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Walmart aceita Apple Pay após anos de resistência

Maior varejista do mundo desiste de empurrar sistema de pagamento próprio e adota Apple Pay e Google Pay. Entenda o que essa capitulação significa.

Walmart aceita Apple Pay após anos de resistência
Foto: Tom Tillhub / Unsplash

Durante quase uma década, o Walmart foi o maior símbolo de resistência corporativa ao Apple Pay e ao Google Pay. A maior rede varejista do planeta apostou que seu tamanho seria suficiente para forçar consumidores a usar o Walmart Pay, solução proprietária criada justamente para evitar a dependência de Apple e Google. Na sexta-feira, a empresa anunciou que vai aceitar pagamentos por aproximação via Apple Pay e Google Pay em todas as suas lojas e unidades do Sam’s Club. A decisão equivale a uma capitulação estratégica com implicações que vão além do caixa do supermercado.

A implementação começa em 24 de agosto em unidades selecionadas. A expectativa é cobrir toda a rede até o fim do ano. Postos de combustível da marca devem receber a funcionalidade até meados de 2027.

Por que o Walmart resistiu tanto ao Apple Pay

A história dessa resistência remonta a 2014, quando a Apple lançou o Apple Pay. Naquele momento, o Walmart se juntou a outros grandes varejistas para criar o CurrentC, um sistema de pagamento móvel concorrente. A ideia era simples: se as maiores redes varejistas dos Estados Unidos adotassem um padrão próprio, poderiam evitar as taxas cobradas por intermediários como Apple e Google, além de manter controle total sobre os dados de compra dos consumidores.

O CurrentC fracassou e foi encerrado em 2016. Ainda assim, o Walmart manteve a posição. Enquanto isso, promoveu o Walmart Pay e o sistema Scan-and-Go como alternativas internas. A lógica era compreensível do ponto de vista de negócios: cada transação feita fora do ecossistema Walmart significava taxas adicionais e perda de dados valiosos sobre comportamento de compra. Como discutimos em análises sobre o setor de tecnologia, grandes corporações frequentemente tentam verticalizar serviços financeiros para capturar mais valor da cadeia.

O problema é que o consumidor não comprou essa ideia.

O Apple Pay já domina 85% do varejo americano

Hoje, o Apple Pay é aceito em 85% dos varejistas nos Estados Unidos. O Google Pay tem penetração similar. A decisão do Walmart não acontece no vácuo: acontece porque a empresa percebeu que estava prejudicando seus próprios clientes ao insistir em uma estratégia que o mercado já havia rejeitado.

Pagamentos por aproximação deixaram de ser novidade. Nos Estados Unidos, a adoção de carteiras digitais cresceu consistentemente desde a pandemia. De acordo com dados da Juniper Research, o volume global de transações por carteiras digitais deve superar US$ 16 trilhões em 2028. Quem não aceita tap to pay perde vendas. É tão simples quanto isso.

Para o consumidor médio do Walmart, a frustração era real. Fóruns e redes sociais acumularam anos de reclamações de clientes que não entendiam por que a maior loja do país não aceitava a mesma tecnologia disponível em cafeterias de bairro. A empresa tentou enquadrar a mudança como “mais opções de pagamento”. Na prática, é o reconhecimento tardio de que o cliente, não o varejista, define como quer pagar.

O que a capitulação do Walmart revela sobre pagamentos digitais

A rendição do Walmart confirma uma tendência que o mercado de finanças e pagamentos já observava: plataformas de pagamento vencem pela conveniência, não pela imposição. A Apple construiu um ecossistema em que centenas de milhões de iPhones já têm o Apple Pay configurado. Competir com isso exige oferecer algo significativamente melhor, não apenas diferente.

O caso também ilustra os limites do poder de barganha no varejo. O Walmart é a maior empresa do mundo em receita, com faturamento superior a US$ 640 bilhões anuais. Se nem esse volume foi suficiente para sustentar uma alternativa proprietária, dificilmente outro varejista conseguirá fazer o mesmo.

Para Apple e Google, a entrada do Walmart representa a queda do último grande bastião de resistência no varejo americano. A Apple, em particular, vinha sofrendo pressão regulatória na Europa para abrir o chip NFC do iPhone a competidores. Ter o Walmart como parceiro reforça a narrativa de que o Apple Pay é infraestrutura, não produto opcional.

Lições para o mercado brasileiro de pagamentos

No Brasil, o cenário de pagamentos digitais seguiu caminho diferente. O Pix, lançado pelo Banco Central em 2020, tornou-se o método dominante de pagamento instantâneo, com mais de 200 milhões de chaves cadastradas. Apple Pay e Google Pay operam no país, mas disputam espaço com uma infraestrutura pública que já resolve grande parte da demanda por conveniência.

Ainda assim, a lição do Walmart é universal. Como abordamos em coberturas sobre transformação digital no varejo, tentar forçar o consumidor a adotar um sistema inferior por interesse corporativo raramente funciona no longo prazo. O Pix venceu justamente porque era mais conveniente do que as alternativas existentes, não porque foi imposto.

Para fintechs e varejistas brasileiros, a mensagem é clara: a experiência de pagamento precisa ser invisível. Qualquer fricção no checkout é uma oportunidade perdida. O Walmart levou quase dez anos para aprender essa lição. Custou participação de mercado, satisfação do cliente e credibilidade tecnológica. Agora, tenta recuperar o terreno perdido integrando o que deveria ter aceito desde o início.

A questão que resta é quanto esse atraso custou em vendas. E essa conta, a empresa provavelmente nunca vai divulgar.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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