Economia dos EUA sob Trump: por que 53% se sentem piores
Pesquisa do Financial Times revela que maioria dos eleitores americanos vê piora financeira desde a volta de Trump, com inflação a 3,4% e desgaste até entre republicanos.
Quando Donald Trump venceu a eleição de 2024, o argumento central era simples: a economia voltaria aos trilhos. Um ano e meio depois, a maioria dos americanos discorda. Segundo levantamento do Financial Times, realizado pela Focaldata, 53% dos eleitores registrados afirmam que sua situação financeira piorou desde janeiro de 2025.
O número é relevante não apenas como termômetro político, mas como indicador de confiança do consumidor. Nos Estados Unidos, percepção econômica e consumo andam juntos. Quando a maioria da população sente que está pior, o comportamento de gasto muda, e os reflexos aparecem em mercados do mundo inteiro.
A inflação que não cede e o desgaste entre a própria base
O calcanhar de aquiles do governo continua sendo o custo de vida. Em julho de 2026, a inflação americana ficou em 3,4%, patamar superior ao registrado no fim da gestão Biden. Não por acaso, 64% dos eleitores desaprovam a atuação de Trump no combate à alta de preços. Dentro desse grupo, cerca de um terço se identifica como republicano.
A gasolina ajuda a explicar parte do problema. A guerra no Irã pressionou os preços de combustíveis e de bens de consumo, corroendo o poder de compra das famílias americanas de forma mais ampla do que os indicadores agregados sugerem. Para o eleitor médio, o que importa é o preço no posto e no supermercado, não a meta do Federal Reserve.
O desgaste entre independentes é ainda mais pronunciado. Entre eleitores sem filiação partidária, 57% dizem estar em situação financeira pior. Mais de dois terços avaliam que o país segue na direção errada. Para quem acompanha o cenário macroeconômico global, esse dado importa: independentes são o grupo decisivo nas eleições de meio de mandato em novembro.
Republicanos perdem a confiança em seu principal ativo eleitoral
Historicamente, o Partido Republicano era visto como mais competente em temas econômicos. Inflação, emprego e gestão fiscal estavam entre os ativos eleitorais mais sólidos do partido. A pesquisa do Financial Times mostra que essa percepção se inverteu: os democratas agora lideram a confiança dos eleitores em todas essas áreas.
Dentro da própria base republicana, aproximadamente um quarto dos eleitores reconhece piora em sua condição financeira. O saldo de aprovação de Trump entre seus correligionários caiu oito pontos percentuais em relação ao levantamento anterior. Quase 20% dos republicanos registrados desaprovam o desempenho do presidente.
Esses números não são apenas curiosidade política. O enfraquecimento da narrativa econômica republicana pode afetar diretamente as decisões do Congresso sobre política fiscal e regulação nos próximos meses. Um Legislativo mais dividido tende a produzir menos cortes de impostos e mais impasses orçamentários.
O que isso significa para investidores e mercados
A percepção de deterioração econômica nos Estados Unidos não fica contida dentro de suas fronteiras. Quando 55% dos eleitores americanos desaprovam o governo e a confiança do consumidor cai, os efeitos se espalham.
Primeiro, há o impacto direto no consumo. Os Estados Unidos respondem por cerca de 25% do PIB global. Uma retração no gasto das famílias americanas afeta cadeias de suprimento, exportadores de commodities e mercados emergentes. O Brasil, como fornecedor de matérias-primas, sente isso de forma direta.
Segundo, a persistência da inflação em 3,4% dificulta o trabalho do Federal Reserve. O mercado esperava que os cortes de juros seriam mais agressivos em 2026, mas a resiliência dos preços mantém o Fed em posição cautelosa. Juros mais altos por mais tempo nos EUA significam dólar mais forte, o que pressiona moedas emergentes e ativos de risco em todo o mundo.
Terceiro, existe o fator político. As eleições legislativas de novembro de 2026 funcionam como referendo sobre a gestão Trump. Se os republicanos perderem espaço significativo no Congresso, a agenda econômica do governo ficará travada. Isso inclui desde cortes de impostos prometidos até a desregulamentação financeira que beneficiaria bancos e fintechs.
A Casa Branca rebate, mas os dados pesam
Em resposta ao levantamento, o governo afirmou que tem adotado medidas para reduzir custos, diminuir preços de medicamentos, recuperar empregos e cortar impostos. O porta-voz Kush Desai declarou que “o governo Trump continua a cumprir a agenda da acessibilidade de custos do presidente”.
O discurso oficial, no entanto, esbarra na aritmética. A inflação segue acima do nível herdado, o conflito no Irã adiciona incerteza ao cenário energético e a percepção dos eleitores se deteriora de forma consistente. Quase dois terços dos entrevistados dizem acreditar que o país segue na direção errada. Apenas um em cada quatro vê o rumo como correto.
Para o investidor brasileiro, o recado é pragmático: o ambiente político americano está mais instável do que os índices de bolsa sugerem. A economia dos EUA pode estar crescendo em termos de PIB, mas a distribuição desse crescimento claramente não está chegando à maioria das famílias. E quando a percepção se descola dos indicadores agregados por tempo demais, é a percepção que costuma vencer nas urnas e, eventualmente, nos mercados.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
