Criptomoedas

Citi tira o real do carry trade: o que muda para quem investe

O Citi trocou o real pelo rand sul-africano em sua cesta de carry trade de emergentes. O motivo: o risco eleitoral brasileiro já começa a pesar nos ativos.

Citi tira o real do carry trade: o que muda para quem investe
Foto: Daniel Dan / Unsplash

O Citibank decidiu retirar o real brasileiro de sua cesta de carry trade em mercados emergentes. A posição comprada na moeda brasileira, mantida desde meados de julho, foi encerrada e substituída pelo rand sul-africano. O motivo é direto: o banco avalia como provável a reeleição de Lula nas eleições de outubro, e o cenário político já começa a pesar na equação risco-retorno dos ativos brasileiros.

A decisão é relevante porque o carry trade é uma das principais estratégias que atraem capital estrangeiro para o Brasil. Quando um banco global desse porte sinaliza que o prêmio oferecido pelo juro brasileiro não compensa mais o risco político, o recado ao mercado é claro: o ciclo de cautela com o país já começou.

O que é carry trade e por que o real era atrativo

O carry trade é uma operação em que o investidor toma dinheiro emprestado em uma moeda com juros baixos e aplica em outra com juros altos, embolsando a diferença. Com a Selic ainda em patamar elevado, o Brasil era um destino natural para esse tipo de fluxo. A taxa brasileira, muito acima das praticadas em economias desenvolvidas, criava um diferencial de juro que remunerava bem o risco cambial.

O problema é que carry trade funciona enquanto a moeda receptora se mantém estável ou se valoriza. No momento em que o mercado passa a precificar instabilidade, a conta muda. O diferencial de juros precisa ser alto o suficiente para compensar uma eventual desvalorização do câmbio. E, na visão do Citi, as eleições de outubro começam a desequilibrar essa balança.

O peso das eleições na decisão do Citi

Os analistas do banco, liderados por Dirk Willer, apontam que os mercados preditivos atribuem 67% de probabilidade de vitória a Lula, contra 27% para Flávio Bolsonaro. Um segundo turno é tratado como praticamente certo, já que nenhum candidato ultrapassa 50% nas pesquisas de primeiro turno.

A equipe espera que um prêmio de risco moderado seja incorporado aos ativos brasileiros nos dias que antecedem o primeiro turno. Esse prêmio se traduz em câmbio mais volátil, curva de juros mais inclinada e spreads de crédito soberano mais abertos. Para uma estratégia que depende de estabilidade cambial, como o carry trade, esse cenário é tóxico.

O banco também informou que vai aguardar para assumir posições nos contratos de Depósito Interfinanceiro, os DIs, que refletem as expectativas do mercado para a trajetória da Selic. A ideia é esperar o cenário eleitoral se definir melhor antes de apostar na direção dos juros brasileiros. É uma postura típica de gestão de risco em ano eleitoral: reduzir exposição e esperar o evento passar.

CDS como proteção tática e o que isso sinaliza

Para investidores com horizonte mais curto, o Citi considera que comprar proteção via CDS (Credit Default Swap) pode ser um trade tático interessante. O CDS é um derivativo que funciona como um seguro contra calote soberano. Quando seu spread aumenta, significa que o mercado está pedindo mais para se proteger contra o risco de crédito do país.

O banco alerta, porém, que qualquer abertura dos spreads tende a ser rapidamente revertida após a eleição. Isso sugere que o Citi não vê risco estrutural para o Brasil, mas sim um evento de volatilidade pontual. É a diferença entre um problema de fundamento e um problema de percepção. O spread de CDS do Brasil historicamente se comporta assim em ciclos eleitorais: abre antes, fecha depois.

Em 2022, por exemplo, o CDS de cinco anos do Brasil chegou a ultrapassar 300 pontos-base meses antes do pleito e recuou nos meses seguintes, independentemente do resultado. O padrão tende a se repetir, segundo a análise do banco.

O que muda para o investidor brasileiro

A saída do real da cesta de carry trade do Citi não é, isoladamente, um evento que derruba o câmbio. Mas é um indicador antecedente. Quando grandes bancos globais reduzem exposição ao Brasil, outros investidores institucionais tendem a seguir a mesma lógica. O fluxo de portfólio para o país pode diminuir nos próximos meses, pressionando o real.

Para quem tem investimentos atrelados ao dólar ou exposição internacional, o movimento reforça a tese de manter essa posição como hedge. Para quem está concentrado em renda fixa prefixada ou atrelada à inflação, a mensagem é de cautela com duration: títulos mais longos tendem a sofrer mais em períodos de incerteza eleitoral.

A troca pelo rand sul-africano também é simbólica. A África do Sul tem seus próprios problemas fiscais e políticos, mas neste momento específico o Citi avalia que o prêmio de risco sul-africano está mais bem precificado do que o brasileiro. Isso significa que, na margem, o mercado global está vendo o Brasil como relativamente mais arriscado do que um país com desafios igualmente complexos.

O cenário macro por trás da decisão

Além do fator eleitoral, o contexto fiscal brasileiro continua sendo uma variável observada de perto por investidores globais. A trajetória da dívida pública, a dinâmica dos gastos obrigatórios e a credibilidade do arcabouço fiscal são elementos que, combinados com a incerteza eleitoral, amplificam a percepção de risco.

A decisão do Citi é, no fundo, uma gestão pragmática de portfólio. O banco não está fazendo uma previsão apocalíptica sobre o Brasil. Está dizendo que, dado o nível atual de incerteza, existem oportunidades com melhor relação risco-retorno em outros emergentes. Para o investidor brasileiro, a lição é a mesma de sempre em ano de eleição: diversificação e proteção cambial não são luxo, são necessidade.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Compartilhar
Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
Continue scrollando para a próxima matéria…