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Votorantim troca Nexa por fatia de US$ 1,3 bi na Boliden

Grupo brasileiro troca participação de 64,7% na mineradora Nexa por 7% da sueca Boliden em operação que avalia a empresa em US$ 2 bilhões.

Votorantim troca Nexa por fatia de US$ 1,3 bi na Boliden
Foto: Gansham Ramchandani / Unsplash

Depois de seis anos de negociações, a Votorantim finalmente encontrou destino para sua participação na Nexa Resources, produtora de zinco, cobre e chumbo com operações no Brasil e no Peru. O comprador é a sueca Boliden, uma das maiores mineradoras e metalúrgicas da Europa, avaliada em cerca de US$ 17 bilhões na Bolsa de Estocolmo.

A transação não envolve dinheiro. A Votorantim entrega seus 64,7% na Nexa e, em troca, recebe ações suficientes para se tornar a maior acionista individual da Boliden, com 7% do capital e um assento no conselho de administração. A Nexa foi avaliada em US$ 2 bilhões no deal, o que precifica a fatia da Votorantim em US$ 1,3 bilhão.

Como funciona a troca de ações entre Votorantim e Boliden

A mecânica é direta: cada ação da Nexa será convertida em 0,25 ação da Boliden. O papel da Nexa foi precificado em US$ 15,29, o que representa um prêmio de 14,2% sobre o preço médio ponderado pelo volume dos últimos 20 pregões antes de 1º de julho, quando surgiram os primeiros vazamentos sobre a negociação. Considerando o preço médio de 20 dias até 26 de agosto, o prêmio cai para 6,5%.

A ação da Nexa na NYSE acumula alta de 77% no ano e quase 230% em 12 meses. Boa parte dessa valorização, segundo fontes próximas à empresa, se deve justamente aos boatos persistentes sobre a venda da companhia, e não necessariamente a uma melhora operacional proporcional.

O fechamento da operação está previsto para o primeiro trimestre de 2027. Após a conclusão, a Boliden fará uma oferta em dinheiro pelos papéis dos minoritários da Nexa, que detêm os 35% restantes do capital.

O que a Votorantim ganha ao sair da Nexa

A lógica estratégica da Votorantim é trocar controle direto de uma mineradora latino-americana com resultados abaixo do esperado por uma posição relevante numa companhia europeia maior, mais diversificada e considerada referência global em eficiência na produção de zinco.

A Boliden opera 12 unidades de mineração e 8 fundições concentradas na Europa. Com a incorporação da Nexa, passa a ter presença na América Latina, ganhando diversificação geográfica num momento em que conflitos geopolíticos e barreiras comerciais tornam a concentração regional um risco operacional crescente.

Para a Votorantim, a conta é simples: manter uma mineradora com performance aquém do benchmark global consumia capital e atenção de gestão. Virar acionista minoritário de uma empresa que é o próprio benchmark libera recursos para outras frentes do conglomerado, como cimento, energia e finanças, áreas onde o grupo tem investido com mais intensidade nos últimos anos.

Por que a Boliden quer a Nexa agora

Do lado sueco, a motivação é geopolítica tanto quanto operacional. A concentração de ativos na Europa, que por décadas foi sinônimo de estabilidade regulatória e acesso a mercados desenvolvidos, virou um ponto de vulnerabilidade. As tensões comerciais entre blocos econômicos e a reorganização das cadeias de suprimento globais tornaram a diversificação geográfica uma prioridade estratégica para grandes mineradoras.

A Nexa traz para a Boliden operações no Brasil e no Peru, dois dos maiores produtores de zinco e cobre do mundo. São jurisdições com marcos regulatórios conhecidos pelo setor de mineração e com acesso a reservas de longo prazo.

Além disso, a Boliden é reconhecida como benchmark em eficiência na produção de zinco. A expectativa é que sua expertise operacional possa melhorar os resultados da Nexa, que vinham decepcionando sob a gestão da Votorantim. Se a tese se confirmar, a Boliden paga por uma empresa subotimizada e captura valor ao aplicar seus próprios padrões operacionais.

O que muda para o investidor da Nexa na NYSE

Para os minoritários da Nexa listada em Nova York, a transação tem implicações claras. Após o fechamento, a Boliden fará uma oferta em dinheiro por suas ações. O preço ainda não foi divulgado, mas o prêmio embutido na troca com a Votorantim sugere que a oferta deverá ser próxima dos US$ 15,29 por ação, ou ao preço de mercado à época.

Vale notar que a alta de 230% em 12 meses dos papéis da Nexa já precificou boa parte do evento. Quem comprou nos últimos meses apostando na concretização do deal capturou o grosso do movimento. A questão agora é se o prêmio oferecido aos minoritários será suficiente ou se haverá pressão por um valor maior, algo comum em transações desse tipo no mercado americano.

Essa operação se insere num movimento mais amplo de reorganização de grandes conglomerados brasileiros, que têm buscado simplificar suas estruturas e migrar para posições de acionistas estratégicos em vez de operadores diretos. A Votorantim, especificamente, já havia sinalizado essa direção ao reduzir exposição a setores cíclicos de commodities.

O cenário mais amplo de fusões no setor de mineração

O deal Nexa-Boliden não acontece no vácuo. O setor global de mineração vive uma onda de consolidação impulsionada por três fatores simultâneos: a transição energética, que eleva a demanda por metais como cobre e zinco; a fragmentação geopolítica, que força diversificação de fornecedores; e a pressão por escala e eficiência operacional num ambiente de custos crescentes.

Grandes mineradoras europeias, em particular, estão ampliando presença na América Latina e na África para reduzir dependência de cadeias de suprimento concentradas. A Boliden segue um caminho semelhante ao de pares como a Glencore e a Trafigura, que intensificaram aquisições fora da Europa nos últimos dois anos.

Para o Brasil, a transação reforça o país como destino de capital estrangeiro no setor mineral, mas também levanta a questão recorrente sobre a transferência de controle de ativos estratégicos para grupos internacionais. A Votorantim argumenta que a posição de maior acionista da Boliden preserva a influência brasileira sobre os ativos, mas o controle operacional, na prática, será sueco.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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