Stablecoin de 21 bancos globais desafia Tether e Circle
Consórcio bancário com nomes como Santander e BBVA planeja stablecoin de dólar para 2027 e mira expansão para moedas do G7. Ações da Circle caem quase 7%.
O mercado de stablecoins acaba de ganhar um novo capítulo que pode redesenhar a dinâmica de poder no setor. Um consórcio formado por 21 instituições financeiras globais, incluindo Bank of America, Citi, Fidelity, Wells Fargo, Santander e BBVA, anunciou a criação de uma empresa dedicada à emissão de stablecoins. A nova entidade deve ser formalmente constituída no segundo semestre de 2026, com o lançamento da primeira moeda previsto para o primeiro semestre de 2027.
A reação do mercado foi imediata. As ações da Circle, emissora da USDC, segunda maior stablecoin do mundo, recuaram 6,7% no pregão de terça-feira. Não é a primeira vez que a empresa sofre com esse tipo de notícia. A cotação já havia sido pressionada após o anúncio da OpenUSD, outro consórcio que reúne 140 empresas.
O recado é claro: os bancos tradicionais não pretendem mais assistir de fora enquanto empresas nativas de cripto capturam trilhões de dólares em fluxos de pagamento e liquidação.
O que se sabe sobre a stablecoin dos bancos
O plano inicial prevê uma stablecoin lastreada em dólar americano, escolha que reflete a dominância da moeda no mercado atual. Segundo dados de mercado, mais de 95% do volume de stablecoins em circulação está denominado em dólar. A Tether (USDT) sozinha responde por cerca de US$ 140 bilhões em capitalização.
A ambição, contudo, vai além. O consórcio sinalizou a intenção de expandir para outras moedas do G7, com o euro como segunda prioridade. Na sequência, viriam stablecoins atreladas à libra esterlina, ao iene japonês e ao dólar canadense. Se concretizado, será o primeiro projeto institucional a oferecer um portfólio multimoeda de stablecoins sob uma mesma estrutura corporativa.
A composição geográfica do grupo reforça essa vocação global: 10 instituições da América do Norte, 8 da Europa, uma da Ásia Oriental, uma do Oriente Médio e uma da África. A diversidade de jurisdições sugere que a empresa já nasce pensando em conformidade regulatória em múltiplos mercados.
Genius Act e MiCA: a regulação como catalisador
O movimento não acontece no vácuo. Os dois principais marcos regulatórios do mundo para stablecoins estão em estágio avançado. Nos Estados Unidos, o Genius Act estabelece requisitos de reserva, auditoria e supervisão para emissores de stablecoins. Na União Europeia, o MiCA (Markets in Crypto-Assets Regulation) já entrou em vigor com regras específicas para tokens referenciados a ativos.
O consórcio deixou explícito que pretende operar em conformidade com ambas as legislações. Essa postura é significativa. Durante anos, a Tether enfrentou questionamentos sobre a composição de suas reservas e resistiu a auditorias completas. A Circle, embora mais transparente, ainda opera sob um quadro regulatório em construção.
Para os bancos, a clareza regulatória representa uma vantagem competitiva natural. Eles já operam sob supervisão rigorosa de bancos centrais, possuem estruturas de compliance consolidadas e têm acesso direto aos mercados de títulos soberanos que servem como lastro. Como analisamos em matérias anteriores sobre os avanços regulatórios nos EUA, o ambiente normativo favorece cada vez mais players institucionais.
O que muda para Tether e Circle
A entrada de 21 bancos no mercado de stablecoins cria uma pressão competitiva em duas frentes. A primeira é distribuição. Essas instituições, combinadas, atendem centenas de milhões de clientes corporativos e de varejo. Uma stablecoin emitida por elas nasce com acesso instantâneo a redes de pagamento, câmaras de compensação e relações bancárias que Tether e Circle levaram anos para construir parcialmente.
A segunda frente é credibilidade institucional. Para tesourarias corporativas, fundos de investimento e gestores de patrimônio, utilizar uma stablecoin emitida por um consórcio que inclui Bank of America e Fidelity elimina boa parte do risco reputacional associado ao uso de criptoativos.
Isso não significa que Tether e Circle desaparecerão. A USDT tem penetração profunda em mercados emergentes, especialmente em regiões com restrições cambiais, onde funciona como substituto informal do dólar. A USDC consolidou presença no ecossistema DeFi. Mas o espaço de crescimento mais lucrativo, o de liquidação institucional e pagamentos corporativos, pode ser capturado pelos bancos.
Por que isso importa para o investidor brasileiro
O Brasil é um dos maiores mercados de stablecoins do mundo em termos de volume transacionado. Dados do Banco Central mostram que a maior parte dos fluxos cripto que entram e saem do país envolve stablecoins de dólar, frequentemente usadas para remessas, proteção cambial e operações de comércio exterior.
A presença do Santander e do BBVA no consórcio é particularmente relevante. Ambos têm operações significativas na América Latina. Se a stablecoin do grupo for integrada às plataformas desses bancos na região, o acesso a dólares digitais pode se tornar significativamente mais simples para empresas e pessoas físicas no Brasil. Esse cenário se conecta diretamente com a discussão sobre tokenização e o papel do Drex no sistema financeiro brasileiro.
Há também uma questão concorrencial. Se bancos globais emitirem stablecoins eficientes e reguladas, a pressão sobre o Banco Central para acelerar o Drex e torná-lo interoperável com essas redes aumenta consideravelmente.
O tabuleiro das stablecoins está sendo redesenhado
Em menos de um ano, o mercado de stablecoins passou de um duopólio Tether-Circle para um ambiente com pelo menos três grandes blocos competitivos. A OpenUSD, com 140 empresas associadas, ataca pela escala. O consórcio dos 21 bancos ataca pela legitimidade institucional e alcance regulatório. Tether e Circle defendem participação com liquidez, efeito de rede e presença nativa em cripto.
Curiosamente, o BBVA é o único nome presente tanto no consórcio bancário quanto na OpenUSD, posicionando-se como um ator que não quer escolher um lado só.
O fato concreto é que a disputa pelo mercado de stablecoins se tornou uma corrida entre o sistema financeiro tradicional e as empresas nativas de cripto. Quem vencer define, em grande medida, os trilhos pelos quais o dinheiro digital vai circular nas próximas décadas. Para o investidor e o usuário final, mais competição tende a significar menores custos, maior transparência e produtos mais robustos. A era em que stablecoins eram assunto exclusivo de criptoentusiastas ficou definitivamente para trás.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
