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Berkshire Hathaway dobra lucro no 2T26: o que explica o salto

Conglomerado de Warren Buffett lucrou US$ 25,6 bi no 2T26, puxado por ganhos de US$ 16 bi em investimentos. Receita passou de US$ 100 bi no trimestre.

Berkshire Hathaway dobra lucro no 2T26: o que explica o salto
Foto: William Doll II / Unsplash

Berkshire Hathaway registra lucro de US$ 25,6 bilhões no 2T26

A Berkshire Hathaway reportou lucro líquido de US$ 25,667 bilhões no segundo trimestre de 2026, resultado que praticamente dobra os US$ 12,370 bilhões registrados no mesmo período de 2025. O salto de 107% em base anual coloca o conglomerado de Warren Buffett em um dos seus melhores momentos operacionais da última década.

A receita total do trimestre alcançou US$ 101,808 bilhões, contra US$ 92,515 bilhões um ano antes. É um avanço de 10% na linha de cima, o que, isoladamente, já seria relevante para uma empresa do porte da Berkshire. Mas o que realmente chamou atenção foi o que aconteceu abaixo da receita.

No acumulado do primeiro semestre de 2026, o lucro atingiu US$ 35,77 bilhões, representando um crescimento anual de 111%. São números que exigem contexto para serem compreendidos, e é aí que a história fica interessante.

Ganhos com investimentos puxaram o resultado

O principal motor do salto no lucro veio dos ganhos com investimentos, que somaram US$ 16,077 bilhões no trimestre. No segundo trimestre de 2025, esse mesmo item havia registrado US$ 6,364 bilhões, o que significa uma alta de 152% nessa linha específica.

A própria Berkshire fez questão de ressaltar, no comunicado de resultados, que essas oscilações têm pouco valor analítico para avaliar o desempenho recorrente do conglomerado. O motivo é simples: desde que as normas contábeis americanas passaram a exigir a marcação a mercado de participações acionárias, o lucro da Berkshire oscila violentamente de trimestre para trimestre, refletindo a variação dos preços das ações que compõem seu portfólio.

Ou seja, parte significativa desse lucro é, na prática, um ganho não realizado. A carteira de ações da Berkshire, que inclui posições massivas em empresas como Apple e diversas seguradoras, se valorizou de forma expressiva no período. Quando o mercado acionário americano sobe, o lucro da Berkshire tende a inflar. Quando cai, o oposto acontece. Foi exatamente isso que analisamos em outros ciclos do mercado financeiro nos quais a volatilidade contábil distorceu a leitura dos resultados.

O que os números operacionais revelam

Para além dos ganhos com investimentos, os fundamentos operacionais da Berkshire seguem sólidos. O lucro antes de impostos atingiu US$ 32,063 bilhões, mais que o dobro dos US$ 14,750 bilhões do segundo trimestre de 2025.

Um detalhe que merece atenção é a alíquota efetiva de imposto de renda, que subiu de 15,5% para 19,6% no comparativo anual. As despesas com imposto totalizaram US$ 6,291 bilhões. Essa elevação na carga tributária efetiva pode refletir tanto a composição geográfica dos resultados quanto a natureza dos ganhos realizados, com maior proporção de ganhos de capital de curto prazo, que tendem a ser tributados a alíquotas mais elevadas nos Estados Unidos.

O ponto central, no entanto, é que mesmo descontando os ganhos com investimentos, o conglomerado mantém uma máquina geradora de caixa robusta. As operações de seguros, ferrovias, energia e varejo da Berkshire continuam entregando resultados consistentes, como costuma acontecer com empresas com posição dominante em seus setores.

Por que isso importa para o investidor brasileiro

A Berkshire Hathaway é frequentemente usada como termômetro do capitalismo americano. Seus resultados refletem, ao mesmo tempo, a saúde das empresas operacionais que controla e a direção dos mercados de capitais. Quando o conglomerado reporta ganhos expressivos com investimentos, isso geralmente sinaliza que o mercado acionário americano passou por um período de valorização.

Para investidores brasileiros com exposição a ativos internacionais, o resultado reforça a tese de que a diversificação geográfica continua relevante. Enquanto o mercado doméstico enfrenta seus próprios desafios com juros elevados e volatilidade cambial, o mercado americano tem apresentado valorização consistente, o que beneficia diretamente quem possui BDRs, ETFs internacionais ou ações listadas nas bolsas americanas.

Há ainda a questão sucessória, que segue como pano de fundo permanente para qualquer análise da Berkshire. A transição de liderança já está em curso, e o mercado observa atentamente como as decisões de alocação de capital evoluem sob a nova gestão. A estratégia de acumulação de caixa que a empresa adotou nos últimos trimestres sugere cautela em relação a valuations esticados, mesmo em um trimestre de resultados exuberantes.

A armadilha do lucro contábil inflado

É tentador olhar para um lucro que dobrou e concluir que a empresa está voando. Mas a realidade é mais nuançada. A maior parte do crescimento veio de reavaliação de ativos, não de maior geração de receita operacional. O crescimento de receita de 10% é saudável, mas incompatível com um salto de 107% no lucro.

Buffett sempre alertou os acionistas para ignorarem a linha de lucro líquido trimestral, justamente por causa dessas distorções contábeis. O próprio conglomerado reiterou esse ponto no comunicado mais recente. Investidores sofisticados devem olhar para o lucro operacional, excluindo ganhos e perdas com investimentos, para avaliar a verdadeira performance do negócio.

Ainda assim, o resultado é emblemático de um trimestre positivo para o mercado americano como um todo. E serve como lembrete de que, em ciclos de alta, conglomerados com grandes portfólios de ações tendem a reportar números que parecem extraordinários, mas que podem se reverter com a mesma velocidade quando o vento muda.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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