Itaú entrega ROE de 24,3% e crédito saudável no 2T
Lucro de R$ 12,4 bi veio em linha com consenso. Revisão do guidance de serviços já era esperada e não abalou o mercado. O que importa é o crédito.
O Itaú Unibanco entregou mais um trimestre previsível. E, no ambiente macroeconômico atual, previsibilidade vale ouro. O lucro líquido recorrente foi de R$ 12,4 bilhões no segundo trimestre, alta de 8% na comparação anual e de 1% no sequencial, exatamente em linha com o consenso de mercado.
O retorno sobre patrimônio líquido (ROE) ficou em 24,3%. Houve uma leve queda frente aos 24,8% do primeiro trimestre, mas o número segue confortavelmente acima dos 23,3% registrados um ano atrás. Para um banco do porte do Itaú, manter ROE nesse patamar com o ciclo de crédito se deteriorando no Brasil é um feito que não deveria passar despercebido.
Revisão do guidance: por que o mercado não se assustou
O ponto que poderia ter gerado ruído foi a revisão para baixo no guidance de receitas de prestação de serviços e seguros. O banco agora projeta crescimento entre 2% e 5% nessas linhas, ante a faixa anterior de 5% a 9%. A redução é relevante, mas não pegou ninguém de surpresa.
Nas semanas anteriores à divulgação, o banco já vinha sinalizando a analistas que os números de serviços estavam mais fracos. Isso gerou rumores de que o balanço inteiro poderia decepcionar, o que acabou não acontecendo. O resultado veio, nas palavras de um gestor do buyside, “bem a cara do Itaú”.
A explicação oficial para a revisão é a “maior volatilidade no mercado de capitais do que a projetada no início do ano”. Na prática, as operações de dívida, que vinham sustentando a linha de receitas com mercado de capitais, perderam tração em abril e maio. Conflitos geopolíticos e problemas pontuais de crédito no mercado brasileiro reduziram as captações de fundos e travaram o pipeline de emissões.
As receitas com assessoria financeira e corretagem cresceram 32,5% na comparação anual, mas já mostraram uma queda marginal de 1,3% no trimestre. É um sinal de que o ritmo de atividade no mercado de capitais brasileiro está desacelerando.
Tarifas em queda: aposta estratégica de longo prazo
Outro fator que pressionou as receitas de serviços foi uma decisão deliberada do próprio Itaú. O banco vem reduzindo tarifas que considera “não sustentáveis”, especialmente as cobradas em contas correntes de clientes com maior relacionamento. As receitas com contas de pessoas físicas caíram 7,4% no trimestre e 21,2% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A lógica é simples: sacrificar receita de tarifa no curto prazo para reter e aprofundar o relacionamento com clientes de alta renda. Num cenário em que fintechs e bancos digitais continuam pressionando os incumbentes pela oferta de contas sem custo, a estratégia faz sentido. Mas ela custa caro nos próximos trimestres.
Um analista do sellside estima que o menor crescimento das receitas de serviços deverá reduzir em cerca de 3% o lucro operacional projetado para o ano. O impacto no lucro líquido, porém, pode ser praticamente nulo graças a um efeito fiscal. Com a Selic elevada, a TJLP se mantém alta, o que amplia o limite de Juros sobre Capital Próprio (JCP) dedutível. Se o Itaú aumentar a distribuição via JCP, a alíquota efetiva de imposto cai e compensa a pressão operacional.
Qualidade do crédito: o número que realmente importa
Se há uma linha que define a saúde de um banco em ciclo adverso, é a inadimplência. E aqui o Itaú entregou o que o mercado mais queria ver: estabilidade.
A inadimplência acima de 90 dias no consolidado, que inclui as operações na América Latina, ficou estável em 1,9% pelo sexto trimestre consecutivo. No Brasil, a taxa subiu marginalmente para 2,1% em junho, ante 2% um ano atrás. São números que contrastam fortemente com a deterioração que outros players do sistema financeiro vêm reportando.
A carteira de crédito cresceu 2,7% no trimestre e 9,6% em 12 meses, alcançando R$ 1,5 trilhão. No Brasil, a expansão foi praticamente idêntica: 2,6% no tri e 9,6% no ano. A margem com clientes avançou 3,3% no trimestre e 5,1% na comparação anual, sinalizando que o banco consegue crescer o crédito com spread saudável, sem forçar a barra na concessão.
Num momento em que o ciclo de crédito brasileiro mostra sinais de estresse, especialmente em pessoas físicas de renda mais baixa e PMEs, a capacidade do Itaú de manter a qualidade da carteira é o maior diferencial competitivo do banco.
O que o resultado diz sobre o setor bancário
Um gestor resumiu o sentimento do mercado: “Se viesse ruim no bottom line e inadimplência, o estresse seria generalizado.” A frase é reveladora. O Itaú funciona como termômetro do setor financeiro brasileiro. Se o maior banco privado do país começasse a mostrar rachaduras no crédito, a leitura para Bradesco, Santander e bancos médios seria muito pior.
Nos últimos 12 meses, a ação do Itaú sobe 23%, contra 34% do Ibovespa, 19% do Nubank e 16% do Bradesco. A performance abaixo do índice pode parecer decepcionante, mas precisa ser lida com contexto. O Itaú já negociava a múltiplos mais esticados, e a alta do Ibovespa nesse período foi puxada por setores cíclicos que se beneficiaram de rotação de portfólio.
O ponto central para investidores é que o Itaú continua sendo o banco mais defensivo do setor. Com ROE acima de 24%, inadimplência controlada e uma gestão que já antecipou ao mercado a revisão do guidance antes de divulgar o balanço, o banco reforça uma tese simples: em tempos de incerteza, consistência vale mais do que crescimento acelerado.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.