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Aprovação de Trump cai a 33% e pressiona mercados antes das midterms

Pesquisa do Financial Times mostra menor aprovação de Trump desde o início da série, com desgaste econômico e guerra comercial pesando sobre eleitores e investidores.

Aprovação de Trump cai a 33% e pressiona mercados antes das midterms
Foto: Ivan Dražić / Unsplash

A aprovação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atingiu 33% entre eleitores registrados, segundo levantamento nacional do instituto Focaldata encomendado pelo Financial Times. É o menor nível desde que o jornal britânico começou a medir o indicador, em maio. No mês anterior, o número já havia recuado, mas a queda de três pontos percentuais em apenas quatro semanas sinaliza uma aceleração do desgaste político a menos de dois meses das eleições de meio de mandato.

Para quem acompanha mercados financeiros, a leitura vai além da política. A erosão de capital político de um presidente americano afeta diretamente a capacidade de aprovar legislação econômica, negociar acordos comerciais e sustentar a confiança de investidores domésticos e estrangeiros. E os números desta pesquisa contam uma história de deterioração ampla, incluindo dentro da própria base republicana.

O que está por trás da queda na aprovação

O desgaste tem nome: economia e custo de vida. Quase dois terços dos eleitores ouvidos na pesquisa afirmaram que a economia dos Estados Unidos caminha na direção errada. Mais revelador ainda: 57% disseram estar em pior situação financeira sob a atual gestão, ante 53% no mês anterior. A percepção de piora acelerou.

Entre os fatores concretos, o preço do diesel nos EUA bateu recorde de US$ 5,85 por galão, segundo dados da AAA. Combustível mais caro encarece toda a cadeia logística, de alimentos a bens industriais. Como analisamos em matérias sobre o impacto da inflação americana nos mercados globais, a pressão sobre custos de energia nos Estados Unidos tem efeito cascata sobre ativos de risco no mundo inteiro.

A guerra com o Irã, que a Casa Branca não conseguiu encerrar, elevou os custos de financiamento do Tesouro americano nos últimos seis meses. Treasuries mais caros significam juros mais altos para hipotecas, financiamentos e crédito corporativo. O efeito é sentido no bolso do eleitor e no balanço das empresas.

Base republicana racha e tarifas ampliam rejeição

O dado mais preocupante para a Casa Branca talvez não esteja nos números gerais, mas na fragmentação da base. A aprovação entre republicanos caiu para 72%, mínima histórica na série do Financial Times. Entre esses mesmos eleitores, apenas 53% aprovaram a condução do governo na área de empregos e economia, uma queda de quase oito pontos percentuais em um único mês.

A política tarifária é o epicentro dessa insatisfação. A decisão de impor tarifa de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos canadenses gerou desaprovação de 56% dos eleitores. Mais de 60% dos independentes rejeitaram a medida, e quase um terço dos republicanos também.

O Canadá reagiu com tarifas retaliatórias de até 50% sobre importações americanas, aprofundando a guerra comercial e alimentando temores de preços ainda mais altos. Como explicamos em nossa cobertura sobre os efeitos das tarifas americanas no comércio global, esse tipo de escalada protecionista historicamente pressiona margens corporativas e gera volatilidade nos mercados acionários.

Midterms se transformam em referendo econômico

As eleições de meio de mandato, previstas para novembro, ganharam contornos de referendo sobre a gestão econômica. No cenário de voto genérico para o Congresso, os democratas aparecem com vantagem de 7,5 pontos sobre os republicanos. No mês anterior, a diferença era de cinco pontos. A tendência é de abertura.

Trump optou por se colocar no centro da campanha republicana, com uma convenção inédita de dois dias do Comitê Republicano Nacional prevista para a próxima semana em Dallas. Mas a estratégia pode sair pela culatra. Na pesquisa, 46% dos eleitores disseram que a presença de Trump dificulta a vitória de candidatos republicanos. Entre independentes, 47% afirmaram que um endosso presidencial os tornaria menos propensos a apoiar o candidato endossado.

Para investidores, a composição do Congresso importa. Um Legislativo dividido, com democratas controlando a Câmara, limitaria a agenda de cortes de impostos e desregulamentação que sustenta parte do otimismo do mercado. Historicamente, como mostramos em análises sobre ciclos eleitorais e mercados, a incerteza pré-midterms tende a gerar volatilidade, mas o período pós-eleição costuma trazer alívio independentemente do resultado.

O que a Casa Branca diz e o que os dados mostram

A resposta oficial do governo ao Financial Times foi reiterar o compromisso com cortes de impostos, desregulamentação e expansão energética. A Casa Branca citou o relatório de emprego de agosto como evidência de criação de vagas no setor privado.

Os dados de emprego, de fato, mostraram resiliência. Mas o mercado de trabalho é um indicador defasado. Quando o custo de vida sobe mais rápido do que os salários, a percepção do eleitor se deteriora mesmo com geração de empregos. É exatamente o que os números desta pesquisa capturam: uma desconexão entre indicadores macro e a experiência cotidiana das famílias americanas.

A pesquisa foi realizada online entre 28 de agosto e 1º de setembro, com 1.914 eleitores registrados e margem de erro de 2,6 pontos percentuais. É uma amostra robusta, mas instantânea. Eventos como uma eventual resolução do conflito com o Irã ou uma reversão da política tarifária poderiam alterar rapidamente o humor do eleitorado. Por ora, o cenário aponta para um segundo semestre de turbulência política nos Estados Unidos, com implicações diretas para a política monetária, o dólar e os mercados globais.

Por que isso importa para quem investe no Brasil

Um presidente americano politicamente enfraquecido tem menos margem para aprovar estímulos fiscais, o que reduz a expectativa de crescimento econômico nos EUA. Ao mesmo tempo, a guerra comercial com o Canadá adiciona pressão inflacionária que pode forçar o Federal Reserve a manter juros elevados por mais tempo. Juros altos nos Estados Unidos fortalecem o dólar e reduzem o apetite por ativos de mercados emergentes, incluindo o Brasil.

A combinação de instabilidade política, guerra comercial e custos de energia em alta nos EUA cria um ambiente de cautela para investidores globais. Não é hora de apostar em cenários otimistas sem considerar os riscos. A aprovação de 33% de Trump é um termômetro: quando o eleitor americano sente no bolso, o mercado eventualmente sente no preço.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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