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Capital B compra US$ 29 mi em bitcoin: a tese europeia de tesouraria cripto

Empresa francesa acumula 3.521 BTC avaliados em US$ 359 milhões. Aporte de Adam Back eleva sua participação a 17,64% e reforça modelo inspirado na Strategy.

Capital B compra US$ 29 mi em bitcoin: a tese europeia de tesouraria cripto
Foto: Alesia Kozik / Unsplash

A corrida corporativa pelo bitcoin ganhou mais um capítulo relevante na Europa. A Capital B, empresa francesa focada em tesouraria cripto, anunciou a aquisição de 376 BTC por cerca de €25,3 milhões (US$ 29,4 milhões). Foi a maior compra de bitcoin da companhia em um ano, desde setembro de 2025, quando havia adquirido 551 BTC.

Com essa operação, a Capital B passa a deter 3.521 BTC no total, adquiridos por €309,4 milhões (US$ 359,3 milhões). O preço médio de compra fica em torno de US$ 102 mil por unidade. No mês anterior, a empresa havia comprado apenas 6 BTC, o que torna o salto para 376 unidades ainda mais expressivo.

De onde veio o dinheiro para a compra

A aquisição foi financiada por recursos captados em rodadas recentes, incluindo uma colocação privada de €28,7 milhões (US$ 33,3 milhões). Parte relevante desse capital veio de Adam Back, cofundador e CEO da Blockstream e um dos criptógrafos citados no white paper do Bitcoin.

Back investiu €7,6 milhões (US$ 8,8 milhões) adicionais na operação, elevando sua participação ordinária na Capital B para 17,64%. A presença de uma figura com esse peso no ecossistema cripto não é trivial. Sinaliza convicção no modelo de negócios e, ao mesmo tempo, confere credibilidade institucional à empresa.

Para quem acompanha o mercado financeiro global, esse tipo de estrutura de capital levanta uma pergunta relevante: até que ponto empresas de tesouraria cripto conseguem sustentar compras agressivas de bitcoin sem gerar diluição excessiva para os acionistas?

O modelo Strategy chega à Europa

A Capital B, que até julho de 2025 se chamava The Blockchain Group, mudou de marca justamente para comunicar ao mercado sua virada estratégica. A empresa abandonou o perfil diversificado e passou a concentrar esforços numa única tese: acumular bitcoin no balanço como reserva de valor corporativa.

O modelo não é original. Ele replica, em escala menor, a estratégia popularizada pela Strategy (antiga MicroStrategy) nos Estados Unidos. Michael Saylor transformou a empresa numa espécie de veículo proxy para exposição institucional ao bitcoin, e várias companhias ao redor do mundo tentam seguir o mesmo roteiro.

O diferencial da Capital B está na geografia. A empresa já sinalizou que está desenvolvendo um produto de crédito lastreado em bitcoin voltado para o mercado europeu, inspirado em instrumentos como o STRC da Strategy e o SATA da Strive. Se bem executado, seria o primeiro veículo desse tipo estruturado sob regulação europeia, que segue o arcabouço do MiCA.

Esse movimento ganha contexto quando se observa a evolução da regulação cripto na Europa. O continente avançou mais rápido que os Estados Unidos na criação de regras claras para ativos digitais, o que pode facilitar a estruturação de produtos financeiros mais sofisticados lastreados em bitcoin.

O que os números dizem sobre a tese

Com o bitcoin negociado ao redor de US$ 79.500 no momento da compra, a Capital B adquiriu seus 376 BTC a um preço ligeiramente abaixo da cotação de mercado, segundo os valores divulgados. Seu preço médio de US$ 102 mil por bitcoin, no entanto, está acima da cotação atual, o que significa que a posição total da empresa opera no vermelho.

Esse é um dado que merece atenção. A Strategy de Saylor, por exemplo, já passou por períodos prolongados de prejuízo não realizado em sua posição de bitcoin. A diferença é que a Strategy conta com um valor de mercado superior a US$ 80 bilhões e acesso facilitado ao mercado de dívida americano. A Capital B, com uma posição 100 vezes menor, tem margem de manobra significativamente mais estreita.

Para o investidor que avalia a tese de bitcoin como reserva de valor corporativa, o caso da Capital B oferece um estudo interessante. A companhia está apostando que o bitcoin vai se valorizar o suficiente para justificar tanto a diluição provocada pelas captações quanto o custo de oportunidade de manter um ativo volátil no balanço.

Por que isso importa para o investidor brasileiro

O surgimento de empresas de tesouraria cripto na Europa importa por duas razões. Primeiro, porque amplia a demanda institucional por bitcoin para além dos Estados Unidos. Se esse modelo se espalhar, cria uma base compradora estrutural que independe do varejo.

Segundo, porque abre um precedente regulatório. Se a Capital B conseguir lançar um produto de crédito lastreado em bitcoin sob o MiCA, isso pode servir de referência para outros mercados, incluindo o Brasil, onde a CVM e o Banco Central ainda debatem os limites da regulação de ativos digitais.

Enquanto isso, o bitcoin segue em fase de consolidação. Depois de tocar US$ 81.700 na última quinta-feira, a criptomoeda recuou para a faixa de US$ 79.500. A participação de Adam Back e o apetite da Capital B sugerem que, pelo menos entre os institucionais europeus, a convicção na tese de longo prazo segue intacta, independentemente da volatilidade de curto prazo.

A questão, como sempre, é de tempo e execução. Ter bitcoin no balanço é a parte fácil. Construir um modelo de negócios sustentável ao redor dessa posição é o verdadeiro desafio.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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