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Stripe pode comprar PayPal: o que muda no mercado de pagamentos

Negociações entre Stripe, Advent e PayPal esquentam e podem resultar na maior aquisição da história das fintechs. Entenda o impacto no setor.

Stripe pode comprar PayPal: o que muda no mercado de pagamentos
Foto: Markus Winkler / Unsplash

Stripe e Advent retomam negociações para comprar o PayPal

Uma das maiores operações da história do setor financeiro digital pode estar prestes a se concretizar. Stripe e o fundo de private equity Advent International retomaram negociações para adquirir o PayPal, em conversas que ganharam intensidade nas últimas semanas. A oferta inicial, feita em julho, avaliava o PayPal em cerca de US$ 53 bilhões, a US$ 60,50 por ação.

O PayPal recusou a proposta naquele momento, mas as conversas nunca cessaram por completo. Segundo fontes ligadas às negociações, um acordo pode ser fechado nas próximas semanas. Ambas as empresas se recusaram a comentar publicamente os rumores.

Se concretizada, a transação seria a maior aquisição já realizada no universo das fintechs e uma das maiores do setor de tecnologia em qualquer época. Mais do que um evento corporativo, o negócio teria potencial para redesenhar o mapa competitivo dos pagamentos digitais globais.

Por que o PayPal está vulnerável a uma aquisição

O PayPal vive um momento de inflexão. A empresa, fundada em 1998 por nomes como Peter Thiel, Elon Musk e Max Levchin, cresceu de forma acelerada durante a pandemia, impulsionada pelo boom do e-commerce. Mas desde então, a trajetória inverteu. O crescimento desacelerou, as margens encolheram e a ação acumula desvalorização significativa em relação aos picos de 2021.

Enrique Lores assumiu como CEO em março deste ano, vindo de uma longa passagem pela HP. Em abril, ele iniciou um plano de reestruturação que incluiu troca de executivos e a divisão do negócio em três unidades operacionais: soluções de checkout e PayPal, serviços financeiros ao consumidor (incluindo o Venmo) e serviços de pagamento com cripto.

Um mês depois, Lores disse a investidores que o PayPal precisava “voltar a ser uma empresa de tecnologia”. O plano de reestruturação inclui cortes drásticos: a força de trabalho deve ser reduzida em 20% nos próximos dois a três anos. É uma empresa em modo de sobrevivência, não de expansão. E isso a torna um alvo natural para compradores com capital e ambição.

O que a Stripe ganha com essa operação

A Stripe é, hoje, a maior empresa privada de tecnologia financeira do mundo, avaliada em torno de US$ 90 bilhões na última rodada secundária. Fundada pelos irmãos irlandeses Patrick e John Collison, a empresa construiu sua reputação como infraestrutura de pagamentos para empresas de tecnologia. Sua base de clientes inclui Amazon, Google e Shopify.

Mas a Stripe tem uma lacuna importante: presença limitada no varejo consumidor. É aí que o PayPal entra. Com mais de 400 milhões de contas ativas e o Venmo como plataforma de pagamentos peer-to-peer dominante nos Estados Unidos, o PayPal traria à Stripe acesso direto ao consumidor final, algo que a empresa nunca conseguiu construir organicamente.

Além disso, a operação criaria um gigante com presença em toda a cadeia de valor dos pagamentos. A Stripe domina o back-end, processando transações para empresas. O PayPal domina o front-end, com checkout e carteiras digitais reconhecidas pelo consumidor. Juntas, as duas empresas formariam um ecossistema integrado capaz de competir de igual para igual com Visa, Mastercard e Apple Pay, como discutimos em análises anteriores sobre a transformação do sistema financeiro.

O papel do Advent e a engenharia financeira por trás do negócio

O Advent International não é um coadjuvante nesta operação. O fundo de private equity, com mais de US$ 90 bilhões sob gestão, tem histórico de investimentos em empresas de tecnologia financeira e pagamentos. Sua participação seria essencial para viabilizar o financiamento de uma aquisição dessa magnitude.

A estrutura provável envolveria uma combinação de capital próprio da Stripe, recursos do Advent e dívida corporativa. Uma transação de US$ 53 bilhões ou mais exigiria engenharia financeira sofisticada, possivelmente com a criação de uma holding que abrigasse as operações combinadas.

Para a Stripe, trazer o Advent como parceiro também reduz o risco. A empresa não precisaria comprometer toda a sua estrutura de capital em uma única aposta. O fundo, por sua vez, teria acesso a um ativo com potencial significativo de valorização caso a reestruturação do PayPal se concretize sob nova gestão.

Impacto no mercado de pagamentos e no ecossistema cripto

A fusão teria consequências diretas para o setor de criptomoedas. O PayPal é uma das maiores plataformas que oferecem compra, venda e custódia de ativos digitais para o varejo nos Estados Unidos. A empresa processou bilhões em volume cripto nos últimos anos e lançou sua própria stablecoin, a PYUSD.

Se a Stripe assumir o controle, a divisão cripto do PayPal pode ganhar tração ou ser reavaliada. A Stripe já demonstrou interesse no setor, tendo integrado pagamentos com stablecoins em sua plataforma. Uma combinação das duas operações cripto poderia acelerar a adoção institucional de stablecoins como trilhos de pagamento.

No lado da concorrência, reguladores antitruste nos Estados Unidos e na Europa certamente examinariam o negócio com lupa. A combinação criaria uma empresa com participação significativa no mercado global de pagamentos online, o que pode atrair condições e desinvestimentos obrigatórios.

O que observar nas próximas semanas

As negociações ainda podem fracassar. O PayPal já recusou a oferta inicial e pode considerar o preço insuficiente, especialmente se o plano de reestruturação de Lores começar a mostrar resultados. Por outro lado, a pressão dos acionistas por criação de valor pode empurrar o conselho na direção de um acordo.

Para o mercado de tecnologia e pagamentos, o sinal é claro: a era da consolidação das fintechs chegou. Empresas que cresceram em ritmo acelerado durante a pandemia agora enfrentam a escolha entre se reinventar sozinhas ou buscar escala por meio de fusões. O desfecho dessa negociação pode definir os rumos do setor pelos próximos dez anos.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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