente é ignorada: a maioria das altcoins nunca recupera suas máximas anteriores. Segundo dados da CoinGecko, mais de 70% dos tokens que existiam no pico de 2021 perderam mais de 90% de seu valor e não se recuperaram. O “efeito cascata” funciona para alguns ativos, não para o mercado como um todo. Como analisamos em nosso guia sobre altcoins, a seleção criteriosa é mais importante do que simplesmente “comprar tudo que é barato”.
Projeção de US$ 400 mil é razoável ou otimista demais?
Chamar US$ 400 mil de “alvo razoável”, como fez Armstrong, é uma declaração que precisa ser contextualizada. O CEO da Coinbase tem incentivos óbvios para ser otimista: a receita da empresa depende diretamente do volume de negociação, que cresce em mercados de alta.
Dito isso, outros modelos chegam a projeções semelhantes. O Stock-to-Flow, embora controverso, já apontava para faixas de seis dígitos neste ciclo. Analistas do Standard Chartered projetaram US$ 200 mil até o fim de 2025. A Ark Invest, de Cathie Wood, trabalha com cenários que vão de US$ 300 mil a US$ 1,5 milhão até 2030, dependendo da adoção institucional.
O que nenhum modelo captura com precisão são os chamados “cisnes negros”: crises geopolíticas, colapsos de grandes players do mercado ou mudanças regulatórias inesperadas. O colapso da FTX em novembro de 2022 é o exemplo mais recente de como um evento fora do radar pode derrubar o mercado inteiro em semanas.
A tese de que o Bitcoin fez fundo neste ciclo tem fundamento nos dados históricos. Mas transformar esse fundamento em certeza, e projetar um preço específico cinco anos à frente, é um exercício que mistura análise com convicção pessoal. Para o investidor, o que importa não é se o BTC chegará a US$ 400 mil, mas sim entender que o ativo segue um padrão cíclico que, até agora, não foi quebrado. A gestão de risco continua sendo mais importante do que qualquer projeção de preço.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
