PayPal pode ser vendida para Stripe e Advent: o que está em jogo
Negociações entre PayPal, Stripe e a gestora Advent esquentam e podem resultar em uma das maiores aquisições da história das fintechs. Entenda o impacto.
Uma das maiores operações da história recente do setor de fintechs pode estar a poucas semanas de se concretizar. Segundo apuração do Wall Street Journal, as negociações para que a Stripe e a gestora de private equity Advent International adquiram o PayPal voltaram a ganhar tração, após uma primeira proposta de US$ 60,50 por ação, que avaliava a empresa em cerca de US$ 53 bilhões, ter sido recusada em julho.
O PayPal não comentou o assunto. A Stripe limitou-se a dizer que “não comenta rumores ou especulações”. Mas os bastidores indicam que as conversas nunca pararam de fato. Um acordo pode se materializar nas próximas semanas.
Se confirmada, a transação seria mais do que uma mudança de controle acionário. Representaria uma reconfiguração profunda do mercado global de pagamentos digitais, com implicações diretas para consumidores, comerciantes e concorrentes em todo o mundo.
Por que o PayPal está vulnerável a uma aquisição
O PayPal foi fundado em 1998 por um grupo que inclui Peter Thiel, Elon Musk e Max Levchin. Durante a pandemia, a empresa surfou o boom do comércio eletrônico e viu suas ações dispararem. O problema veio depois: com a normalização do varejo físico e a concorrência cada vez mais acirrada de Apple Pay, Google Pay e da própria Stripe, o PayPal perdeu protagonismo.
As ações da companhia, que chegaram a superar US$ 300 em 2021, passaram por uma queda brutal nos anos seguintes. A empresa entrou em um ciclo de estagnação de receita e perda de relevância estratégica. A base de usuários continuou grande, mas o crescimento desacelerou e as margens encolheram.
Enrique Lores assumiu o comando em março deste ano, vindo da HP, com mandato claro para executar um turnaround. Em abril, reestruturou a liderança e dividiu o negócio em três verticais: soluções de checkout e PayPal, serviços financeiros ao consumidor (incluindo o Venmo) e serviços de pagamento e cripto. Em maio, disse a investidores que a empresa precisava “voltar a ser uma empresa de tecnologia”. Anunciou também um plano de corte de custos que prevê redução de 20% do quadro de funcionários nos próximos dois a três anos.
A combinação de valuation deprimido, reestruturação em andamento e pressão competitiva transformou o PayPal em um alvo natural para aquisição.
O que a Stripe ganha com essa compra
A Stripe é hoje a maior empresa privada de tecnologia financeira do mundo, avaliada em cerca de US$ 90 bilhões em sua última rodada secundária. Fundada pelos irmãos irlandeses Patrick e John Collison, a empresa domina o processamento de pagamentos para empresas de tecnologia e comércio eletrônico. Sua força está no backend: APIs robustas, infraestrutura de pagamentos para desenvolvedores e uma presença global crescente.
O que falta à Stripe, porém, é exatamente o que o PayPal tem de sobra: uma marca de consumo reconhecida mundialmente, uma carteira digital com centenas de milhões de usuários e o Venmo, que é praticamente sinônimo de transferência peer-to-peer nos Estados Unidos. Como analisamos em matérias anteriores sobre o futuro do setor de pagamentos, a convergência entre infraestrutura B2B e experiência de consumo é a grande fronteira para fintechs globais.
Adquirir o PayPal daria à Stripe acesso imediato a essa camada de consumo, além de escala em mercados emergentes onde o PayPal já opera. A vertical de cripto do PayPal, que inclui a stablecoin PayPal USD (PYUSD), também seria um ativo estratégico relevante para a Stripe, que tem ampliado sua exposição ao universo de ativos digitais.
O papel da Advent e a estrutura do negócio
A presença da Advent International na mesa de negociação não é casual. Gestoras de private equity têm participado cada vez mais de megadeais no setor de tecnologia, trazendo capital paciente e expertise operacional para reestruturações complexas. A Advent, com mais de US$ 90 bilhões sob gestão, já tem histórico em fintechs e serviços financeiros.
A estrutura provável do negócio envolveria a Stripe ficando com as operações estratégicas de checkout e pagamentos, enquanto a Advent poderia assumir ou reestruturar partes do negócio com perfil mais operacional, como o Venmo ou os serviços financeiros ao consumidor. Essa divisão permitiria otimizar cada vertical sem sobrecarregar o balanço da Stripe.
O valor inicial da oferta rejeitada, US$ 53 bilhões, já representava um prêmio sobre a cotação do PayPal na época. Uma nova proposta tende a ser maior, o que elevaria o negócio ao patamar das maiores aquisições de tecnologia da história, ao lado de compras como a da VMware pela Broadcom (US$ 69 bilhões) e a do LinkedIn pela Microsoft (US$ 26 bilhões).
O que isso significa para o mercado brasileiro
O PayPal tem operação ativa no Brasil, utilizado tanto por consumidores em compras internacionais quanto por pequenos comerciantes que vendem para o exterior. Uma eventual aquisição pela Stripe poderia acelerar a entrada mais agressiva da empresa irlandesa no mercado brasileiro, onde ainda opera de forma relativamente discreta se comparada a concorrentes locais como Mercado Pago, PagSeguro e Stone.
Para o ecossistema cripto, a transação também gera desdobramentos. O PayPal foi uma das primeiras grandes fintechs a lançar uma stablecoin própria e a oferecer compra e venda de criptomoedas diretamente no app. A continuidade e expansão desses serviços sob nova gestão é uma questão em aberto. Como discutimos em análises sobre a adoção institucional de criptoativos, o envolvimento de grandes players de pagamentos é um dos vetores mais relevantes para a popularização dos ativos digitais.
O desfecho das negociações deve ficar mais claro nas próximas semanas. Mas, independentemente do resultado, o fato de o PayPal estar na mesa de negociação já diz muito sobre o momento do setor. A era das fintechs independentes e supervalorizadas parece dar lugar a uma fase de consolidação, onde escala, eficiência e integração valem mais do que crescimento a qualquer custo.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
