Criptomoedas

Bitcoin estagna em US$ 64 mil enquanto bolsas batem recordes

Bolsas globais renovam máximas históricas com rali de IA, mas o bitcoin não acompanha. A desconexão de três sessões aponta para problemas internos do mercado cripto.

Bitcoin estagna em US$ 64 mil enquanto bolsas batem recordes
Foto: Atlantic Ambience / Unsplash

Existe um velho ditado nos mercados: quando a maré sobe, todos os barcos sobem junto. Em 2025, a maré subiu com força para as bolsas globais, impulsionada pelo entusiasmo renovado com inteligência artificial, acordos geopolíticos e expectativas de juros mais baixos. Mas o barco do bitcoin ficou ancorado.

Na quarta-feira, o BTC operava pouco acima de US$ 64 mil, com variação inferior a 1% no dia e praticamente estável na semana. Enquanto isso, o índice MSCI All Country World avançava 0,4% rumo a mais um fechamento recorde, as bolsas da Ásia-Pacífico subiam 2,2% e a bolsa australiana atingia nova máxima histórica. O S&P 500 e o Dow Jones já haviam encerrado o pregão anterior em topos inéditos.

A divergência é significativa. São três sessões consecutivas em que petróleo mais barato, expectativa de corte de juros e apetite por risco nas ações falharam em mover o mercado cripto. E quando os ventos favoráveis sopram e o ativo não se mexe, o problema provavelmente está dentro de casa.

O que explica a desconexão entre bitcoin e bolsas

Para entender o que acontece, é preciso olhar para o contexto mais amplo. O bitcoin está negociando cerca de 49% abaixo dos US$ 126 mil atingidos em outubro de 2024. Enquanto as ações globais acumulam recordes seguidos, puxadas principalmente por papéis ligados a inteligência artificial, o mercado cripto opera em compasso de espera.

A tese de que o bitcoin se comporta como um ativo de risco correlacionado às bolsas perdeu força nas últimas semanas. A SK Hynix, fabricante sul-coreana de chips de memória, subiu 6,4% após a abertura em Seul. A Nvidia avançou mais de 2% no after-hours. Esses são os mesmos catalisadores que, em ciclos anteriores, empurravam o bitcoin para cima junto com o setor de tecnologia. Desta vez, não.

Nem mesmo o Ethereum conseguiu surfar o momento. O ETH recuou para US$ 1.864, acumulando queda de 2% na semana, o único grande ativo no vermelho nesse período. XRP caiu quase 1%, para US$ 1,07. Dogecoin recuou na mesma proporção, para pouco menos de 7 centavos. Solana ficou estável perto de US$ 73,60.

O destaque positivo ficou com o BNB, que avançou mais de 1% para US$ 598 e lidera entre os principais ativos com alta de 5% na semana. O token HYPE, da Hyperliquid, subiu 3%, negociando próximo de US$ 56.

Petróleo, Hormuz e o catalisador que não funcionou

O cenário geopolítico também deveria estar jogando a favor dos ativos de risco. O petróleo Brent caiu 1,1%, para cerca de US$ 78,50 o barril, após reportagens indicarem que Washington, Teerã e Omã estariam próximos de um acordo para reabrir o Estreito de Hormuz, com anúncio previsto para a própria quarta-feira.

Petróleo mais barato significa menos pressão inflacionária, o que reforça a tese de cortes de juros. Os títulos do Tesouro americano avançaram, o ouro também, e os traders reduziram as apostas em novas altas de juros. Tudo isso, em teoria, favorece ativos como o bitcoin, que historicamente se beneficia de ambientes de liquidez mais farta.

Mas o mercado cripto não respondeu. E aqui está o ponto central da análise: quando um ativo não sobe diante de catalisadores positivos, a mensagem é clara. Os compradores estão em outro lugar.

Por que o dinheiro institucional está preferindo ações

A narrativa de inteligência artificial criou um funil poderoso de capital para as bolsas tradicionais. Investidores institucionais que, em 2024, diversificaram parte do portfólio para cripto via ETFs de bitcoin à vista, agora parecem concentrados nos ganhos mais previsíveis das big techs ligadas a IA.

Esse movimento não é inédito. Em ciclos anteriores, períodos de forte rotação setorial nas ações drenaram liquidez do mercado cripto. A diferença é que, desta vez, o bitcoin já vem de uma correção significativa desde sua máxima histórica, o que normalmente atrairia compradores de valor. O fato de que isso não está acontecendo sugere que a correlação entre bitcoin e Nasdaq se enfraqueceu de maneira estrutural, ao menos neste ciclo.

Outro fator a observar é o fluxo de capital para ETFs de bitcoin nos Estados Unidos. Sem dados robustos de entrada de recursos novos, o preço perde sustentação. O mercado de derivativos cripto também mostra pouco entusiasmo: o funding rate está neutro e o open interest não apresenta crescimento expressivo.

O que observar nos próximos dias

O possível anúncio do acordo sobre o Estreito de Hormuz é, objetivamente, o catalisador macro mais limpo que o mercado cripto terá nesta semana. Se o bitcoin não conseguir reagir a um acordo confirmado, depois de já ter ignorado a expectativa dele, a leitura se torna mais pessimista no curto prazo.

Isso não significa que o ativo está condenado a cair. Significa que o mercado cripto precisa de catalisadores próprios para voltar a atrair capital. Pode ser um avanço regulatório relevante, uma surpresa nos fluxos de ETFs ou até um evento específico do ecossistema on-chain.

O ponto é que depender da carona das bolsas tradicionais, que funcionou tão bem em outros momentos, não está funcionando agora. E reconhecer isso é mais útil do que ignorar os sinais. Para quem acompanha o mercado, vale monitorar se o volume de negociação nos pares de bitcoin apresenta recuperação nos próximos pregões, ou se a apatia atual se consolida como tendência de médio prazo.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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