Finanças

Treasuries disparam e Irã eleva risco: o impacto no Brasil

Juros longos dos EUA voltam a subir com força enquanto Trump amplia cerco ao Irã. O combo pressiona emergentes e acende alerta para quem investe no Brasil.

Treasuries disparam e Irã eleva risco: o impacto no Brasil
Foto: https://kaboompics.com/ / Unsplash

O investidor brasileiro acordou nesta quinta-feira com dois vetores de pressão simultâneos e nenhum deles tem origem doméstica. Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de 30 anos voltaram a superar os 5,2%, enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um endurecimento econômico contra o Irã que elevou o barril de petróleo a US$ 94. O resultado imediato: futuros do Ibovespa em queda e dólar de volta à casa dos R$ 5,19.

Isoladamente, cada um desses eventos já seria suficiente para redesenhar o humor dos mercados emergentes. Juntos, criam um ambiente em que o custo de oportunidade de investir fora dos EUA aumenta e o prêmio de risco exigido por ativos brasileiros sobe na mesma proporção.

Por que os Treasuries voltaram a subir mesmo após recompra do Tesouro

Na véspera, o Departamento do Tesouro americano anunciou uma operação ampliada de recompra de títulos longos, dobrando o tamanho das operações para papéis de 10 a 30 anos. A ideia era aliviar a pressão sobre os juros de longo prazo, que vêm subindo de forma consistente desde o início do ano.

O alívio durou menos de 24 horas. Nesta manhã, o yield do Treasury de 10 anos já operava em 4,708%, ante 4,653% do ajuste anterior. O de 30 anos saltou para 5,26%, contra 5,194% no fechamento de ontem. O banco holandês ING classificou a operação de recompra como “um jogo de soma zero”, argumentando que a recompra de títulos longos implica, necessariamente, maior emissão de dívida de curto prazo.

Em termos práticos, o Tesouro americano não está reduzindo o estoque de dívida. Está apenas redistribuindo vencimentos. E o mercado entendeu a mensagem: a trajetória de juros longos nos EUA segue sendo um problema estrutural, não conjuntural.

Trump amplia cerco ao Irã e petróleo salta para US$ 94

O segundo vetor de pressão veio da geopolítica. Trump publicou na rede social Truth Social uma ameaça direta a qualquer país que mantenha relações comerciais com o Irã, prometendo “consequências econômicas tremendas” para instituições financeiras, empresas e governos que ofereçam “qualquer tipo de apoio vital” ao regime iraniano.

A reação nos mercados de commodities foi imediata. O barril de petróleo atingiu US$ 94, maior nível em cerca de um mês. Para o Brasil, que é exportador líquido de petróleo, o movimento tem efeitos ambíguos. Por um lado, melhora a receita da Petrobras e de empresas do setor. Por outro, alimenta pressões inflacionárias domésticas via combustíveis e dificulta o trabalho do Banco Central no ciclo de política monetária.

Historicamente, choques de petróleo acima de US$ 90 o barril tendem a se transmitir para a inflação brasileira com defasagem de dois a três meses, segundo estudos do próprio BC. Se o patamar se sustentar, o cenário de cortes na Selic no segundo semestre fica mais apertado.

O efeito combinado sobre o mercado brasileiro

Com os futuros de Wall Street operando em queda generalizada nesta manhã (S&P 500 recuando 0,31%, Dow Jones caindo 0,50% e Nasdaq perdendo 0,52%), o Ibovespa futuro abriu em baixa de 0,13%, aos 170.970 pontos. O dólar à vista subiu 0,23%, negociado a R$ 5,1884.

O que preocupa não é a magnitude do movimento, mas a direção. Treasuries acima de 5% funcionam como um aspirador de liquidez global. Quando o ativo mais seguro do mundo paga mais de 5% ao ano em termos nominais, o investidor estrangeiro precisa de motivos muito fortes para alocar capital em mercados emergentes. E o Brasil, mesmo com fundamentos fiscais razoáveis, compete diretamente por esse capital.

Vale lembrar que, como analisamos recentemente sobre fluxos globais, o diferencial de juros reais entre Brasil e EUA vem se comprimindo ao longo do ano. Cada ponto-base que o Treasury sobe torna a taxa brasileira relativamente menos atraente.

Agenda doméstica adiciona ruído fiscal

No front interno, dois temas ampliam a incerteza. A chamada “taxa das blusinhas”, cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, está suspensa por medida provisória publicada em 13 de maio e precisa ser aprovada pelo Congresso até 8 de setembro, pouco antes do primeiro turno das eleições. A proximidade do calendário eleitoral torna a aprovação politicamente sensível.

Além disso, o governo projeta aumento de 7,7% nas despesas obrigatórias com benefícios previdenciários em 2027, segundo estimativa que constará no Projeto de Lei Orçamentária Anual a ser enviado ao Congresso no dia 31 deste mês. Em um momento em que o mercado global exige disciplina fiscal, o número reforça a percepção de rigidez orçamentária brasileira.

O que observar nos próximos dias

Para o investidor, o cenário exige atenção a três variáveis. Primeira: a sustentabilidade do petróleo acima de US$ 90. Se Trump escalar as tensões com o Irã para além da retórica, o barril pode buscar US$ 100, com implicações diretas para inflação global. Segunda: o comportamento dos Treasuries de 30 anos. O patamar de 5,25% é um nível técnico relevante que, se rompido com consistência, pode desencadear uma rodada de reprecificação em ativos de risco globais.

Terceira e mais sutil: a reação do Banco Central brasileiro. O Copom está em período de silêncio antes da próxima reunião, mas as expectativas de inflação implícitas nos títulos públicos brasileiros já começam a refletir o novo cenário de commodities. Se os juros longos americanos permanecerem nesse patamar e o petróleo não recuar, o espaço para flexibilização monetária no Brasil diminui concretamente.

O combo de juros americanos altos, tensão geopolítica e ruído fiscal doméstico não é inédito, mas a simultaneidade dos três fatores é o que torna o momento especialmente delicado para a alocação de portfólio.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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