Wintermute recebe aval da SEC para operar em ações e ETFs nos EUA
A formadora de mercado cripto Wintermute obteve registro de broker-dealer nos EUA e agora pode negociar ações, opções e atuar em ETFs, incluindo fundos ligados a criptomoedas.
A Wintermute, uma das maiores formadoras de mercado do universo cripto, acaba de cruzar uma fronteira que poucos players nativos de ativos digitais conseguiram atravessar. A empresa registrou sua subsidiária americana, a Wintermute USA LLC, como broker-dealer junto à SEC e à FINRA, o que lhe dá acesso regulado ao mercado de ações, opções e ETFs nos Estados Unidos.
A operação não será voltada ao varejo. A unidade vai funcionar como mesa proprietária, fornecendo liquidez a bolsas e contrapartes no mercado de balcão. Mas o movimento sinaliza algo maior: a convergência acelerada entre a infraestrutura cripto e o mercado financeiro tradicional.
O que muda com o registro de broker-dealer da Wintermute
Com o novo status regulatório, a Wintermute pode atuar como participante autorizada de ETFs. Na prática, isso significa que a empresa poderá criar e resgatar grandes blocos de cotas de fundos negociados em bolsa diretamente com os emissores, um papel essencial para manter o preço de mercado de um ETF alinhado ao valor dos ativos que ele detém.
Esse mecanismo é particularmente relevante para os ETFs atrelados a criptomoedas, que enfrentam desafios de liquidez e spread maiores do que fundos tradicionais. A presença de uma formadora de mercado com volume diário superior a US$ 10 bilhões, operando em mais de 60 plataformas centralizadas e descentralizadas, pode reduzir ineficiências de preço nesses produtos.
A Wintermute também poderá buscar credenciamento como formadora de mercado na New York Stock Exchange e na Nasdaq. Segundo informações do mercado, a empresa já mantém acordos alinhavados com emissores de ETFs para início das operações.
Uma tendência maior: empresas cripto comprando acesso a Wall Street
O movimento da Wintermute não é isolado. Ele faz parte de uma onda de empresas nativas de cripto que estão adquirindo ou construindo estruturas reguladas para operar no mercado financeiro americano.
A Ripple, por exemplo, concluiu a aquisição da prime broker Hidden Road por US$ 1,25 bilhão em 2025. A GSR, outra formadora de mercado cripto de grande porte, comprou a Equilibrium Capital Services, que já possuía licença de broker-dealer. A Crypto.com adquiriu a Watchdog Capital em 2024.
Cada uma dessas operações segue uma lógica semelhante: em vez de esperar que a regulação se adapte ao mercado cripto, essas empresas estão comprando as licenças necessárias para operar dentro do arcabouço existente. É uma estratégia pragmática que reflete o amadurecimento do setor e a percepção de que a linha entre ativos digitais e mercados tradicionais está se dissolvendo.
Por que isso importa para o mercado de ETFs cripto
O ecossistema de ETFs de criptomoedas nos Estados Unidos cresceu de forma expressiva desde a aprovação dos primeiros fundos de Bitcoin à vista em janeiro de 2024. Contudo, a infraestrutura de mercado por trás desses produtos ainda é jovem quando comparada à dos ETFs tradicionais.
Os participantes autorizados são peças fundamentais nessa engrenagem. Quando há demanda elevada por um ETF, eles criam novas cotas comprando os ativos subjacentes. Quando há pressão vendedora, fazem o caminho inverso. Sem participantes autorizados eficientes, o preço de um ETF pode se descolar significativamente do valor real de sua carteira, gerando prejuízo para investidores.
A entrada da Wintermute nesse segmento adiciona um player com profunda experiência em liquidez cripto ao processo de formação de preço dos ETFs. A empresa movimenta, em média, mais de US$ 10 bilhões por dia, o que a coloca entre as maiores formadoras de mercado do setor globalmente. Essa escala pode contribuir para melhorar a eficiência dos ETFs cripto e reduzir custos para investidores finais.
O plano de longo prazo: títulos tokenizados e autocustódia
Antes mesmo do registro como broker-dealer, a Wintermute já vinha construindo presença nos Estados Unidos. A empresa abriu sua sede em Nova York no ano passado e, em seguida, solicitou à SEC uma confirmação formal de que broker-dealers poderiam negociar títulos tokenizados por conta própria, realizar autoliquidação de transações e manter posições proprietárias por meio de software de carteira digital.
Esse pedido revela a ambição de longo prazo da empresa: não apenas operar dentro das regras atuais, mas influenciar a forma como essas regras evoluem. Se a SEC aceitar que broker-dealers podem autoliquidar operações com ativos tokenizados usando wallets, isso abrirá precedente para que toda a infraestrutura de custódia e liquidação migre gradualmente para trilhos blockchain.
É um cenário que ainda está distante da realidade, mas que ganha contornos mais concretos a cada trimestre. A tokenização de ativos do mundo real movimentou mais de US$ 17 bilhões em 2024, segundo dados de plataformas de monitoramento on-chain, e o ritmo de crescimento continua acelerado.
O que isso sinaliza para o investidor
Para quem investe em criptomoedas ou em ETFs cripto no mercado americano, a chegada de novos participantes autorizados com experiência nativa em ativos digitais tende a ser positiva. Mais liquidez, spreads menores e melhor formação de preço são consequências diretas de um mercado com infraestrutura mais robusta.
Mas o sinal mais importante talvez seja estrutural. A fronteira entre cripto e mercado tradicional não está apenas ficando mais fina. Ela está sendo ativamente desmontada por empresas que entendem os dois lados e estão dispostas a investir bilhões para operar em ambos. O mercado financeiro do futuro provavelmente não será “cripto” ou “tradicional”. Será um híbrido, e quem está se posicionando agora para operar nesse novo formato larga na frente.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.