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Pentágono empresta US$ 1,4 bi para startup de baterias sem China

Startup americana Sila recebe empréstimo bilionário do Departamento de Defesa para expandir fábrica de material que promete substituir grafite chinês em baterias.

Pentágono empresta US$ 1,4 bi para startup de baterias sem China
Foto: Heru Dharma / Unsplash

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos anunciou um empréstimo de US$ 1,4 bilhão para a Sila, startup americana que fabrica material de anodo à base de silício e carbono para baterias de íon-lítio. O objetivo é claro: acelerar uma cadeia de suprimentos doméstica para componentes de baterias e reduzir a dependência da China, que hoje domina o mercado global de grafite, o material mais usado em anodos convencionais.

O movimento não é isolado. Junto com o empréstimo à Sila, o Pentágono também fechou acordos com outras três empresas de materiais críticos, totalizando mais de US$ 2 bilhões em investimentos direcionados a reduzir gargalos estratégicos. É o tipo de aposta industrial que sinaliza uma mudança estrutural na forma como os EUA pensam sua infraestrutura de defesa e energia.

Por que o grafite chinês virou problema de segurança nacional

A maior parte dos anodos de baterias de íon-lítio produzidos no mundo usa grafite. E a cadeia de suprimentos desse material é amplamente controlada por empresas chinesas. Para compradores americanos, de montadoras a fabricantes de equipamentos militares, isso cria uma vulnerabilidade que se tornou impossível de ignorar em meio às tensões geopolíticas e à escalada de tarifas comerciais.

A Sila fabrica seu material de silício-carbono em Moses Lake, no estado de Washington. Isso faz dela uma das poucas fontes de material de anodo nos EUA que não está sujeita a tarifas ou a riscos de interrupção de fornecimento ligados a disputas entre potências. A fábrica começou a operar em setembro e, no tamanho atual, produz cerca de 2 gigawatt-hora de material de anodo por ano.

O plano com o novo empréstimo é quintuplicar a capacidade da planta, o suficiente para abastecer a produção de mais de 100 mil veículos elétricos. Para um setor que enfrenta desafios constantes de escala, esse salto de capacidade é significativo.

O que muda com anodos de silício nas baterias

Diversas empresas, incluindo Group14 e Amprius, estão investindo em anodos de silício como alternativa ao grafite. A promessa é armazenar entre 20% e 40% mais eletricidade do que os anodos tradicionais. Traduzindo: baterias com maior densidade energética, que podem durar mais ou ser menores e mais leves.

Para aplicações de defesa, esses atributos são especialmente relevantes. Drones que voam mais longe, equipamentos portáteis que duram mais tempo em campo e veículos blindados elétricos que não precisam de baterias enormes para funcionar. O mesmo vale para o mercado civil: veículos elétricos com mais autonomia e tempo de carregamento menor são o grande objetivo da indústria.

A Sila já possui acordos firmados com a Mercedes e com a Panasonic. O empréstimo do Pentágono pode abrir portas para contratos diretos com empresas de defesa, que vêm recebendo contratos bilionários à medida que conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia se prolongam.

Um pacote maior de apostas em materiais críticos

O empréstimo à Sila faz parte de um pacote mais amplo de investimentos do Departamento de Defesa em materiais estratégicos. Ao lado do acordo com a startup, foram anunciados outros três negócios.

A australiana Sunrise Energy Metals vai receber US$ 400 milhões para minerar escândio, um elemento de terras raras usado em ligas leves. A Niron Magnetics, de Minnesota, recebeu US$ 150 milhões para fabricar ímãs sem terras raras, aplicáveis a smartphones, mísseis e motores elétricos. E o governo fez um investimento de US$ 85 milhões em participação acionária na Strategic Bauxite, mineradora de bauxita, mineral que contém alumínio.

No total, são mais de US$ 2 bilhões direcionados para diminuir a dependência americana de cadeias de suprimentos concentradas em poucos países. A estratégia reflete uma tendência que ganhou força nos últimos anos: a disputa entre EUA e China por dominância tecnológica e industrial está moldando decisões de investimento de governos e empresas privadas.

O que isso significa para o investidor que acompanha tecnologia

A Sila já captou mais de US$ 1,5 bilhão de investidores privados, segundo dados da PitchBook. Em julho, levantou US$ 300 milhões em uma rodada liderada por Atreides Management e Sutter Hill Ventures para financiar a expansão da fábrica. Com o empréstimo do Pentágono, a empresa passa a ter acesso a capital barato para escalar sua operação sem diluir participação acionária.

Para quem acompanha o setor, o sinal é de que o governo americano está disposto a bancar o risco industrial de criar uma cadeia doméstica de baterias. Isso tem implicações diretas para empresas de veículos elétricos, fabricantes de componentes e, em última instância, para a geopolítica da transição energética.

Não se trata apenas de baterias melhores. Trata-se de quem controla os insumos que vão definir a próxima geração de tecnologia militar e civil. Num cenário em que tarifas comerciais podem mudar da noite para o dia e conflitos geopolíticos redesenham rotas de suprimentos, ter produção doméstica de materiais críticos deixou de ser vantagem competitiva e passou a ser questão de segurança nacional.

A aposta do Pentágono na Sila é, acima de tudo, uma admissão: os Estados Unidos não podem depender de um único país para os componentes que alimentam desde carros elétricos até sistemas de defesa. O tamanho do cheque, US$ 1,4 bilhão, mostra o grau de urgência.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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