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Google escapa de desmembramento, mas terá regras novas

Justiça dos EUA rejeitou pedido para dividir negócio de publicidade do Google, mas determinou ajustes nas práticas comerciais da big tech.

Google escapa de desmembramento, mas terá regras novas
Foto: Sanket Mishra / Unsplash

Depois de anos de litígio e dois processos antitruste movidos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, o Google conseguiu manter intacto seu império de publicidade digital. A juíza federal Leonie M. Brinkema, do Distrito Leste da Virgínia, decidiu nesta semana que a empresa não precisa vender sua operação de anúncios. Em vez disso, será obrigada a ajustar suas práticas comerciais para favorecer a concorrência.

O desfecho pode parecer uma vitória para a big tech, e é exatamente assim que a empresa está tratando o caso publicamente. Mas a decisão traz implicações mais profundas para o ecossistema de publicidade online e para o futuro da regulação de tecnologia nos Estados Unidos.

Dois processos, um padrão: monopólio sem punição estrutural

O governo americano moveu duas ações separadas contra o Google. A primeira, de 2020, focava no domínio da empresa em buscas. A segunda, de 2023, mirava especificamente o negócio de tecnologia de anúncios. Em ambos os casos, os tribunais concluíram que o Google exerceu poder de monopólio de forma ilegal.

Em 2024, um tribunal determinou que a operação de busca e os anúncios atrelados a ela configuravam monopólio ilegal. O Departamento de Justiça chegou a sugerir que o Google vendesse o navegador Chrome e o sistema operacional Android. O juiz Amit Mehta rejeitou essa proposta em setembro de 2025, permitindo que a empresa mantivesse os dois produtos. Ordenou, porém, que o Google encerrasse contratos de exclusividade para posições padrão em dispositivos e compartilhasse dados de busca com concorrentes.

Agora, o segundo caso seguiu o mesmo roteiro. A juíza Brinkema reconheceu o comportamento ilegal, mas optou por remédios operacionais, não estruturais. Em termos práticos, o Google permanece com todas as suas peças no tabuleiro. Precisa apenas mover algumas de forma diferente.

O que muda na prática para o mercado de publicidade

A decisão ainda não traz detalhes específicos sobre quais mudanças o Google terá de implementar. A íntegra da sentença ficará sob sigilo por 14 dias, período em que as partes poderão fazer redações necessárias. Isso significa que o mercado ainda opera no escuro quanto ao alcance real das novas regras.

O ecossistema de publicidade online é notoriamente opaco. O Google domina praticamente toda a cadeia: desde a ferramenta que publishers usam para vender espaço publicitário até o sistema que anunciantes usam para comprar esse espaço, passando pela plataforma que conecta os dois lados. Essa verticalização foi justamente o centro da acusação do governo.

Para contextualizar a escala: a receita de publicidade do Google superou 237 bilhões de dólares em 2024, segundo dados da Alphabet. É um negócio que representa mais de 75% de toda a receita da companhia. Qualquer ajuste nas regras do jogo, mesmo que não envolva desmembramento, tem potencial de redistribuir bilhões no mercado de ads. Como analisamos em matérias sobre o impacto regulatório sobre big techs, esse tipo de decisão costuma reverberar por todo o setor.

Por que a Justiça americana evita o desmembramento

O padrão que emerge dos dois casos é revelador. Os tribunais estão dispostos a declarar monopólios ilegais, mas recuam quando o assunto é desmontar as empresas. Isso acontece por razões práticas e políticas.

Do lado prático, separar operações integradas como as do Google criaria enormes desafios técnicos e poderia prejudicar pequenos anunciantes que dependem da simplicidade do ecossistema unificado. A própria defesa do Google explorou esse argumento: Lee-Anne Mulholland, vice-presidente de assuntos regulatórios da empresa, declarou que a decisão protege “ferramentas que ajudam pequenos negócios a alcançar novos clientes”.

Do lado político, o governo Trump historicamente sinalizou posições ambíguas sobre regulação de big techs. Embora os processos tenham sido iniciados em administrações anteriores, a disposição para executar remédios agressivos como desmembramentos parece limitada. A tendência que se consolida é a de impor mudanças comportamentais, não estruturais, algo que já observamos em outros casos envolvendo grandes empresas de tecnologia.

Os contratos de exclusividade no centro do problema

Um ponto que conecta os dois processos é a estratégia do Google de firmar acordos exclusivos com fabricantes de dispositivos e operadoras de telefonia. Esses contratos garantiam que o Google fosse o mecanismo de busca padrão em bilhões de celulares ao redor do mundo. Em troca, as operadoras recebiam uma fatia da receita de anúncios.

Esse modelo criou um ciclo virtuoso para o Google e vicioso para a concorrência. Mais dispositivos com Google como padrão significavam mais dados de busca, que alimentavam melhores anúncios, que geravam mais receita, que financiavam contratos de exclusividade ainda maiores. A decisão do juiz Mehta em 2025 já atacou esse ponto ao proibir os acordos de posição padrão exclusiva. A sentença de Brinkema deve seguir na mesma direção, embora os detalhes permaneçam sob sigilo.

Vale notar que o Google está recorrendo das determinações do primeiro caso. O desfecho final pode levar anos, o que significa que as mudanças concretas no mercado de publicidade digital ainda são, por enquanto, mais promessa do que realidade.

O que isso significa para investidores e para o setor

Para quem acompanha o setor de tecnologia, a mensagem é clara: o risco de desmembramento do Google saiu da mesa, ao menos no curto prazo. As ações da Alphabet tendem a responder positivamente a essa redução de incerteza regulatória.

Mas o cenário não é inteiramente confortável para a empresa. As mudanças operacionais, quando detalhadas, podem abrir espaço para concorrentes como The Trade Desk, Microsoft e Amazon ganharem fatia no mercado de ads. Empresas menores de ad-tech também podem se beneficiar se o Google for obrigado a abrir partes de sua infraestrutura.

Para o mercado brasileiro, onde o Google responde por mais de 90% das buscas segundo dados do StatCounter, o impacto pode ser indireto, mas significativo. Mudanças na política de dados e de exclusividade nos EUA costumam ser replicadas globalmente. Como já exploramos em análises sobre o impacto de regulações internacionais nos mercados emergentes, decisões tomadas em tribunais americanos frequentemente redesenham o cenário competitivo no mundo inteiro.

O resumo: o Google manteve a estrutura, mas perdeu a narrativa de que não há problema. Dois tribunais distintos declararam que a empresa agiu ilegalmente. O que resta saber é se os remédios impostos terão dentes afiados o suficiente para mudar a dinâmica de um mercado de 600 bilhões de dólares anuais.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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