Nasdaq investe US$ 100 mi na Kraken para tokenizar ações
Bolsa americana aposta na Payward, controladora da Kraken, para lançar ações em formato de tokens na blockchain. Objetivo é eliminar o tempo de liquidação.
A Nasdaq acaba de colocar US$ 100 milhões na mesa para apostar que o futuro das ações passa pela blockchain. O braço de investimentos da bolsa americana, a Nasdaq Ventures, fechou aporte nesse valor na Payward, holding que controla a corretora de criptomoedas Kraken. O movimento não é apenas financeiro. Ele sinaliza que a maior operadora de bolsa de tecnologia do mundo quer reconstruir a infraestrutura do mercado de capitais usando tokens.
A parceria prevê o lançamento dos chamados Nasdaq Equity Tokens para o segundo trimestre de 2027. A ideia é transformar ações de empresas listadas em tokens negociáveis na blockchain, mantendo todos os direitos dos acionistas e as exigências regulatórias do mercado tradicional. É uma aposta de longo prazo, mas com implicações enormes para a forma como ativos financeiros são liquidados e negociados.
Por que a Nasdaq quer colocar ações na blockchain
O problema que a Nasdaq e a Payward tentam resolver é concreto e mensurável. Segundo Arjun Sethi, co-CEO da Payward, mais de US$ 2 trilhões em negociações de ações passam pelo sistema de compensação dos Estados Unidos todos os dias. Desse volume, cerca de 98% se anula em compensação líquida, mas a câmara de compensação ainda retém entre US$ 10 bilhões e US$ 20 bilhões em garantias enquanto espera o ciclo de liquidação se completar.
Quando os EUA reduziram o prazo de liquidação de dois dias para um, em 2024, o mercado liberou US$ 3 bilhões em capital que antes ficava preso no sistema. A promessa da liquidação on-chain é ir além: eliminar completamente o tempo de espera. Isso significa menos capital parado, menos risco de contraparte e mais eficiência operacional. Para gestores institucionais que operam com bilhões, cada hora de capital imobilizado tem custo real.
Tal Cohen, presidente da Nasdaq, resumiu a tese ao dizer que “a próxima era da evolução do mercado será definida pela eficiência e fluidez com que o capital e os ativos se movimentam pelo sistema financeiro”. Não é retórica vazia. A bolsa americana está colocando dinheiro na estrutura que pretende operar, como detalhamos na nossa cobertura de tecnologia financeira.
O que são os Nasdaq Equity Tokens e como funcionam
Os Nasdaq Equity Tokens não são criptomoedas no sentido convencional. São representações digitais de ações reais, emitidas em infraestrutura blockchain, mas com toda a estrutura jurídica do mercado regulado. Isso significa que quem detém um token desses mantém os mesmos direitos de voto, dividendos e proteções legais de um acionista tradicional.
O diferencial em relação a tentativas anteriores de tokenização está na escala e na credibilidade dos envolvidos. A Nasdaq opera mercados que somam trilhões de dólares em valor listado. A Kraken, por sua vez, é uma das maiores corretoras de criptoativos do mundo, com infraestrutura técnica para operar ativos digitais 24 horas por dia, sete dias por semana. A combinação resolve um dos principais gargalos da tokenização: a falta de liquidez e de confiança institucional.
O contrato entre as duas empresas também prevê a adoção de ferramentas de monitoramento de fluxo de negociações, cobrindo derivativos e operações de balcão. Esse ponto é crucial. Fundos institucionais exigem padrões rigorosos de vigilância e conformidade antes de operar em qualquer plataforma, como abordamos na editoria de finanças. Sem essa camada de supervisão, a tokenização fica restrita ao nicho cripto.
O cenário mais amplo da tokenização em 2025
O aporte da Nasdaq não acontece no vácuo. A tokenização de ativos do mundo real, conhecida como RWA (Real World Assets), é uma das narrativas mais consistentes do mercado financeiro neste momento. A BlackRock lançou seu fundo tokenizado BUIDL em 2024 e já acumula bilhões em ativos sob gestão nesse formato. Bancos como JPMorgan e Citi têm divisões inteiras dedicadas a explorar a infraestrutura blockchain para operações financeiras.
O que diferencia o movimento da Nasdaq é que ela não está apenas tokenizando ativos alternativos ou títulos de dívida. Ela quer tokenizar ações de empresas listadas em bolsa, o coração do mercado de capitais global. Se funcionar, a estrutura pode mudar fundamentalmente como bolsas de valores operam, eliminando intermediários e permitindo negociações contínuas.
Essa convergência entre finanças tradicionais e infraestrutura cripto já vinha sendo mapeada por analistas. O crescimento dos ETFs de criptomoedas nos Estados Unidos mostrou que há demanda institucional por exposição a ativos digitais dentro de estruturas reguladas. A tokenização de ações é o próximo passo lógico dessa convergência.
O que isso muda para o investidor
No curto prazo, muito pouco. O lançamento está previsto apenas para 2027, e há um longo caminho regulatório a percorrer. A SEC ainda não definiu regras claras para ações tokenizadas, e a estrutura de custódia para esse tipo de ativo ainda está em construção.
No médio prazo, porém, as implicações são significativas. Se ações tokenizadas forem negociáveis 24 horas por dia, investidores de qualquer fuso horário poderão operar papéis americanos sem depender do horário de funcionamento da bolsa. A liquidação instantânea reduziria o capital necessário em garantias, potencialmente diminuindo custos operacionais que hoje são repassados ao investidor final.
O fato de a Nasdaq estar construindo essa infraestrutura em parceria com uma corretora cripto, e não tentando replicar a tecnologia internamente, diz muito sobre a maturidade que o setor atingiu. A Kraken não é mais vista apenas como uma exchange para especuladores de Bitcoin. É tratada como um parceiro de infraestrutura tecnológica capaz de atender padrões institucionais.
O mercado financeiro está silenciosamente reescrevendo seu código-fonte. E pela primeira vez, quem opera cripto e quem opera ações pode estar usando os mesmos trilhos.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
