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IPO da Shein e PMI da China: o que muda para mercados

Shein estreia em Hong Kong avaliada em US$ 26 bilhões enquanto PMI chinês sobe, mas segue em contração. Veja o que os dados revelam sobre a economia asiática.

IPO da Shein e PMI da China: o que muda para mercados
Foto: Jay Ngai / Unsplash

O pregão asiático desta segunda-feira entregou um retrato fiel das contradições que marcam a economia chinesa neste momento. De um lado, a Shein se prepara para estrear na bolsa de Hong Kong após captar US$ 1,7 bilhão em seu IPO, com valuation de US$ 26 bilhões. Do outro, o PMI industrial chinês subiu para 49,8 em agosto, acima do esperado, mas ainda abaixo da linha de 50 que separa expansão de contração. A mensagem é clara: há dinheiro circulando, mas a economia real ainda patina.

Para quem acompanha mercados globais e tenta entender como a dinâmica asiática afeta portfólios deste lado do mundo, o dia trouxe sinais que merecem leitura mais cuidadosa do que as manchetes sugerem.

O que o IPO da Shein revela sobre o apetite por risco em Hong Kong

A captação de US$ 1,7 bilhão pela Shein não é apenas uma história sobre moda rápida e blusinhas baratas. O número coloca a empresa entre os maiores IPOs do ano e consolida Hong Kong como a praça mais ativa do mundo para novas listagens em 2025. Segundo dados compilados pela Bloomberg, a cidade já ultrapassou Nova York em volume de ofertas públicas iniciais neste ciclo.

O valuation de US$ 26 bilhões, no entanto, representa uma queda expressiva em relação aos US$ 66 bilhões que a empresa chegou a valer em rodadas privadas anteriores. Essa diferença reflete tanto o ambiente regulatório mais rígido para empresas chinesas listadas no exterior quanto a compressão de múltiplos que atingiu o setor de e-commerce global nos últimos dois anos. Como analisamos em matérias sobre o cenário de mercados internacionais, o desconto entre valuation privado e público tem sido recorrente.

Mais relevante que o caso individual da Shein é o pipeline. Duas outras empresas de tecnologia chinesas, a Shenzhen Longsys Electronics e a Excelland Robotics, protocolaram documentos para captar juntas cerca de US$ 900 milhões em Hong Kong no mesmo dia. A fila de listagens sinaliza que o mercado de capitais chinês está encontrando na ex-colônia britânica uma rota de acesso ao capital internacional que Xangai e Shenzhen não oferecem com a mesma flexibilidade.

PMI industrial sobe, mas a contração persiste

O PMI oficial da indústria chinesa avançou para 49,8 em agosto, ligeiramente acima da expectativa de 49,6 dos economistas consultados. É uma melhora marginal, mas o número ainda está abaixo de 50, o que significa que a atividade manufatureira segue se contraindo.

Para contextualizar: a China acumula meses consecutivos com o indicador oscilando em torno da neutralidade, sem conseguir sustentar uma retomada consistente. Os estímulos do governo, que incluem cortes de juros e incentivos ao consumo, têm produzido efeito limitado sobre a confiança do setor produtivo. A demanda interna continua fraca, e o excesso de capacidade em setores como aço e veículos elétricos pressiona margens.

No mercado acionário, a reação foi dividida. O Xangai Composto subiu 0,86%, para 3.986 pontos, enquanto o Shenzhen Composto avançou 0,6%. O Nikkei japonês recuou 0,1% e o Hang Seng fechou praticamente estável, com queda de 0,07%. O Kospi sul-coreano foi destaque positivo, com alta de 0,46%, puxado pelas fabricantes de semicondutores Samsung Electronics e SK Hynix, que subiram 1,2% e 1,3%, respectivamente.

BYD cai 5,2% mesmo com lucro em recuperação

Um dos movimentos mais reveladores do dia foi a queda de 5,2% das ações da BYD em Hong Kong. A montadora chinesa de veículos elétricos reportou recuperação no lucro do segundo trimestre, mas o mercado não comprou a tese. O motivo está nos detalhes: as operações domésticas da BYD continuam enfrentando a guerra de preços que tomou conta do mercado chinês de EVs, com margens sob pressão constante.

A compensação tem vindo de fora. A BYD vem expandindo agressivamente sua presença internacional, e o Brasil é um exemplo concreto disso. A fábrica de Campinas, em São Paulo, atingiu a marca de mil unidades de chassis de ônibus elétricos produzidos, um marco histórico que posiciona a empresa como player relevante no transporte público eletrificado da América Latina. Como abordamos na nossa cobertura sobre o mercado de veículos elétricos, a estratégia de internacionalização da BYD é uma resposta direta à saturação do mercado doméstico.

A queda das ações mesmo diante de resultados melhores ilustra um padrão recorrente em mercados asiáticos: quando a expectativa está embutida no preço, o resultado precisa surpreender significativamente para gerar alta. E a BYD, apesar dos avanços internacionais, ainda não convenceu que pode manter crescimento de lucro sem depender do mercado chinês.

O que isso significa para quem investe daqui

Para investidores brasileiros, três leituras importam. Primeiro, o fluxo de IPOs em Hong Kong indica que o capital global ainda vê oportunidade na Ásia, apesar das tensões geopolíticas. A escalada bélica no Oriente Médio, que pesou sobre o sentimento de risco durante o pregão, não foi suficiente para frear o apetite por novas listagens.

Segundo, o PMI chinês abaixo de 50 é um alerta para quem tem exposição a commodities. A China é o maior consumidor mundial de minério de ferro, cobre e soja. Uma economia manufatureira que não consegue sair da contração significa demanda mais fraca por insumos, o que pode pressionar os preços das commodities que sustentam boa parte das exportações brasileiras. Quem acompanha a relação entre dados chineses e ativos brasileiros sabe que esse é um canal de transmissão direto.

Terceiro, a performance das empresas de semicondutores na Coreia do Sul reforça uma tendência que se mantém firme em 2025: o setor de chips segue como um dos mais resilientes da Ásia, beneficiado pela demanda global por infraestrutura de inteligência artificial. Samsung e SK Hynix subiram enquanto quase tudo ao redor ficou de lado.

A semana promete mais volatilidade com dados econômicos nos Estados Unidos no radar. O comportamento dos mercados asiáticos nesta segunda-feira sugere que investidores estão em modo de espera, posicionando-se de forma tática enquanto aguardam sinais mais claros sobre a direção da política monetária americana e a saúde real da economia chinesa.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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